
Um novo começo.
Spoilers Abaixo:
Chuck sempre se caracterizou por ser uma série leve, mesmo retratando o ambiente vivido por uma equipe de espiões da CIA. Grande parte de seu sucesso se deve à maneira conduzida pelos roteiristas de criar uma comédia com essa atmosfera. E assim, durante quatro temporadas, a série levou sua história adiante, sempre mostrando que é possível uma cena de ação cheia de tiros não ser necessariamente violenta. Mas, ao final de um ano bastante irregular, os responsáveis por Chuck se viam diante da necessidade de mudança de abordagem, mesmo que a atual não esteja inteiramente desgastada. Para completar, Chuck está diante de seus treze episódios finais. É nesse momento que surge este Chuck vs. The Cliffhanger, encerrando a temporada mostrando como a série deve ser conduzida daqui para frente, distanciando-se de outros season finales, mas mantendo o nível de qualidade.
Desesperado para salvar a vida de Sarah, Chuck invade a prisão de segurança máxima da CIA em busca de Alexei Volkoff, procurando um antídoto para o estrago causado pela The Norseman. Lá, depara-se com Clyde Decker, homem-forte da CIA, que causa temor até no sempre corajoso Casey. Decker, ciente da procura de Chuck, manda Volkoff para outro lugar, além de cancelar a Operação Bartowski. Mas o rapaz não desiste de sua amada, e consegue resgatar o vilão, que teve o Intersect retirado de seu cérebro, voltando a ser o amável Hartley Winterbottom. Após uma frustrada tentativa de produzir um antídoto, resta ao Team Bartowski correr atrás de Vivian, procurando convencê-la a voltar a ser uma boa pessoa.
Tudo em Chuck vs. The Cliffhanger é trabalhado para soar diferente de tudo já visto na série. Desde a sequência de abertura, com um preocupado Chuck evitando comentar com a noiva sobre a possibilidade de perdê-la, preferindo demonstrar apenas suas preocupações com o casamento, o que vemos é uma atmosfera infinitamente mais sombria que o usual. Aliás, os créditos iniciais não poderiam ser mais acertados, evitando a alegre música-tema da série para inserir uma rápida e certeira vinheta, utilizada pela primeira vez. Durante o restante do episódio, o clima se mantém, pelo menos até o momento em que Sarah é finalmente salva da morte. O ponto da virada, aliás, traz um dos únicos momentos de humor de Chuck vs. The Cliffhanger, em uma piada interessante pelo simples motivo de mostrar que os roteiristas tinham perfeita noção de que o espectador já sabia que Sarah sobreviveria. De outra forma, a pequena brincadeira se mostraria cruel.
E não é apenas na atmosfera que Chuck se mostra diferente. Seu protagonista também mostra toda a evolução que o personagem sofreu ao longo dessas quatro temporadas. Desde o season premiere, o desenvolvimento da personalidade dele foi colocado em evidência, mostrando claramente o crescimento do rapaz. Aqui, isso aparece de forma escancarada, principalmente após a retirada do Intersect por Decker. Chuck se mostra incrivelmente corajoso, a ponto de se entregar a Vivian para implorar pela vida de Sarah. Os flashbacks mostrando o surto do casal, que ensaia sua própria cerimônia para que essa não seja mais novidade, auxiliam ao mostrar que aquele momento não só deixou Chuck pronto para seu casamento, mas para enfrentar qualquer tipo de problema que apareça em sua frente, além de deixar claro que não era o Intersect que o fez o segundo melhor espião com quem Casey já trabalhou, e sim ele mesmo, moldado pelo seu amor por Sarah e pelo sofrimento de ver seu pai assassinado. É assim que o personagem conclui todo o seu desenvolvimento como espião, tornando-se um de corpo e alma.
Na contramão de Chuck está Casey. Se durante o episódio anterior o vimos extremamente preocupado com Morgan, pensando no bem-estar de sua filha, dessa vez o coronel se mostra posicionado contra tudo que defendeu por toda a sua vida, apenas para dedicar-se ao que seus amigos precisam. Só o já mencionado elogio que ele tece a Chuck já seria suficiente para mostrar ao espectador a diferença entre o John Casey de quatro anos atrás e o de hoje, mas os minutos finais mostram o coronel, pela primeira vez, exibindo um largo sorriso, ao ver seus parceiros se casando.
Já que mencionei a cena em que Chuck e Sarah se casam, aproveito para comentar o efeito que esse momento tem no espectador, principalmente no que se dedicou à série desde o seu princípio. Chuck é uma série que se envolve muito com seu público, e isso só ocorre porque seus personagens, desde sua concepção, são incrivelmente carismáticos, além de sempre coerentes e bem construídos. É por isso que ver os dois protagonistas unidos por um emocionado Morgan torna-se um momento tão tocante, porque nunca houve nada mais importante em Chuck que seus personagens, e o barbudo olha para os dois da mesma forma que Joey olhava para Chandler e Monica em Friends, como um representante de muitas pessoas que torciam para aquele desfecho.
Não posso falar sobre esse episódio sem comentar sobre os Volkoff. Primeiramente pela sólida atuação de Timothy Dalton no papel de Alexei/Hartley. O que o ator faz para construir a imagem do bonzinho Winterbottom, destruindo a do terrível vilão, é algo realmente digno de nota. Além disso, Vivian também consegue brilhar, ao mostrar-se indecisa sobre ajudar ou não seu inimigo, abortando seu plano de vingança. A garota, que nem de longe é uma má pessoa, só consegue entender que seu desejo por ver Chuck sofrer não fazia sentido algum ao ver que estava seguindo a imagem de um homem que nunca foi seu pai. Hartley, esse sim, representa o que há no coração dela, e é exatamente isso que a faz voltar atrás.
Após toda a criação de uma atmosfera sombria, seguida por um grande momento de alegria, Chuck vs.The Cliffhanger chega nos seus últimos minutos precisando exatamente do cliffhanger que dá título ao episódio. E o roteiro o faz de uma maneira extremamente satisfatória, iniciando-o ao finalmente insinuar que há ligação entre a Fulcrum, a Aliança, e tudo que aconteceu na história da série. Como os roteiristas farão para que essa relação não soe artificial é assunto para a próxima temporada, mas é inegável que semeá-la aqui deixa as coisas infinitamente mais interessantes. Mas esse ainda não é o mencionado cliffhanger. O aguardado momento acontece ao vermos Morgan estirado ao chão, após receber o Intersect, que era destinado a Chuck. E posso dizer com toda a certeza que não houve uma pessoa sequer que não soubesse o que Morgan diria ao abrir os olhos. A simples retomada da frase proferida por Chuck no season finale da segunda temporada marca o fim de um ciclo iniciado naquele momento, para celebrar um novo começo, iniciando uma nova jornada (a última) da série.
Esse sim é, sem dúvidas, O cliffhanger.