
Preparando o terreno.
Spoilers Abaixo:
O episódio que antecede ao season finale de uma série é talvez mais importante do que o próprio final da temporada, no que diz respeito à construção dos arcos a serem trabalhados para encerrar o ano. Qualquer erro nessa introdução pode acarretar em um episódio falho e consequentemente em uma decepção por parte dos espectadores. Por isso mesmo esse é o momento em que os roteiristas mais tomam cuidado com seus textos, procurando levantar todas as questões nessa hora para depois explorá-las com um maior número de possibilidades. Quando se trata de Chuck é indiscutível que essa seja uma série que sempre soube planejar esses momentos, produzindo arrepiantes finais de temporada, mesmo quando a série ainda não tinha atingido seu auge. Chuck vs. The Last Details segue exatamente essa linha, criando um clima que flerta com o de um episódio comum, mas já dando pitadas do que virá a acontecer e mostrando uma incômoda atmosfera pessimista.
Após descobrirem a identidade do Agent X, Chuck e Sarah concentram-se no planejamento de seu casamento, cada vez mais próximo. Para isso, tiram uma semana de folga da CIA. O problema é que os bandidos não parecem querer permitir que isso aconteça. Mary, que estava sozinha em missão contra as Indústrias Volkoff, é sequestrada e Chuck, Sarah e Casey são chamados para resgatá-la. Descobrem então que Vivian Volkoff está cada vez mais obstinada em destruir Chuck, e consegue ativar o The Norseman, mostrando que a arma é realmente perigosa. Depois do resgate, a CIA descobre que Vivian está tentando vender a arma, e Morgan é enviado pela primeira vez sozinho em campo.
Começo minha análise pela missão da semana, que mais uma vez tem como objetivo alimentar a trama principal. O interessante, no entanto, é perceber como Chuck vs. The Last Details na verdade apenas a utiliza para que esse arco não fique esquecido e que não seja retomado apenas na próxima semana, uma vez que a missão em si avança muito pouco na trama, limitando-se a explorar a natureza da The Norseman. Mas veja bem, isso de forma alguma é um ponto negativo do episódio. Pelo contrário, dessa maneira os roteiristas conseguiram manter um ritmo inteligente, sem jamais sobrecarregar a história, nem atropelar os momentos de menor tensão. Além disso, a intenção de exibir os poderes da arma possuída por Vivian cria na cabeça do espectador a sensação de que algo muito ruim para os protagonistas está sendo construído. De fato, o roteiro em vários momentos insiste em nomear as características da arma de forma bem didática, como em uma cena em que Vivian comenta que o alvo sequer precisaria estar próximo para ser atacado. Dessa maneira, consegue que o clima de otimismo criado nas primeiras cenas vá aos poucos se esfacelando.
Até o momento em que o pessimismo toma conta de vez de toda a atmosfera do episódio. É impressionante o contraste entre a expressão facial de Chuck no início e no fim de Chuck vs. The Last Details. É dessa forma que o roteiro consegue construir todo o seu season finale, sem precisar necessariamente avançar um centímetro sequer em sua trama principal, apenas brincando com as relações entre os personagens para no próximo episódio aproveitar-se de tudo isso que foi criado para, aí sim, conduzir o desfecho do arco de forma natural e sem causar a sensação de que a história foi extendida apenas para completar os dois episódios. Aliás, não é difícil prever que a tensão tomará conta de Chuck vs. The Cliffhanger, uma vez que o aguardado casamento pode sequer acontecer. E dessa vez os roteiristas capricharam em conduzir a trama, que em momento algum da temporada chegou a ser brilhante, mas nesses momentos finais tem tido um desenvolvimento impecável, sem jamais soar repetitiva.
E, se o season finale promete, é quase impossível não imaginar que os roteiristas de Chuck estão encaminhando sua história para um final definitivo. É claro que de alguma forma Sarah poderá ser salva e sobreviver, mas o roteiro terá de conduzir uma explicação muito bem trabalhada para que isso não se pareça com uma desesperada tentativa de atrair atenção. O correto, até pelo que vimos da The Norseman, é que Sarah não tenha mais que alguns momentos de vida, e dificilmente seria salva. Aliás, quando Chuck vs. The Cliffhanger for exibido, o público já saberá do destino da série. A essa altura do campeonato eu acredito que os responsáveis pela série já tem conhecimento da renovação ou cancelamento. Então, se a série for cancelada, com certeza o episódio trará um final digno, possivelmente em aberto.
Um dos pontos que mais faz perceber o clima de desfecho em Chuck é a evolução de Morgan como espião, freada de maneira brusca pela preocupação de Alex. É interessante como vemos o personagem pela primeira vez sozinho diante dos maiores vilões do planeta, sem jamais titubear ou cometer erros, coisa que seria impossível ainda no começo dessa temporada. Além disso, a preocupação de Casey é muito maior do que apenas os sentimentos de sua filha, sempre usados como escudo pelo coronel. Mas o mais intrigante é o fato de Morgan desistir de tudo justamente após ter finalmente conseguido o que queria. Essa sim é a grande prova do concluído amadurecimento do personagem.
Já que falo sobre a evolução dos personagens, é impossível não comentar sobre Vivian, que a cada episódio que aparece se porta melhor na posição de nova vilã da série. E, se a garota tem raiva de Chuck pelo que ele teria feito com ela, Chuck vs. The Last Details mostra a ela que os Volkoff e os Bartowski já tem problemas de longa data, aumentando ainda mais o ódio da antes bondosa garota. O desejo de vingança é o maior destruidor de caráter que existe, e não poderia ser diferente com ela. A ponto de conseguir fazer o que seu pai jamais conseguira, destruir o que existe de mais precioso para seu desafeto. Aliás, a decisão dela por matar Sarah mostra que ela não está tentando vingar seu pai, e sim ela mesma.
Apesar do episódio ter grandes pontos positivos, apenas uma característica deixa a desejar, que é a dinâmica entre Sarah e Mary. As duas nunca haviam se portado como sogra e nora, e, agora que finalmente agem assim, a sensação é de que o roteiro força uma dinâmica inexistente entre as duas, em uma frágil tentativa de gerar humor e agregá-la ao sempre citado conceito de família. O ponto para que os roteiristas apostassem nessa ideia passou há muito. Agora, com os arcos caminhando para seu final, não era o momento.
Mesmo sem produzir um episódio espetacular, Chuck cria um ambiente cheio de expectativa para seu público e consegue encaminhar todas as suas histórias de maneira incrivelmente competente, sem precisar desenvolvê-las a passos largos. Um roteiro conduzido de maneira calma e serena, que traz o espectador para esses que (infelizmente) deverão ser os últimos momentos da série.