Perigo: spoilers!
“No man. No man at all.” – Gus Fring
Era natural esperar certas coisas desse episódio de Breaking Bad. Choques, arrepios, medo, suspense… A série construiu com tanto cuidado o seu caminho até certas resoluções, impôs um nível tão crescente semana após semana, conseguiu balancear todos os seus vários personagens interessantes de uma maneira gloriosa, no meio das idas e vindas de uma trama que parecia científica, tamanha a sua delicadeza. É o que diferencia a televisão das outras artes, esse envolvimento contínuo: a série propõe uma ideia e se você a aceita, na próxima semana ela te dá o resultado dela. Modelo magnífico, propício ao vício, que oferece diversas possibilidades e que Breaking Bad usa e abusa como qualquer programa que se preze.
Mas confesso que não esperava receber gargalhadas.
Começando pelo seu título deliciosamente sem vergonha, “Face Off” oferece em troca de diversos pontos da temporada momentos hilários e animadores – servindo como o oposto de “End Times” ao se dedicar a mostrar o ABC, como cada peça cai no seu lugar e como Walt acaba prevalecendo contra o big bad mais memorável dos últimos anos. Em certos momentos, parece até esfregar essa minúcia na nossa cara. Walt não só vai até Saul, ele precisa subornar a secretária dele. Ele não pode apenas entrar pela porta da sua casa, ele precisa mandar a vizinha averiguar a situação. Quando ele precisa atrair Gus para o asilo, nós vemos cada passo de Hector Salamanca – da comunicação complicada às intermináveis batidas do seu sino.
Poderia soar muito deliberado ou desnecessário, mas cai bem dentro dos limites da tensão e lógica que resultam no funcionamento impecável dessa série. Cada segundo passado, maiores são as chances do plano explodir e atingir Jesse, Brock, Andrea ou a família White/Schrader. E com cada etapa, mais nós acreditamos que Walt conseguiria o feito que ele estava armando desde os primeiros episódios da temporada. Assim, a série usa lógica ao invés de sorte. Sentido ao invés de choque. Ambos são homens muito inteligentes, com paralelos óbvios e diferenças ainda maiores. Ao fazer isso, mostrar o longo processo de maneira convincente, ela não só faz por merecer a morte, como se permite um momento. A cereja no bolo com detalhes maravilhosamente exagerados e uma preparação para acompanhar.
Vince Gilligan não tenta enfeitar esse momento como uma grande surpresa ou incerteza. Ele não o barateia. Ele o trata como é, executando da maneira esperada, e fazendo-o funcionar por causa disso. Até o momento final, mantém imenso controle de Gus. Tendo estabelecido seu ódio por Tio com tanta força no fantástico “Hermanos”, a jogada errada de matá-lo pessoalmente serve como uma progressão natural da jornada do personagem (algo alheio aos planos de Walter e aos caprichos da trama). Para ajudar isso a funcionar, armando o clima e o frio na barriga do inevitável, Gilligan cria todo um sistema de apoio com preparativos: Gus tira o uniforme do Los Pollos Hermanos, temos uma longa imagem da sua espera no carro, a caminhada trágica é filmada de uma maneira que beira a câmera lenta, sua tortura final é mais desbocada que de costume… Não há mistério: aquele é um homem com os segundos contados.
E Breaking Bad sendo Breaking Bad, fez cada um deles valer a pena com a cara derretida e um Gus atordoado, cuja única reação é arrumar a gravata antes de desabar.
Falso? Sim. Exagerado? Muito. Engraçado? Pode apostar. Porém, esses adjetivos só são negativos no papel. Em momentos como esse, o nosso primeiro instinto é computá-los como erros – quando é uma mera questão de uso. Como falei semana passada, essa não é uma série necessariamente realista; ela se permite e ama esses pequenos devaneios artísticos, exalando paixão pela pura diversão de estar contando esse tipo de história. Também é uma mera questão de qual sensação passar. Não pode ser a de choque por sabermos o que vai acontecer. Não pode ser algo emocional por termos apenas Tyrus e Hector no local, que não são lá os personagens mais sensíveis do universo. Também não pode ser algo relacionado a lutar até o último segundo, Walter precisa do elemento surpresa e uma bomba meio que mata qualquer clima “Eu vou para o inferno, mas vocês virão comigo! Arrrrrgh!”. Por que não humor? Por que não honrar o lado mítico do personagem com um momento que vai deixar qualquer fã sorrindo de ponta a ponta? Até mesmo gargalhando, como no meu caso. Pura diversão. Pura lógica dentro da realidade da série. Pura coragem de arriscar todo o episódio em um momento que poderia escapulir e parecer bobo, mas que acaba atingindo bem no lugar certo, elevando todo o arco do personagem.

Já Walter fica satisfeito. Não confortável ao ter certeza que Jesse está do seu lado. Não calmo por ver Hank vencendo, tendo a teoria sobre Gus confirmada e mesmo assim não descobrindo o seu passatempo criminoso. Não feliz em saber que a sua família vai sobreviver. Satisfeito. Tirando prazer da coisa toda. Na sua mente, a proclamação de vitória para Skyler é triunfante: o bem dele contra o mal de Gus. Mas esse talvez seja o momento mais triste da série. Nós vimos a loucura em “Crawl Space” e agora sentimos os seus efeitos, que geram ações calculistas ao invés de descuidadas, mais inclinadas ao controle da frieza do que raiva descontrolada.
Com um sorriso que pela primeira vez abandona as mentiras e falsas noções de grandeza, Heisenberg deu vários passos em direção a se tornar o novo Gus. Walter White conseguiu o que queria.
E nessa lógica, para o personagem, sua transformação funciona. Mas toda a solução de fazer isso através de Brock me incomoda. A série não só quebrou o seu padrão de não esconder segredos do público (ocultando o dia de Walt em “End Times” e só nos contando sobre ele no final do episódio), como o fez através de uma lógica que soa forçada. Mesmo no desespero, mesmo tendo estabelecido as coisas que o personagem poderia fazer em uma situação dessas. O envenenamento em si eu consigo engolir, o que arde é o salto de lógica feito para que ele seguisse em frente com a ideia. Walter tem vários atributos que o fizeram sobreviver até agora, e a série honrou cada um deles com muito carinho, em explicações e elaborações… Um instinto de manipulação como esse? A lógica meio absurda de que isso faria Jesse voltar a ser o seu aliado, por mais certa que fosse? Não me parece algo no qual Walt pensaria. Não me convenceu como essa série costuma convencer – a cada segundo, com surpresas a tiracolo.
É apenas uma pequena mancha, considerando tudo. Com a sua quarta temporada, Breaking Bad pulou de categoria e atingiu um ponto que poucos dramas atingiram. Vince Gilligan é um showrunner que sabe o que quer, faz e não tem problema algum em transferir a sua visão para a tela. Esse ano, ele quis tensão. Ele conseguiu tensão em níveis absurdos. Ele quis garantir essa transição de Walter. Ele garantiu. Quis fazer de Hank um herói, dar a Gus um fim apropriado, aprofundar personagens como Marie… Feito, feito, feito. Não só feito, mas feito com maestria.
Como dar sequência a isso? Com quais ideias ele vai continuar mantendo um nível tão alto?
Pela primeira vez na história da série, não faço ideia. Mas estou morrendo para descobrir.
Outras observações:
- Aquele foco bem na etiqueta com o nome “Lily of the Valley” foi exagerado. Quem não teria entendido se fosse apenas a imagem da planta ou da fruta dominando a tela?
- Ele apareceu pouco nessa temporada, mas acho notável como cada aparição do Saul conseguiu ser significante: seja movendo peças da trama, arejando a mente do seu Cliente Problema Nº1, ou apenas servindo de alívio cômico, é bom ver esse tipo de integração não sendo esquecida (algo que milhares de séries fazem, séries que são até boas).
- É sempre interessante ver Skyler passando pelos velhos estágios que moldaram Heisenberg. Essa semana, a violência choca! Aposto que a premiere vai começar com ela repetindo dez vezes que está tudo bem no marido explodir três pessoas, foi só para “proteger a família” – nada relacionado ao orgulho diabólico dele ou inveja do criminoso que o superou inúmeras vezes durante quase um ano.
- Mesmo tendo contrariado as minhas previsões, fico feliz que a série esteja guardando o retorno de Mike para a próxima temporada. Permitiu que o conflito entre Walt e Gus acontecesse de uma maneira limpa, criando uma boa dúvida sobre a posição dele em relação a tudo isso – sem falar que caso estivesse presente, seu envolvimento/morte na explosão seria quase certo (e ninguém quer ver um personagem tão bom ficando de fora da ascensão de Heisenberg ao poder).
- Agora que o laboratório foi queimado, será que Walter vai comprar um novo trailer quando decidir voltar a fazer metanfetamina? Aliás, quanto tempo vocês dão até ele retornar ao trabalho? Teoricamente, poderia se aposentar agora, tirar dinheiro do lava-jato e viver bem até morrer. Mas nós conhecemos Walt, então é óbvio o que vai acontecer (e Breaking Bad sem as suas sequências musicais de é-assim-que-drogas-são-feitas não é Breaking Bad).
- Se o ódio e o duelo final entre Gus e o Tio funcionaram tão bem, grande parte dos méritos vai para Giancarlo Esposito e Mark Margolis. O primeiro, sensacional desde a sua primeira aparição lá na segunda temporada, guiou o personagem com extremidade nos seus últimos minutos; mostrando uma raiva poderosa apenas através do seu olhar, focado e mortal em contraste ao controle do seu corpo. Já o segundo também impressiona através dos olhos, com o adendo de que essa era uma das suas únicas ferramentas. Dá pra sentir a chacota, o gostinho de vingança queimando.
- Considerando que as chances do personagem ter um fim brutal são grandes, foi bom ver Hank ganhar o seu momento de vitória nesse episódio – provando para toda a sua família, seus colegas de trabalho e chefes que estava certo: Gus Fring era mais que um simples dono de lanchonete. Também creio que essa morte seja suficiente para iniciar uma investigação no seu escritório, e quem sabe o que a polícia vai encontrar nele? Arquivos sobre todos os membros da organização, vídeos de Jesse, Walt, Mike e Gale, as rotas dos caminhões… As possibilidades de problemas para os nossos protagonistas são infinitas.
- Imagino se a série vai retomar a presença do FBI em algum momento durante a quinta temporada. Por um lado, seria um novo antagonista com novos recursos e poderes, toda aquela coisa com vários agentes, força-tarefa, escutas etc. Por outro, seria meio anticlimático dar a tarefa de caçar Heisenberg para uma entidade que não fosse o DEA. E já que estamos falando do que vem a seguir, Gus deixa um grande buraco criminoso no mundo da série – antes ocupado por Tuco e seus primos. Agora que o cartel envolvido com a metanfetamina de ABQ está numa má situação e nenhum capanga parece muito interessado em vingar a morte do patrão, quem vai ocupá-lo?
- Pelo menos agora o momento no final de “End Times” faz um pouco mais sentido.
- Sinto que comecei pelo menos uma observação de cada review com “Adoro…”, então por que não terminar com uma? Adoro como Gus só perde o seu controle no momento em que percebe o inevitável. Nem muito season finale da primeira temporada de Heroes te ajuda a sair dessa, hermano.
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Cobrir essa temporada de Breaking Bad foi uma das experiências mais gratificantes que já tive ao falar de televisão. Obrigado pelos comentários, críticas e pelas excelentes discussões – sempre divertidas, constantemente abrindo os meus olhos para coisas que não tinha considerado (um parabéns especial para todos que sacaram o significado da arma apontando para a planta no último episódio).
Quem assiste The Walking Dead vai poder me acompanhar nas reviews da segunda temporada, quem não assiste pode sempre mandar um toque lá pelo Twitter: @mateusb.
Até o próximo ano!
