
Assim que o episódio terminou, eu tive um único pensamento: quem é você, o que você fez com Community e por que você está tentando se passar por ela? Estaríamos vendo uma season premiere ou um piloto? Ou apenas um episódio aleatório e de pouca criatividade?
Spoilers Abaixo:
Sabe o que eu adoro em 30 Rock quando a série está em boa forma? Por mais que o episódio tenha três ou até quatro plots para serem divididos em 20 e poucos minutos, eles sempre têm uma ligação, seja para transpor um paralelo entre os personagens ou mesmo um paralelo da sociedade em geral, e então as situações se unem e os personagens que pareciam afastados passam a se comunicar durante a parte final e no fim, todos aprenderam uma lição. A razão que faz você aceitar ou não na lição passada pelo roteiro então passa a depender não só da direção que o próprio roteiro dá aos personagens, mas também da química dos atores, e esses dois elementos todos sabem que 30 Rock tem de sobra. Agora imaginem se nesses 20 e poucos minutos o que vemos são situações aleatórias, conflitos desproporcionais e uma incrível vontade de matar um personagem e se perguntar a todo o instante porque os outros personagens estão agindo de uma maneira “tão estranha”? ALAKAZAM: essa foi a premiere de Community.
Não direi que não foi engraçada, pois teve seus momentos. A abertura com o número musical foi ótima, embora até agora eu esteja me perguntando o que raios aquilo teve a ver com o resto do episódio ou se foi só uma cold open sem nenhum compromisso (Community fazendo cenas sem nenhum compromisso? Pode chamar de esquete? Pode ficar preocupado?). As participações de John Goodman como o vice-reitor mandão e Michael Kenneth Williams como o professor de biologia barra-pesada foram legais, e mesmo que tenham se atropelado pelo spotlight durante todo o episódio (ainda bem que pelo menos o Goodman voltará), teve quotes geniais. E claro, não nos esqueçamos de Cougarton Abbey e o final mais genial que a Inglaterra já teve o prazer de presenciar. Abed como sempre esteve insuportável como uma versão cool do Sheldon de The Big Bang Theory, mas os esforços da Britta (Gillian Jacobs, ótima) para reerguer o amigo foi hilária – me surpreende que Abed já não fosse fã de Doctor Who.
Mas aí veio (veio não, se fez presente desde os minutos iniciais) a trama que derrubou qualquer chance de recuperação em “Biology 101”: Jeff versus minha paciência. Depois do fim da segunda temporada era nítido que a relação de Pierce com o resto da turma estaria abalada como nunca antes, mas primeiro de tudo, a relação de Pierce NÃO se abalou, bastou ele entrar na sala de estudos e todos se perdoaram como bons amigos… menos Jeff. E se Jeff teria mil e um motivos para acabar com Pierce na temporada passada (como perdoar o que ele fez em “Intermediate Documentary Filmmaking”?), nessa premiere depois de tanto tempo, aquela reação exagerada foi totalmente incoerente e aborrecida por parte do roteiro. E para condensar esse momento vergonhoso e tentar tirar algum proveito dessa situação, o mesmo roteiro ainda usou a passividade dos outros personagens durante esse show de horrores como plano de fundo para a “lição” do episódio: oras, é tudo culpa da magia da mesa \o/
… Err… Sério?
Mas se o leitor acompanhou o paralelo feito entre 30 Rock e Community no primeiro parágrafo e agora está tentando buscar na memória alguma vez que isso deu certo na série do Dan Harmon, esqueça. Como eu disse na introdução, esse episódio mostrou uma série de dinâmica totalmente diferente da Community de meses atrás, uma mudança que talvez não tenha sido percebida de imediato, mas eu aposto (aposto mesmo) na existência de um fã da série que não percebeu nada estranho no clima da série. Quem busca elementos físicos é só prestar atenção na trilha sonora do episódio.
Community sempre se diferenciou por não deixar se afetar pela receita básica das comédias de 30 minutos: ao invés do roteiro interligar as histórias e dar coerência às situações, quem faz isso com mais evidência é a direção e sacadas geniais envolvendo cultura pop, as famosas referências. A matéria-prima e base para sua sustentação já estava basicamente pronta, então a série sempre fez questão de mostrar ao que veio e mergulhar dentro do seu próprio universo, e isso deu muito certo durante as duas primeiras temporadas.
E então nos deparamos com uma situação absurda que não encontrou nenhum respaldo no roteiro, e muito menos teve um pano de fundo cult para justificar sua existência (lembrando que a série fez coisa similar na premiere da segunda temporada, onde o papel de professor disfuncional coube à Betty White, mas os chiliques de Jeff estavam lá, assim como o espírito non-sense da série). Tivemos referências aqui e ali, mas elas estavam longe demais de alguma ligação. A relação entre o plot de Abed e o plot principal simplesmente não existe. E o pior: tivemos Community seguindo didaticamente esquemas de sitcom tradicional, isso sim foi uma pancada forte Para muitos a sentença viável nesses casos é dizer que “faltou algo”. Pois para mim faltou criatividade, faltou brilhantismo, faltou Community ser Community.
Outras observações:
- Vamos digerir o que veremos durante a temporada: Senhor Chang como vigilante (poxa, lembram quando ele era professor de Espanhol?), John Goodman como o chefão de Greendale, falta de recursos e diversão (desculpa para falta de paintballs e eventos? NÃOOOOO!)… alguém mais está pensando na palavra ‘cilada’?
- Sequência do sonho: poderia ter ido dormir sem essa.
- John Goodman: “You could have lived the rest of your life in blissful ignorance and died a happy pansexual imp.”
- O macaquinho Annie’s Boobs morreu?