
Mais família do que nunca.
Spoilers Abaixo:
O conceito de família já foi abordado diversas vezes das mais diferentes maneiras por produções de todos os tipos. E mesmo sendo um tema tão trabalhado, nunca deixará de ser atual. Chuck desenvolve suas histórias baseado nesse conceito desde a primeira temporada da série, ganhando força principalmente no final da segunda. Dessa forma, construiu seus personagens e suas tramas sempre tomando como base as relações familiares de seu protagonista, além de muitas vezes abordar as famílias dos coadjuvantes mais importantes. Faltava, no entanto, explorar o conceito para os antagonistas da série, não apenas para completar o cenário como para estabelecer as diferenças entre as pessoas boas e más. Pensado justamente para cumprir essa lacuna, Chuck vs. The Family Volkoff cria um ambiente apropriado e aborda inteligentemente as dinâmicas familiares.
Após os acontecimentos do episódio passado, o Team Bartowski recebe a missão de contatar Vivian com uma ordem de execução. Durante o encontro, a garota acena com um presente de paz (ironicamente uma arma letal), seguido de um ataque de tiros de origem desconhecida. Com isso, Vivian supostamente perde a confiança em Chuck, que procura informações sobre a poderosa arma com o preso Volkoff, que se mostra mudado. Louco para pedir desculpas a todos que machucou, o vilão não conquista a confiança da CIA, que vê com ressalvas a possibilidade de ele atuar mais ativamente na missão de encontrar os dispositivos restantes para a arma estar completa. Enquanto isso, Sarah entrega a Chuck um acordo pré-nupcial, e ele, orientado por Casey e Morgan, mostra-se tranquilo com relação a isso, o que incomoda fortemente sua noiva. O coronel, aliás, está cada vez mais envolvido na vida de Alex, e preocupa-se com o fato de não poder participar dos momentos mais importantes da vida da filha.
Parando para analisar o episódio como um todo, é interessante perceber como toda a estrutura não se parece muito com a que vem sendo adotada nessa temporada, lembrando mais o ritmo com que as tramas eram conduzidas na anterior, quando os arcos principais eram desenvolvidos a largos passos, dando poucos espaços para fillers. Aqui não tivemos uma “missão da semana” propriamente dita, e sim um retorno à trama principal da temporada, a guerra contra as Indústrias Volkoff. Durante os seis episódios em que a série viveu sem um arco que ditasse o ritmo da série, os roteiristas conseguiram produzir bons episódios e divertir o espectador com competência, mas era evidente que o roteiro precisa de um foco para não se perder com o tempo. E a solução encontrada é interessante, uma vez que não faz com que a temporada se divida em duas partes muito distintas, mantendo uma homogeneidade, coisa que Chuck priorizou ao criar suas tramas.
E se a trama principal voltou a aparecer na série, o humor característico não deixou por menos. Fazia muito tempo que Chuck não fazia um episódio com tantas situações cômicas, trazidas principalmente pelo protagonista, que mostra que não precisa voltar a ser o nerd atrapalhado de outrora para fazer seu espectador rir. Aliás, não consigo imaginar qualquer outra série em que um personagem, ameaçado por incontáveis armas, propõe uma partida de Uno. É uma característica que Chuck tem, mas há um bom tempo não era explorada. Da mesma forma, Volkoff surge como um excelente alívio cômico, com uma enxurrada de pequenas piadas, sempre naturais e condizentes com a personalidade louca do vilão.
Volkoff, aliás, que estabelece o preenchimento da lacuna citada acima. A família Bartowski sempre foi muito citada por ter muitos membros presentes em missões de espionagem. Mas nunca o lado familiar dos vilões foi explorado, e é interessante como os roteiristas aproveitaram para construir a família Volkoff já em uma situação de desmoronamento, com Vivian cortando relações com o pai antes mesmo de essas começarem. E se a princípio os Volkoff aparecem como uma antítese do que os Bartowski representam dentro do universo da série, nos últimos minutos percebemos que na realidade as duas famílias se aproximam perigosamente. As mentiras e omissões por parte de Chuck causam a primeira rachadura na confiança dos Bartowski, com Ellie mentindo para o irmão pela primeira vez.
Já que citei Ellie, aproveito para comentar a trama dedicada a ela e a Devon em Chuck vs. The Family Volkoff. Todos já sabem minha opinião sobre a entrada dela no mundo da espionagem, mas por enquanto a investida do roteiro se dá de forma bastante leve, sem que ela entre de fato nesse mundo, mas ao mesmo tempo trabalhando de forma não intencional para a CIA. Apesar disso, toda a situação envolvendo Mary e Ellie não consegue convencer dentro do episódio, sempre aparentando como uma tentativa de envolver as duas na história. Além disso, como a subtrama não tem importância, ela acaba sendo desenvolvida de maneira muito superficial.
Enquanto Ellie desconfia de sua mãe, Chuck e Sarah passam por mais um obstáculo em seu caminho para o casamento. Apesar de eu achar interessantíssima a tentativa dos roteiristas de mostrá-los como um casal inabalável, às vezes vejo esse tipo de abordagem como exagerada e até desnecessária. A existência do acordo pré-nupcial é até importante para o desenvolvimento de outra trama que comentarei mais tarde, mas falha em mostrar a estabilidade do casal. Os roteiristas têm realmente pecado por excesso nessas situações.
Curiosamente, a trama de Casey, Morgan e Alex faz justamente o oposto que a história com Chuck e Sarah, e funciona muito bem ao concluir o desenvolvimento do primeiro como pai. Já comentei uma vez que esse triângulo não vinha funcionando como deveria, mas aqui funciona de maneira plena pela primeira vez desde que foi introduzido. A começar pela excelente dinâmica entre Casey e Morgan, onde o segundo cria as situações para que o primeiro mostre suas evoluções. Há duas temporadas seria impensavel que Casey se incomodasse por não ser convidado para a formatura da filha, enquanto hoje o coronel se mostra visivelmente abalado pela situação. Apesar disso, é interessante notar como ele ainda se mostra desajeitado com Alex, seja na tentativa de abraçá-la ou quando, para comunicar seu entendimento sobre determinado assunto, se utiliza de um termo militar. Termo que, aliás, é utilizado também quando Sarah sem querer aconselha o amigo a não deixar Alex dividida entre seus pais, no único momento em que a trama da loira é efetivamente funcional. A evolução de Casey é bonita de se ver como desenvolvimento de um personagem importante, uma vez que foi feita de maneira sutil e calma, sem nenhum tipo de atropelamento.
Após seis episódios entregando para seu espectador histórias com pouco andamento de sua trama principal, Chuck volta a dedicar um capítulo inteiro para mostrar a dinâmica familiar dos Volkoff e efetivar Vivian como o grande problema da CIA para esse final de temporada. E, se não funciona perfeitamente, o episódio consegue passar exatamente a mensagem que pretende.
Obs: Nesse episódio, Chuck teve sua pior audiência considerando todos os episódios da série. Se antes a minha esperança na renovação se depositava na estabilidade da audiência, agora surge um grande ponto de interrogação.