
Respire fundo. Pegue a prancheta, uma caneta confiável e acomode-se na poltrona da sala, porque está dada a largada para o Aprendiz Universitário. A temporada começa com uma tarefa não muito original, um desempenho sofrível e uma demissão necessária – mas a estréia do programa comporta mais observações. Vamos a elas?
Quero conversar com vocês sobre aspectos formais da exibição pela Record antes de adentrar a análise da tarefa em si, ou o desempenho das equipes. Esse prelúdio mostra que a emissora, enquanto veicula o Aprendiz Universitário, deu ela mesma causa a tropeços dignos de demissão.
O primeiro solavanco desse Aprendiz Universitário veio com as observações irritantes, durante toda a execução da tarefa pelos candidatos, de um giz e de uma locutora que dizia “a equipe Avant tem um novo problema”, ou a minha frase favorita, qual seja “Pan tem uma idéia”. Totalmente descabido, e evidencia algo ainda pior: parece que a produção do programa acha que os episódios têm que ser decorados com enfeitinhos de Telecurso 2000. É quase uma interpretação escolar do que caracteriza o ambiente de uma instituição superior.
Provocativa, a Record ainda nos presenteou com aquela “abertura” fenomenal. Claro, por que ninguém pensou nisso antes? Vamos filmando um escritório e os candidatos vão aparecendo pelo meio do caminho, ao melhor estilo Alf: o ETeimoso. Esqueceram um “t” no nome do Mark Burnett, a iluminação no rosto dos participantes foi baixa, a música de fundo já está tão sambada que ninguém reconhece, e essa de encerrar a sequência com a imagem de baixo pra cima é bem Charlie Chaplin em “O Grande Ditador”. Pouca estatura à parte, achei que já tivéssemos evoluído um pouco.
Houve um terceiro equívoco, e esse é tão desgraçado quanto os anteriores. Quem é o editor desse programa? Sério, vamos dar uma respirada BOA e repensar esses três, quatro, cinco quadros simultâneos na tela. Não dá pra absorver tanta informação – embora, se a gente espremer tudo, não saia uma ceninha de conteúdo. A edição, portanto, foi amadora nesse tocante; você não perceberia, com a musiquinha batida no fundo e as constantes cenas na van, mas a qualidade certamente ficou para trás.
Pegue uma xícara de café e uns biscoitos. Esqueça os biscoitos. Volte para os comentários sobre a tarefa desse primeiro episódio.
Qual era a tarefa? Promover a nova atração da Universal, The Wizarding World of Harry Potter, em um stand para transeuntes de um shopping center paulista. Eis as impressões sobre o trabalho de cada equipe para atingir o objetivo proposto:
AVANT
O maior acerto dos candidatos foi a concentração no cerne da prova. A vitória veio não pelo desempenho excepcional, mas pela vantagem comparativa em relação ao outro grupo, que errou o alvo. A Aimée é um risco que ainda vai comprometer a equipe no futuro, e eu gostaria de ver o Ailton como líder na semana que vem. Nem o Pan, nem a Marília lideraram essa equipe – os integrantes seguiram certas diretrizes e foram atrás do resultado. Há pessoas dizendo que o Pan fechou a boca de muita gente: certamente não a minha. Estivesse ele no meu time, eu o mandaria dormir no hotel. Com a Marília, por sinal.
UP
Com a premissa de mostrar aos frequentadores que a Universal em Orlando tem mais do que apenas um conjunto de parques temáticos, os candidatos se embananaram com os detalhes mais esdrúxulos do planeta. Ora o flyer – também conhecido como exibível de festa de 15 anos – continha um horário errado, ora o pessoal não sabia como organizar os painéis do stand. Percebi, para além das dificuldades de comunicação do Rodrigo, uma Samara bem subserviente, sem assumir muito risco e sem se comprometer logo de cara. A equipe, como a anterior, não tinha um líder: quando muito, tinha cabeças que ficavam se batendo na discussão de cada pormenor. Talvez a Renata tenha confundido a “liderança pelo respeito” com “falta de pulso firme”. E realmente faltou. Pecaram na execução, na conclusão e, apesar da pretensa atenção aos detalhes, escorregaram em um bocado deles.
A sala de reuniões trouxe debates interessantíssimos, como por exemplo sobre a qualidade, o design, o layout, a paragrafação, o tamanho e até o papel do flyer que a bendita da Up criou para promoção do… Parque. Resort. Do que quer que tenham promovido. Também tivemos acesso a imagens exclusivas do péssimo espaço produzido pelos candidatos, em detrimento do sempre excepcional desempenho da equipe adversária. Toda a estrutura da Avant foi construída por sobre vassouras e colheres de madeira, mas você viu alguma coisa a respeito? Não. Se bobear, as imagens do time vencedor tinham até perfume.
A primeira demissão, como resultado da tarefa e dos diálogos robóticos na sala de reuniões, não foi grande surpresa. Ao menos 50% da responsabilidade recai sobre os ombros do project manager, e a Renata não soube convencer os conselheiros ou o João Dória Jr. de que a sua ausência da equipe na tarefa seguinte poderia comprometer a qualidade do trabalho, graças a atributos A, B ou C que não puderam ser demonstrados a contento nessa oportunidade. Por isso, acabou demitida e, francamente, não vai fazer falta alguma.
Antes de concluir a review, preciso falar sobre o novo apresentador. Falaria sobre seus consultores, mas não fizeram qualquer diferença nesse primeiro episódio – mesmo com uma pergunta um tanto quanto intrusiva da Cristiana Arcangeli ainda dentro da tarefa, quando questionou os membros da Up sobre o objetivo principal do trabalho. João Dória Jr., como disse há meses atrás, não criou uma personagem para lidar com os concorrentes desse Aprendiz Universitário. Se você assiste Show Business e compõe o traço de audiência que o programa dá, vai reconhecer que a atração da Bandeirantes é comandada pelo mesmo homem que deu o tom desse primeiro episódio – e isso é um grande erro. Há, na manutenção da imagem profissional e no apreço por uma abordagem menos austera e mais colaborativa, uma grande ofensa ao espírito do programa O Aprendiz, em todas as franquias ao redor do mundo. Os piores carrascos são os que não vestem o capuz, e agora o João faz parte desse rol. Não tenho nada contra não falar palavrão e respeitar horários – eu mesmo faço igual -, mas me oponho à falta desse elemento de intimidação, que contribui para o sucesso do reality show em diversos países.
No mais, nenhum concorrente me chamou a atenção nessa estréia. Ninguém me pareceu o próximo Bill Rancic, o próximo Tom Morello ou mesmo a próxima Omarosa. Todos ainda estão numa massa indistinta de paulistanismos e camaradagem. Não vejo ninguém com aquela chama ardente de competitividade, e isso me assusta bastante. Quer dizer que, com sete oportunidades, a Record ainda não conseguiu montar um cast sequer de peso e personalidade, algo como o que vemos nas temporadas, digamos, do Aprendiz britânico. Os candidatos lá se atropelam por um emprego, sem grandes recompensas entre tarefas. Aqui, temos um milhão de reais em jogo, e as pessoas nessa pasmaceira.
E você, caro leitor? O que achou do primeiro episódio do Aprendiz Universitário com o João Dória Jr.? Gostou de alguém em particular? Concorda comigo ou discorda de mim? Comente, s’il vous plaît.
P.S.: Segundo dados preliminares, a exibição do programa nessa quinta-feira amargou seis míseros pontos de audiência. Vale destacar que o Aprendiz recebeu 16 pontos da atração anterior.
P.S.2: Eu preferiria ver os nomes das equipes sendo escolhidos pelos candidatos. Não tenho nada contra Avant, mas Up me parece meio “nomes-dinâmicos-criados-por-publicitários-recém-formados-de-São-Paulo”. Por sinal, Avant é uma palavra francesa – pronuncia-se “avon” ou no máximo “avã”, e não “avante”. Não tem “e” no final. E sim, eu estou implicando.
P.S.3: A tarefa é uma réplica paraguaia de uma prova que ocorreu na presente edição do Celebrity Apprentice americano. As equipes lá tinham que criar um stand interativo que trouxesse a crianças e adolescentes um gostinho de quero mais do The Wizarding World of Harry Potter, em Orlando. Não havia shopping center – os stands ficavam em salas para exibição específica a meninos e meninas que curtiam os filmes e livros do bruxo. Foi ao ar na semana retrasada.
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