
É hora de acalmar os ânimos.
Spoilers Abaixo:
Semana passada Chuck trouxe para seu espectador um episódio eletrizante, finalizando todas as histórias que havia começado no princípio de sua quarta temporada. Feito isso, levantei a pergunta sobre o futuro da série, já que Chuck nunca tinha ficado sem nenuma trama para desenvolver, mesmo quando produziu o famigerado Chuck vs. The Other Guy, ano passado. Em qualquer produção, os roteiristas precisam ter muita coragem para praticamente reiniciar a série do zero. Josh Schwartz e Chris Fedak tem colhões de sobra para fazê-lo, e em Chuck vs. The Seduction Impossible mostram que é possível criar uma boa diversão mesmo sem uma trama.
Após os eventos de Chuck vs. The Push Mix, esse episódio começa narrando os primeiros dias de Clara Bartowski (ou seria Woodcomb?) junto de sua família. Uma empolgada Mary parece estar disposta a tirar seu atraso como mãe com a neta. Enquanto isso, Sarah e Chuck nem começaram a planejar seu casamento, mas os Bartowski sem dúvidas já o fizeram, e passam a pressionar o jovem casal de maneira até assustadora. Paralelo a isso, Morgan avisa a Casey que irá conhecer a mãe de Alex, Kathleen, e o aconselha a ir com ele, o que se mostra uma péssima ideia depois. Assustados com toda essa dinâmica familiar, o Team Bartowski procura Beckman para conseguirem uma missão. E recebem a ingrata tarefa de resgatar um velho conhecido: Roan Montgomery foi sequestrado em Marrocos e precisa de ajuda.
Começo minha análise falando sobre o ponto mais importante do episódio, que é a missão de resgate de Roan Montgomery. O personagem havia sido introduzido no começo da segunda temporada, em um episódio hilário, da época que Chuck ainda engatinhava como um funcionário da CIA. A ideia dos roteiristas de trazê-lo de volta é válida e funciona muito bem aqui. Repleta de momentos divertidos, a missão consegue atingir seu objetivo explorando ao máximo a natureza de seu convidado, envolvendo-o em situações inesperadas. Aliás, essa missão é interessantíssima justamente por remeter às missões passadas, muito antes do surgimento da Aliança. Chuck consegue mostrar para o espectador que pode construir episódios em que a comédia é a proposta, sem para isso se abster do desenvolvimento de seus personagens. Além disso, a série consegue criar humor sem para isso cair em situações clichê, como a própria Sarah afirma quando Chuck ameaça espirrar. É interessante como os roteiristas sabem mostrar que a série tem um repertório maior que simplesmente investir em um humor pastelão, fazendo com que seus próprios personagens tirem sarro dessas situações.
Ainda falando da missão, é importante observar a estrutura que Chuck tem utilizado nessa temporada. Há algum tempo as missões tem sido divididas em duas sub-missões, sendo que a primeira é encarada como uma introdução, enquanto a segunda serve como um encerramento. Os roteiristas precisam tomar cuidado para que essa estrutura não se torne excessivamente formulaica, coisa que já começa a acontecer. A partir do momento que o espectador começa a perceber pelo relógio o momento de ocorrer determinado evento, é hora do roteiro começar a se reinventar. Chuck ainda não caiu nesse buraco, mas precisa tomar cuidado para que isso não aconteça.
Não é só a missão da semana que recebe grande destaque em Chuck vs. The Seduction Impossible. Chuck e Sarah também têm granda atenção do roteiro aqui. Lembro-me quando Chuck finalmente pôde ficar com sua amada, no já citado Chuck vs. The Other Guy. Lá, o maior medo do espectador era que o casal perdesse o peso ao resolver toda a sua tensão e poderem seguir felizes. Não aconteceu. A série conseguiu tratar bem o assunto, tornando a dinâmica do casal ainda mais interessante. Agora, o medo era que o fato de os dois tornarem-se noivos poderia atrapalhar essa mesma dinâmica. Novamente, Chuck nos prova que não havia motivos para temores. Ao contrário de Sarah, que morre de medo de ter que entrar sozinha na igreja, e por isso pede para o noivo para casarem-se escondidos. A dificuldade de Chuck em dizer não para a noiva tem um forte apelo psicológico, fato que a série aborda com felicidade aqui, quando ele não consegue nem negar um copo d’água dela. Chuck levou tanto tempo para finalmente poder tê-la para si que simplesmente não consegue enxergar a possibilidade de perder sua amada. Além disso, a dinâmica entre os dois consegue render cenas fantásticas de humor, principalmente no momento em que Sarah tenta seduzir Chuck para conseguir o quer, baseada em um conselho de Roan.
Além de Chuck e Sarah, o roteiro do episódio investe em outro tipo de dinâmica, dessa vez envolvendo Alex, Morgan e Casey. O processo de humanização do último é cada vez mais evidente, fazendo com que ele finalmente decida visitar a mãe de sua filha. É claro que essa história ainda terá desdobramentos, o que pode render bons momentos para a série. O roteiro ainda precisa trabalhar melhor o relacionamento de Casey com Alex para que esse triângulo funcione de maneira eficiente. Com Morgan o Coronel já possui um relacionamento interessante, que sempre traz para o espectador um humor afiado. Morgan e Alex também possuem uma boa química, e a garota mostra que pode ser durona como o pai. Eu não duvido que essa história termine em mais um casamento.
Após discutir sobre as relações entre os personagens, é tempo de ponderar sobre o futuro da série. Que Chuck não possui uma grande audiência todos já sabem, e mais uma vez a série deverá lutar até o fim contra o cancelamento. Eu sinceramente não duvido que a NBC a renove mais uma vez. No que diz respeito ao futuro criativo, vejo que eu estava correto sobre a abordagem dos roteiristas daqui até o fim da temporada. Acredito que Chuck deverá investir pesado na dinâmica familiar, cada vez mais presente na série, enquanto aborda o mundo da espionagem com missões menos interligadas, procurando utilizá-las essencialmente para produzir humor. Em Chuck vs. The Seduction Impossible isso funciona muito bem, e não há motivos para não acreditar que Schwartz e Fedak consigam trabalhar dessa forma por mais 10 episódios.
Terminada a análise sobre o episódio, é importante ressaltar um ponto que têm se destacado em Chuck. O primeiro deles é a trilha sonora incidental, sempre de muita qualidade. É delicioso poder acompanhar uma série ao som de Scorpions, e não é a primeira vez que Chuck investe nisso. É um tipo de recurso que tem tudo a ver com a série, e os produtores acertam em cheio em apostar nisso.
Deixando de lado o desenvolvimento de tramas no lado da espionagem da série, Chuck apresenta para seu público um episódio divertidíssimo investindo basicamente nas relações entre seus personagens, mostrando para o espectador que seus roteiristas têm sim um bom repertório de ideias.