
Chega ao fim a temporada das desesperanças.
Spoilers Abaixo:
Para entendermos o que Terence Winter queria com o chocante finale de Boardwalk Empire, basta voltarmos ao início dessa temporada, dar uma conferida em todos os episódios, analisarmos tudo que foi dito e feito para que a intenção de seu criador se tornasse muito clara: Boardwalk Empire precisava de uma limpeza. E sem medir consequências, foi isso que Boardwalk Empire, teve.
E que consequências seriam essas? A primeira delas é a credibilidade. Quando essa série estreou todos nós sabíamos do que ela se tratava: o tesoureiro corrupto Nucky Thompson era o imperador indireto de uma rede de manipulação iniciada com a Lei Seca. Ao lado dele, e co-estrelando a série, seu parceiro Jimmy, que começava mostrando seu caráter ambíguo. A partir daí, a dinâmica de poder entre os dois tornou-se o carro chefe da série. Sem vilões ou mocinhos, o programa tratava principalmente dessa relação “paternal” que adornava os episódios com um bem vindo senso de humanidade. Então tínhamos aí os dois astros: Nucky e Jimmy.
Dramaturgicamente falando, é claro que podem existir personagens importantes que morram no decorrer de uma série. Mas o criador precisa deixar pistas disso durante o processo. Algo como em 24 horas, em que o único realmente seguro era Jack. Entra aí o bom senso de manter coadjuvantes necessários ao apego do público. Não podemos dizer, então, que Boardwalk Empire fosse muito corajosa nesse sentido. Nelson, por exemplo, que deveria ter morrido faz tempo, continua vivo. E na lista de personagens realmente importantes, tivemos quase nenhuma baixa. Dentro desse raciocínio, entendemos então que não estamos lidando com uma série que descarte facilmente seus trunfos.
Existem também, dentro desse conceito de dramaturgia, os terrenos intocáveis, que são os pares amorosos indispensáveis e os antagonismos. Não se mataria Joey na segunda temporada de Dawson’s Creek, se a série ainda pretendesse ter mais alguns anos. E muito menos mataríamos o arquinimigo do herói no meio do curso de uma temporada. Seria o mesmo que fazer o He-Man matar o esqueleto enquanto tínhamos aí mais uns vinte episódios pela frente. Mas, é claro, já tivemos casos assim na história das séries e é nesse ponto que quero chegar.
Já mataram o grande amor de um herói, como em The OC, mas o comportamento de sua intérprete interferiu nessa decisão. Já mataram o grande inimigo do mocinho, como o Canceroso de Arquivo X, mas manobraram a mitologia ao máximo para que ele sempre pudesse voltar. Já mataram Lex Luthor e fizeram outras temporadas depois disso, mas foi o ator quem quis sair. E em todos os casos que passam pela cabeça no momento, livrar-se de um personagem tão marcado como indispensável, quase sempre tem a ver com mentira (ele na verdade não está morto), externalidades (ator causando problemas) ou iminência (o fim é dali a poucos episódios). Nunca houve um plano para isso, até porque um showrunner nunca escreve uma parceira de protagonização pretendendo acabar com ela antes do fim. Tudo pode mudar em volta, mas aquela relação na qual o público confia, tem que continuar. Para que ela acabe, só mesmo quando as circunstâncias fogem do controle.
Por isso a morte de Jimmy não me comoveu, não me entristeceu, não me impressionou. Porque ela foi tudo, menos um ato de coragem.
Quando a sexta temporada de The Sopranos chegou, mataram um grande rival de Tony quando faltavam uns três ou quatro episódios pro fim da série, e ali sim, houve magia. Porque havia um plano. Tudo convergiu para aquilo naturalmente. E foi inesquecível. Já nesse season finale de Boardwalk Empire o que eu vi foi desespero. Desespero para arrumar a bagunça e ano que vem, começar do zero. Sacrificar um personagem importantíssimo, para mostrar uma coragem advinda do engano. E foram tantos os enganos esse ano que nem saberia por onde começar. Se alguém tinha dúvidas do quanto não sabiam para onde estavam indo, a morte de Jimmy foi a prova que estava faltando. Mais uma vez, Boardwalk disfarça seus erros com uma postura técnica de qualidade.
Até porque, se a morte de Jimmy servisse para salvar tudo que ficou torto, eu entenderia. Mas não… Margaret continua sua espiral de idiotices e até Nelson deu as caras, vivo. E reiniciando um ciclo. Pra quê?
Com essa medida extrema, ficamos agora divididos entre a sensação de que foi um series finale e não um season finale, e a curiosidade de saber como ficam os personagens do núcleo de Jimmy. E como fica Nucky, mais invulnerável que nunca, e sem antagonismos viáveis. É Capone que eles escondem na manga? Sinceramente, como confiar nesses roteiros daqui por diante? Como confiar em conflitos plantados se eles podem ser ignorados ou reconfigurados sem maiores explicações? Como confiar nas tensões, se elas podem ser esquecidas ou descartadas? E se no meio disso tudo algo der errado, Boardwalk Empire faz como seus personagens, mata e começa tudo de novo. É esse tipo de série que vimos terminar mais um ano.
Decepção não seria a palavra mais acertada, mas sim desconfiança. E conformidade. Reclamem e esperneiem o quanto quiserem, mas Boardwalk Empire tornou-se uma série ruim, desastrada, e o pior, pretensiosa. É sem nenhum pesar que digo isso nesse parágrafo final. A morte de Jimmy foi a morte de toda a esperança que eu ainda tinha por esse programa.