
Será que uma boa ideia pode se esconder atrás de algo tão típico?
Spoilers Abaixo:
Para se falar sobre Alcatraz há de se dar atenção aos tópicos evidentes sobre a série: o fato de ela ser uma produção com a marca J.J Abrams, além da muleta “Produzida pelos criadores de Lost”. Duas afirmações que nós sabemos que em primeira instância, ficam fixadas numa questão estética muito mais do que dramatúrgica. Isso se levarmos em consideração que algumas características da série ainda são muito mais uma busca pela elegância do que pelo destino.
O Piloto já deixou claro que a produção encontrou no layout de Fringe, uma possibilidade de emplacar sucessos na TV. Ao contrário de excessos mitológicos que podem soterrar o espectador de informações, Alcatraz preferiu uma linguagem limpa, que já mostrou que pelo menos por enquanto (a não ser que como Fringe, ela escolha o aprofundamento) o importante é a renovação constante de tramas, pingando em pequenas doses, a mitologia principal. Uma vez que levar uma produção como Lost, com uma leva de episódios que fragmentam um propósito único, se tornou cada vez mais difícil.
Dito isso, Alcatraz começou bem interessante, mostrando que ao contrário do que se pensava, não aconteceram as transferências de prisioneiros para a execução do fechamento do prédio. Eles todos desapareceram e somente agora, muitos anos depois, começaram a reaparecer sem terem envelhecido nem um só dia.
A série vai precisar ser cuidadosa para não esbarrar nas semelhanças com The 4400, que tinha uma premissa parecida: pessoas sendo subtraídas de suas épocas, para serem devolvidas no presente com uma aparente missão. O diferencial de Alcatraz é que os prisioneiros não parecem inocentes do que lhes aconteceu. Há uma atmosfera de conspiração que insinua um entendimento prévio deles.
No piloto, a história de Jack Sylvane foi uma boa apresentação dos personagens e fatos, embora por enquanto, tudo ainda soe pouco crível e didático demais. Algo que poderia ser aliviado se Sam Neil fizesse o que lhe pagaram pra fazer: interpretar. Por isso, a dinâmica entre Rebbeca e Soto foi tão bem sucedida, já que Sarah Jones fugiu, felizmente, do estereotipo da agente solitária e traumatizada (mais uma, aff). Jorge Garcia parece ter conseguido compor um nerd diferente de Hurley, mas assim como com Sarah, ainda não dá pra saber se essas são impressões iniciais sobre personagens que podem se transformar muito. Os dois vivem a trama com mais entrega e destoam da preguiça de Sam Neil, que nem mesmo se esforçou para caracterizar seu personagem como deveria.
Nessa primeira hora, tudo já estava bem estabelecido. As ligações da protagonista com a trama, a maneira como a trama seria conduzida. Ficaram as dúvidas e são a partir delas que a temporada tem a missão de segurar a atenção do espectador.
A partir da segunda hora, com um caso mais interessante que o primeiro, deu pra perceber que o que veremos de Alcatraz nesse início, é competência técnica e pouca ousadia. Ainda precisamos entender se os desaparecidos voltaram todos ao mesmo tempo e porque o personagem de Sam Neil passou de um guarda para o responsável por uma missão cheia de segredos. Ainda precisamos entender a razão do não envelhecimento, e ainda não sabemos qual a intenção daquela reprodução clandestina da aparência da prisão. A única coisa que sabemos é que veremos um prisioneiro por semana e que a ordem de serviço é não assustar e cativar bem aos poucos.
Vendo a série e pensando sobre o que eu ia escrever, percebi como é interessante que estejamos sempre tão dispostos a comprar o modelo televisivo do “Agente do FBI/Polícia que tem parceiro/parceira cômico ou romântico, envolvidos em uma trama pessoal solitária e traumática e desvendando crimes/mistérios”. Consigo pensar em uma dúzia só agora. Por isso, a chegada de Alcatraz na TV tem que ser muito mais uma força criativa do que uma estética cuidadosa. Com nossa cabeça pipocando de referências, o envolvimento fica prejudicado.
Eles parecem saber disso muito bem. O final da segunda hora – com a revelação de que a colega de Sam Neil é uma das desaparecidas da prisão – é um recado claro de que a série quer se firmar no meio dessa luta pelo posto de novo hit e que vai tentar driblar essa sensação de deja vú com roteiros ágeis, mesmo que ligeiramente previsíveis.
O programa foi bem sucedido nas escolhas que fez. Teve sabedoria em não chegar alastrando superioridade e embora a narrativa não tenha oferecido grandes reviravoltas, por enquanto, estou esperançoso quanto ao grande segredo da série. Alguma coisa tenta me fazer ser pessimista a respeito, mas vou fazer por onde ter boa vontade com a turma “dos criadores de Lost” (que não são Damon e Carlton, é claro).