
O sangue é mais grosso que a água.
Spoilers Abaixo:
Muito perto do fim dessa confusa temporada, Boardwalk nos entrega um episódio cheio de complexidades, com uma nova leva de cenas fortes, buscando o preenchimento de lacunas deixadas ao léu e que poderia ser considerado um bom momento, só que não na hora certa.
O que estou querendo dizer é muito simples: embora tenhamos visto um episódio muito contundente, ele não acrescentou muita coisa aos pontos de tensão que precisam já estar latentes nesse momento da temporada. Voltar para o passado de um personagem assim tão perto do finale pode ser um risco ou uma benção. Para uma série como Lost, por exemplo, que trabalha com latência extrema perto dos finais, um episódio assim foi um risco negativo (todos nos lembramos de Across the Sea), assim como a interrupção de trama para cuidar de paralelismos (como na reta final de The Killing) soa como uma terrível e desonesta tentativa de ganhar tempo.
No caso de Boardwalk essa volta no tempo foi mais abençoada do que arriscada. Sobretudo porque estamos falando de uma temporada extremamente irregular, que entregou plots que não saíram do lugar e trocaram de intenção como se não soubessem para onde ir. No entanto, esse flashback saiu do lugar comum e nos apresentou uma história audaciosa, que apontou algumas coisas interessantes sobre Jimmy, embora nem todas elas tenham sido aproveitáveis.
Ange não era ninguém quando viva, e continuou não sendo nada como morta. Ela morre na semana passada e volta como uma lembrança que não a redime de sua insignificância, e serve apenas para trazer Jimmy para o proscênio.
Conhecemos então os motivos que levaram o moço ao fracasso. São coerentes, claro, mas me soam ligeiramente machistas. Ele se afunda por causa da imprudência de Ange e da personalidade autodestrutiva de sua mãe. Mulheres levando-o ao buraco e salvando-o de qualquer responsabilidade por seu destino. Não se podia esperar outra coisa de Terence Winter, que em seu afã de psicanalisar seus personagens, tira o relacionamento de mãe e filho da insinuação edipiana e escancara tudo com um cru e polêmico sexo incestuoso.
Me incomoda que o roteiro tente nos passar a idéia de que Jimmy foi induzido a tudo que aconteceu depois em sua vida. Sua relação com a mãe jamais seria sexualizada apenas por uma das partes e nada aconteceria – e falamos de uma transa inteira – sem o consenso. De fato, ficamos o episódio todo sendo conduzidos a entender as mazelas de Jimmy como um reflexo de seus péssimos modelos femininos. A mãe que o seduz e a aproveitadora que no final das contas, era lésbica. Tudo para no final esse papel apático e passivo do personagem ser confirmado quando ao tentar esganar a mãe, seja interrompido pelo pai, que ele acaba matando, de novo por influência da mesma. Acaba que no final de tudo o incesto – fator mais chocante, acredito – não tem tanta importância assim, já que ele não afetou a relação de Jimmy com a mãe, não distorceu o que ele pensava dela e nem como ele responde à ela. Com isso temos um problema de coerência, já que o episódio aponta esse contato íntimo como uma das razões para o desnorteamento do moço, mas ao mesmo tempo, ele não se comporta como alguém que entende a gravidade do que fez, visto que a mantém como mentora de todas as suas ações.
A cena final, quando ela sobe as escadas com o neto, acaba reforçando esses conceitos vilanescos, já que a mãe hedionda não tem suas razões descritas num flashback e ainda por cima piora tudo, dizendo frases de efeito sobre maturidade, enquanto segue para o quarto com uma outra criança. Não há nada errado sobre isso, diz ela ao beijar o filho. E Jimmy faz… É um homem, mas faz. E as consequências são todas culpa dela.
De positivo, ganhamos o próprio Jimmy, que revela novas camadas e enriquece seus pormenores. É bem verdade que continuamos estacionados no que diz respeito ao seu papel na trama, mas ao menos o que vimos foi quente, febril, bravio… E não aquele ralento que se seguiu até então.
Não acho nem que valha a pena falar de Margaret, que a cada semana só se afunda no meio do ridículo. Fico espantado como podem conseguir estragar uma personagem de modo tão absoluto e permanente. Já não vejo nenhuma salvação pra ela. Aquele discurso pseudo-religioso, cheio de culpas cristãs hipócritas e que parecem só uma maneira de dar à personagem algum motivo pra viver nessa temporada.
Vivo até agora também, infelizmente, está Nelson. Tive grandes esperanças que ele morresse agora, já que o assassinato do parceiro foi resolvido, mas não, ele ainda vive.
A frase citada no início do post foi dita por Nucky, mas serviu para correlacionar-se com Jimmy. Seus laços de sangue são ralos e os que não lhe compartilham o mesmo (Nucky, Richard) parecem menos nocivos ao que ele é. Presumo que uma vez entendido como funcionam seus laços familiares, voltemos ao que realmente interessa: a dinâmica entre ele e seu segundo “pai”.