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Lost e Seus Personagens: O ser humano dissecado na TV

Esse post faz parte do aquecimento Série Maníacos para a última temporada de Lost

Poder conhecer a si mesmo, buscar respostas, testar seus medos e suas habilidades e apagar memórias dolorosas são coisas que qualquer ser humano, em qualquer momento de sua vida, vai desejar. E eu conheço um grupo de pessoas que puderam vivenciar essas experiências… Graças a queda de um tal vôo 815 da Oceanic Airlines.

As diferentes experiências vividas por cada sobrevivente do voo 815 durante 5 temporadas de Lost gerariam vários e vários posts. Um sobre cada personagem, se duvidar. Mas algumas coisas estão presentes nas experiências vivenciadas por todos eles, talvez porque a história da série exigisse, talvez porque são coisas que angustiam todo ser humano. Somos falhos, propensos a erros, que podem nos corroer o resto de nossas vidas. Temos problemas de auto-estima, por isso nos escondemos atrás de máscaras, e nos perdemos de nós mesmos. E gostaríamos de ter um controle da nossa vida e de nossas ações, afinal, o maior defeito da Vida é não ter um manual. Por isso destaquei três experiências que cada personagem teve a oportunidade de vivenciar durante a série: Auto-conhecimento, Sobrevivência e Superação. E para ilustrar esse artigo escolhi três personagens especiais da série, já que, em diferentes momentos, assumiram o papel de líder, e são eles: Jack, John e James.

Lembro que todos os três, em variados momentos da trama, já vivenciaram todas essas experiências, mas alguns foram guiados predominantemente por uma delas e isso influenciou toda a sua trajetória. Lembro também que o que vou expor agora á uma opinião e não necessariamente condiz com a realidade, ou com o planejado pelos produtores para os personagens.

AUTO-CONHECIMENTO – Jack Shephard:

Logo após a queda do avião, já no episódio piloto, a situação coloca Jack no papel de líder. Único médico no vôo, é dele a responsabilidade de acalmar os ânimos, cuidar dos feridos e dar um pouco de esperança para os sobreviventes. Não lhe foi perguntado se ele queria essa função e muito menos houve uma votação para a escolha do líder. Esse “trabalho” simplesmente lhe foi empurrado e Jack aceitou de braços abertos. Mais adiante na trama, vimos em um de seus primeiros flashbacks que ele tinha problemas com liderança. Isso gerou diversas discussões com seu pai, que não achava que o filho fosse capaz de ser um líder e de assumir todas as responsabilidades e tomar as decisões necessárias. Mas a queda do avião, de certa forma, indicava um recomeço para todos naquela ilha.

E assim Jack liderou seus companheiros por 4 Temporadas. Ele foi um bom líder? Inegavelmente sim. Foi o melhor? Não. Tomou somente decisões corretas? Definitivamente não. Mas tomou suas decisões pensando em fazer o melhor? Sim.

A história de Jack talvez seja uma das mais bonitas em Lost. A mais épica, de fato, é. Jack é o clássico herói trágico. Quando o avião caiu e ele teve uma segunda chance na sua vida – que já era fracassada, no trabalho, na sua relação com seu pai e no seu casamento falido – ele pegou essa segunda chance e a desperdiçou. Mais uma vez ele fez tudo o que poderia ter feito de errado e as conseqüências do seu erro o consomem. E ele não errou por ser um fracassado total. Ele errou tentando. Durante toda a sua liderança tudo o que ele queria era arranjar o tão aguardado resgate. E para cumprir esse promessa deu seu suor e seu sangue. Mal sabia ele que sair da ilha poderia ser o maior erro que poderia cometer.

Destaco duas cenas da trajetória de Jack na série: Season Finale da 3ª Temporada, quando vimos o primeiro FlashForward da série. O Jack que presenciamos era um cara amargurado, que sofria as dores do seu terrível erro. E quando ele grita para Kate que eles precisam voltar para a ilha, no sofrimento de sua voz podemos perceber o peso que ele carrega nas costas. A segunda cena é da Season Finale da 5ª Temporada. Jack está obstinado a explodir a bomba para poder corrigir os seus erros, mas James não quer deixar. Depois de brigarem e se espancarem, os dois param, sangrando e ofegando e James pergunta a Jack o porquê dele estar tão decidido a explodir a bomba. E Jack, num momento único de toda a série, com toda a sinceridade que tem, responde que fazia tudo aquilo porque ele havia perdido a Kate.

Isso mostra que Jack é um ser humano. Talvez o mais humano de todos os personagens de Lost. Sua vida estava ruim e lhe foi dado uma segunda chance, e ele errou de novo. Todo ser humano quer uma segunda chance, mas quem nos garante que não vamos permanecer em erro? Somos errantes por natureza, e as chances de repetirmos nossos próprios erros é enorme. E quando ele abre sue coração e diz que tudo o que fez e faz é em busca do amor de sua vida, mais uma vez ele está sendo humano. O mais puro dos sentimentos, no final, é o mais primordial, e é o que nos guia.

Só temos que esperar a epopéia do nosso herói trágico chegar ao fim para podermos ver se, enfim, Jack terá o que sempre quis, e o que merece.

SOBREVIVÊNCIA – John Locke:

Sobrevivência é o tema central de Lost, afinal, é o que esperávamos ver depois da fatídica queda do avião: uma luta pela sobrevivência. Mas, se me permitem filosofar um pouco, ampliarei o significado da palavra sobrevivência. Não vamos nos focar só no sentido de “se manter vivo”, “manter os órgãos vitais em funcionamento”, etc. Vamos pensar: uma pessoa que está em um estado de depressão profunda, que não encontra motivos para levantar da cama de manhã ou enfrentar as adversidades cotidianas realmente vive? Essa pessoa que definha lentamente, cada dia mais, a espera de sua morte, está realmente aproveitando tudo o que a nossa vida nos oferece? Eu acho que não. Então afirmo que o John Locke que existia antes da queda do avião era um “vegetal” a espera de sua morte. O seu trabalho na fábrica de caixas, suas desilusões amorosas, seus problemas com o pai e principalmente o fato de estar em uma cadeira de rodas tirou toda a vontade que John tinha de viver.

E foi na queda, na sua segunda chance, por meio de um milagre, que John retomou os movimentos de suas pernas. O milagre que ocorreu com John foi algo tão magnífico que renovou sua fé. Fé. Palavra sempre ligada ao personagem, que durante muito tempo foi definido apenas como “um homem de fé”, o contraponto perfeito de Jack, o líder racional dos sobreviventes.

Não creio que a fé que salvou John Locke e que guiou o seu caminho por todas as temporadas, até ele se tornar o líder dos “Outros”, não foi fé em Deus, Alá, Jacob, ou qualquer outra entidade superior. A fé que mudou a vida de John Locke foi a fé em si mesmo. Acreditar que era capaz de fazer qualquer coisa, que era capaz de renascer mesmo com idade já avançada, que era capaz de, em muito tempo na sua vida, finalmente querer viver, querer aproveitar tudo o que a vida te oferecia. Esse foi o milagre que salvou John Locke, o milagre da vida.

E a cena que destaco de toda a trajetória de Locke em Lost acontece em meados da 5ª Temporada. Quando Richard diz para ele que é preciso que ele morra para trazer seus amigos de volta e ele entra em choque. Mas seu olha sereno quando a compreensão do que lhe era pedido apareceu, substituindo o choque, vemos um homem que aceitou e enfrentou a sua morte só para que o seu povo (os Outros e os sobreviventes também) pudesse sentir a experiência da vida. Ele abriu mão de sua vida para que todos tivessem a oportunidade de vivenciar o mesmo milagre que ele vivenciara, o milagre da vida.

SUPERAÇÃO – James Ford:

Quem vê os primeiros episódios da Lost e depois vê “LaFleur”, na 5ª Temporada, percebe que a trajetória de James é uma das mais bonitas em toda a série. Acho que há um empate com a trajetória de Jack. Mas enquanto Jack era a figura clássica do herói, James, por meio de seu “personagem” Sawyer, fazia questão de ser o anti-herói. E aquele cara que, logo após a queda, roubava suprimentos e pertences dos destroços do avião, veio a se tornar o melhor líder que Lost já nos mostrou, superando até mesmo os outros dois citados acima, que foram fantásticos.

James Ford teve mais nomes do que eu poderia lembrar enquanto escrevo este artigo. Mas toda a sua trajetória na série nos mostra como ele precisou se transformar em LaFleur, para se afastar de vez de Sawyer, e nos mostrar quem é o verdadeiro James Ford. Posso estar parecendo confuso, mas é o máximo que posso fazer para explicar em palavras a evolução de James durante toda a trama de Lost.

É muito fácil falarmos em superação, quando é para os outros. Mas superar, qualquer coisa que seja, é muito difícil. E James passou uma vida toda para conseguir superar a morte dos pais, que ele vivenciou quando ainda era muito novo. Ele suprimiu o verdadeiro James Ford, e deu vida à Sawyer, o trapaceiro que tinha como missão de vida ser odiado. E a superação da morte de seus pais só aconteceu quando ele veio a matar o verdadeiro Sawyer, aquele que destruiu sua vida. Foi necessário o derramamento de sangue para ele poder superar a dor e seguir em frente, mas como disse, ele é um anti-herói, e exatamente por isso, nem sempre ortodoxo em seus métodos.

E foi só quando ele pode superar o maior trauma de sua vida, que ele liberou por completo James Ford, que por meio de um disfarce (LaFleur), assumiu a liderança “daqueles que ficaram”. Assim como Jack, ele não pediu esse papel, mas soube desempenhá-lo bem quando ele lhe foi imposto. E digo que ele foi melhor líder que Jack porque ele não foi egoísta. Vivendo sua vidinha simples na DharmaVille, com sua nova esposa e não prometendo ao “seu povo” nada além do que permanecer vivo, James viveu um dia por vez. Construindo um castelo de cartas que veio a desmoronar com o retorno daqueles que partiram.

Líder inegável, e adorado por Juliet, Miles e Jin, a disputa de egos com Jack era esperada quando ele retornou. Mas até Jack percebeu o quanto James era justo e que, por isso, seus seguidores permaneceriam fiéis à ele em qualquer situação.

E assim como Jack, James era humano. Tudo o que ele queria já havia sido realizado. Ele havia um emprego onde era respeitado, tinha amigos, tinha uma mulher que amava. E mesmo assim abriu mão de tudo para que Jack pudesse corrigir seus erros. Ele não tinha nenhum dever com Kate, Jack e Cia. Se pararmos para pensar, ele viveu 3 meses com eles, enquanto tinha vivido 3 anos com o pessoal da Dharmaville. Com quem ele tinha um dever? Com quem ele tinha uma dívida? Com aqueles que ele liderava. E a partir do momento em que eles foram concordando com o plano de Jack, James deu o braço a torcer. Porque era justo.

Não tenho como destacar uma cena de James, entretanto, indico um episódio: LaFleur. É onde podemos ver o verdadeiro James, que tínhamos tido oportunidades esporádicas de ver anteriormente.  E claro, a conversa dele com Jack na Season Finale da 5ª Temporada, já citado nesse artigo. É uma das cenas mais belas que o roteiro de Lost já nos apresentou e podemos conhecer a alma de James quando ele fala pra Jack que seu pai havia matado sua mãe e se matado há apenas um ano. E que ele poderia ter saído da ilha e impedido isso, mas não o fez. Porque a pessoa que ele é e o seu caráter foram moldados por esse fato, e ele preferiu viver a vida de dor que teve e aprender tudo o que aprendeu do que corrigir um erro e enfrentar o desconhecido.

Jack, John e James são apenas espelhos dos outros personagens. Temos, em Lost, exemplos variados de histórias lindíssimas de auto-conhecimento, superação, renascimento, fé, coragem, etc. Mas não cabe a mim falar deles aqui. Recomendo que vejam e revejam toda a série, para seguir a trajetória de cada personagem. E, com o final que se aproxima, que vocês tenham a oportunidade de ver o final das histórias dos personagens mais humanos que uma série de TV já nos apresentou. Já aqui, neste espaço e um tanto quanto adiantado, me despeço de Jack, Kate, John, James, Hurley, Sayid, Juliet, Ben, Miles, Faraday e tantos outros que passaram pela série. Me despeço com um aperto no coração de o brilho no olhar de quem se despede de amigos de longa data. Até mais, nos encontramos por aí.

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11 Comentários

  1. João
    Postado em 31/01/2010 às 14:36

    Ótimo texto!!!

  2. João Paulo
    Postado em 31/01/2010 às 15:29

    Excelente visão contagem regressiva para sexta temporada de Lost. Pena q o primeiro episódio vazou antes da hora, eu vo aguardar até quarta para baixar……..esperei muito tempo e vo esperar a estréia dia 2

  3. Bellamy
    Postado em 31/01/2010 às 18:46

    Apenas Dois Dias … Aguenta Coração

  4. Régis
    Postado em 31/01/2010 às 23:16

    O Ser humano dissecado por aquelas histórias caricaturais e clichês, e por personagens absurdamente unidimensionais… ah não gente, puxa-saquismo também tem limite, né?

  5. Kaique
    Postado em 31/01/2010 às 23:35

    Concordo com o Régis. Mesmo eu gostando da série, em termos de desenvolvimento dos personagens ela é bem clichê mesmo. E há muitas séries que são muito mais profundas neste aspecto que Lost. E essa foto de Santa Ceia, Battlestar Galactica já fez isso.

  6. Carolina
    Postado em 1/02/2010 às 0:49

    O texto tá show!Também sinto ocm se eles fossem meus amigos e a despedida vai ser triste…
    A foto da santa ceia, quer dizer tantas coisas…

  7. Priscila
    Postado em 1/02/2010 às 7:17

    Belíssimo texto, ótima descrição e simplesmente maravilhoso cada comentário dos personagens, eu como fã de Lost penso e analiso da mesma forma que vc.
    Sendo cliche ou não o fato é que os prórios criadores da série dizem que Lost é uma série sobre pessoas e por mais que ela nos chame a atenção por suas teorias e tramas científicas o lado humano não pode e não deve ser ignorado, pode ser clichê? Pode, mas não deixa de ser uma realidade na vida de qualquer ser humano a necessidade de superação, liderança, etc em algum momento da vida!
    Por isso mais uma vez tiro meu chapéu para vc Thiago pelo excelente texto e analise de cada um desses personagens que representaram perfeitamente e por ter essa percepção ao qual acredito ser um dos objetivos da série e o que faz Lost tb ser uma série maravilhosa!

    Abçs

  8. Vitor
    Postado em 1/02/2010 às 18:16

    Os sonhos e objetivos do ser humano basicamente são universais. Portanto qualquer série que trata deles, trata do msm tema, e portanto é clichê.
    Mas a qualidade com que eles são tratados em Lost é simplesmente magnífica, por mais batidos que sejam, Lost consegue prender a atenção e seus personagens são fascinantes.

  9. Pópers
    Postado em 1/02/2010 às 19:31

    Faço do Vitor as minhas palavras.

    E caramba, neguinho não curte o seriado e vem aqui encher o saco. Cambada de mal-amado.

    É simples, não gosta, não comenta!

  10. João Pedro Prado
    Postado em 2/02/2010 às 19:37

    Texto maravilhoso Thiago, sua descrição de personagens tão importantes chegou a ser genial. Quanto uns colegas aí de cima, respeito sua opinião, mas que vão conhecer a série antes de saírem falando m****. LOST é uma série que, se você tem dedicação para assistir, você será muito recompensado.

    Só uma observação, Thiago: você não mencionou as várias vezes que Locke “retrocedeu” na ilha, momentos em que sua Fé foi testada, até o dia em que ele não passou nesse teste, tentou se matar, mas foi assassinado.

    Locke é sem dúvidas a personagem mais intrigrante de todas. O modo como você definiu sua sobrevivência conotativa foi inspirador. O careca esteve sempre se esfornçando para não perder a vida nova que a Ilha lhe dera e para espalhar esse milagre a outros com problemas parecidos.

    Saudações, admirações, Namaste, e É HOJEEEE!

  11. Eros
    Postado em 4/02/2010 às 18:44

    Pra tu que é viciado, Carlinhos!

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