
Se a intenção é só chocar, ligue a TV aberta no domingo que o efeito é o mesmo.
Spoilers Abaixo:
Depois de um começo realmente estranho, inominável, o segundo episódio de American Horror Story veio para estabelecer uma diretriz: vale tudo! O episódio foi tão, mas tão ousado e esquisito que eu estou até agora espantado com ele. Titio Murphy e titio Brad (vamos começar a dar créditos pro moço também) não estão mesmo de brincadeira.
O teaser mais uma vez foi ótimo. Melhor que o primeiro, aliás. As três periguetes dos anos 60, ao som de Age of Aquarius, deixando a pobre Maria prestes a encontrar seu destino trágico pelas mãos de um estranho. O teaser foi bom justamente porque amarrou a história toda de maneira muito mais eficiente que no piloto. A coisa que se esconde no porão da casa – e que foi o foco da estréia – exagerou os propósitos do roteiro, enquanto essa semana a coisa toda ficou mais próxima do verossímil.
Claro que quando uso a palavra “verossímil” estou dentro das proporções do seriado, que já começou, logo no segundo episódio, a revelar as megalomanias de seus criadores. Embora a família não perceba as esquisitices da casa no mesmo grau que o espectador, o nível de tensão a que foram submetidos essa semana é coisa pra season finale. Os novos moradores já começaram a temporada na casa, querendo sair dela. Não dá pra dizer se essa pressa em tornar o imóvel uma pedra no sapato dos Harmons será a decisão mais acertada – visto que não sabemos o que o futuro nos reserva – mas sinto que o senso de desequilíbrio de Murphy já começou a rondar a série. Assim como em Nip/Tuck, chegava uma hora que o mais importante era barbarizar, sem se preocupar com a trama, a natureza dos personagens, ou o bom senso criativo. Se vimos tudo isso já no segundo episódio da temporada, sabe-se lá o que vem pela frente.
Há elementos do programa que eu continuo achando geniais. Moira e suas duas faces são irresistíveis! Assim como a vizinha Constance, que ficou ainda mais interessante depois do bolinho assassino e de descobrirmos que ela teve um monte de filhos com síndrome de down. Jéssica Lange está maravilhosa e toda vez que aparece é como se a série crescesse imensamente. A personagem transita o tempo todo entre a comicidade, sarcasmo, sensualidade, maldade… E tem a Addy, que tem um figurino forçado, mas é muito boa.
Já daquele homem desfigurado que o marido vive encontrando, eu não gosto. É o típico recurso desnecessário que empobrece a atmosfera da série. É claramente uma tentativa de impressionar e estabelecer uma tensão, mas que não funciona porque é gratuita. Assim como Addy sendo trancada num armário cheio de espelhos. O problema não é o armário – até condiz com a personalidade da mãe – mas o fato de ele ser cheio de espelhos. É como se na reunião de pauta alguém dissesse: E se Constance trancasse Addy num armário? – Ótima idéia. E se ele fosse coberto de espelhos? A ação de Constance tem motivação, mas os espelhos são um adorno desnecessário. É gordura. A tensão e o conceito que seria transmitido com a cena não perderiam nada sem eles. É o grande problema da série: insistir em criar cenários de choque, pelo choque.
E mesmo achando que a família Harmon foi aterrorizada cedo demais, as seqüências com a invasão foram ótimas. A ligação dramática com o teaser, a referência contemporânea com os malucos que recriam crimes famosos, a revelação de que Tate também tem uma ligação com Moira e Constance… Enfim, tudo bem organizado e muito bem dirigido. Mas agora fica a pergunta: pra onde vamos? Temos em aberto a gravidez de Viv, o caso de Ben, entre outras pontas soltas que ainda precisam ser exploradas. Mas se no segundo episódio todos já tocaram o terror e provocaram o desespero dos novos moradores, como a temporada pode evoluir? Espero que não comecem um jogo de “quero me livrar da casa e não consigo”.
Por fim, notei o nome de James Wong nos créditos. Wong e Glen Morgan eram uma dupla de gênios na equipe de roteiristas de Arquivo X (quem acompanha a minha série de textos revisitando as temporadas do X-Files já percebeu que eles são muito bons) e também criaram a franquia Premonição. Me animei quando percebi o nome dele lá. Embora sozinho, pode fazer a diferença se começar a escrever episódios.
Tenho esperanças e muito otimismo com relação a AHS. Ainda acho que a digressão criativa de Murphy pode atrapalhar tudo, mas mesmo assim a série é muito ousada e merece toda a nossa atenção.
Diários de Addy 1: A ceninha de Violet com a amiga que foi assustada no porão foi curta, mas ótima. Se investirem no quanto as pessoas são atingidas pela casa, mesmo pelas menores coisas, vão dar de cara com boas possibilidades.
Diários de Addy 2: Constance faz o bolinho, vira pra Addy e diz: - Cuspa! Adoro Constance.
Diários de Addy 3: O plot do marido estava meio deslocado. Serviu só pra tirá-lo da casa e pra trazer a atriz Kate Mara para fazer mais uma personagem meio psicótica.