
“Tonight’s the night. And it’s going to happen again, and again.”
Spoilers Abaixo:
Desde pequeno eu aprendi o valor da vida humana. Aprendi que tanto pela lei divina ou humana, existem severas consequências para aqueles que infringirem tal lei. O respeito à vida é um raro consenso universal, e é por isso que estamos acostumados a vermos o mocinho pegar o assassino ao final do filme.
Cinco anos atrás eu ainda estava começando a entrar nessa vida de blogueiro de seriado. Não assistia um terço das séries que assisto hoje, e lembro-me como se fosse ontem o dia em que assisti ao piloto de Dexter. Não tinha visto promo nenhum, resumo nenhum… Simplesmente tinha ficado curioso por essa imagem promocional. Acredito que o choque que eu tive ao descobrir que o protagonista da série era um serial killer foi compartilhado com inúmeros fãs de séries, que estavam sedentos por uma novidade na televisão. Esse é o grande motivo de Dexter estar com a medalha de bronze dessa lista.
A adaptação do livro de Jeff Lindsay para o canal Showtime foi como uma brisa de ar fresco em meio às inúmeras séries policiais e médicas que até hoje saturam a programação dos canais. Finalmente podíamos digerir algo original, inovador e único. Obviamente que Dexter não foi pioneiro no quesito originalidade, mas o fato de uma série nos fazer gostar e se importar por um serial killer, era algo novo e confuso. Desde “O Silêncio dos Inocentes” que isso não acontecia comigo.
A fórmula do sucesso? Ótimo roteiro + a atuação impecável de Michael C. Hall. Logicamente que essa é uma versão simplificada dos elementos que fazem de Dexter uma série tão boa e de sucesso, mas em resumo, são os grandes trunfos. É muito comum em qualquer texto sobre Dexter lermos inúmeros elogios focados na performance do astro da série. C.Hall já tinha na bagagem um personagem igualmente bem construído e denso com seu David Fisher (Six Feet Under). Não consigo imaginar outro ator para dar vida a Dexter. Todas as camadas e nuances desse personagem tão complexo só poderiam ser destrinchados por um talento raro e competente, e é exatamente isso que temos episódio após episódio com Michael C. Hall. Outro elemento importante que contribui para o sucesso da série é a sua trilha sonora original. Sempre carregada com instrumentos de corda, a trilha de Dexter é fator importante na formação de cenas clímax e apogeus. Enquanto escrevo esse texto já devo ter ouvido umas dez vezes o “Blood Theme”.
Muito se fala na evolução e humanização de Dexter. Psicopata, sociopata, herói, anti-herói… É difícil rotular Dexter com precisão, pois ele não é unidimensional e comum. No episódio piloto, Dexter explica que sabe fingir como ninguém as interações com outros humanos. O vazio deixado pelo trauma de presenciar sua mãe sendo esquartejada viva foi preenchido por uma força tão forte, tão incontrolável, que é como se uma entidade ocupasse o seu mais profundo âmago: o Dark Passenger. A forma como saciar e controlar o Dark Passenger está ligado a evolução e humanização de Dexter. No início, Dexter não se considerava humano por ser desprovido de sentimentos, mas com o tempo, ele desenvolveu o mais profundo dos sentimentos. Acredito não ser exagero afirmar que ele amou Rita, e que ama Deb, Astor, Cody e Harrison. Ao final da 5ª temporada fica claro que Dexter não deixou de ser o monstro asseado que sempre foi, mas ele está longe de ser desprovido de sentimentos. Será que um dia esse lado negro poderá ser controlado? Esse é tipo de pergunta que me compele a acompanhar essa jornada.
Obviamente que falar em evolução e não falar de Jennifer Carpenter seria uma heresia. Jennifer é um ótimo exemplo de atriz que evoluiu junto com seu personagem. Debra Morgan começou na série tendo que se disfarçar de prostituta e dependia das dicas de Dexter para evoluir na carreira policial. A própria atriz era um pouco sem sal no começo, mas nas últimas temporadas Jennifer entregou cenas com forte carga emocional e faz bonito como a co-estrela da série. Deb também já é capaz de desvendar casos por conta própria e hoje é uma detetive confiante e eficiente. Tão eficiente, que esteve a uma cortina de distância de descobrir o segredo de Dexter e Lumen. Aliás, o elenco de Dexter é ótimo e conta com participações especiais inesquecíveis. Particularmente, a participação especial mais marcante para mim, foi a de John Lithgow na 4ª temporada como o Trinity Killer. Sua participação na série rendeu um Globo de Ouro e um Emmy para o ator, sem falar do season finale mais chocante em anos. Pobre Rita. Eu gostava muito de Julie Benz.
Acredito que o principal debate que Dexter instiga é um pensamento que Maquiavel propôs no século XVI: “os fins justificam os meios”. A primeira temporada de Dexter termina com um sonho, aonde o serial killer é ovacionado por “tirar o lixo das ruas”. Na sua narração em voice over, Dexter afirma que as pessoas o agradeceriam se soubessem que ele apenas mata outros assassinos, apenas “pessoas que merecem”. A grande mágica da série é essa: fazer-nos torcer e gostar de um personagem que age como júri, juiz e carrasco. Nós queremos ver Dexter matando um “merecedor” todos os episódios, pois confiamos cegamente no código de Harry e na sua justiça.
Dexter não é uma série para todos e embora seja magnífica, possui seus problemas como qualquer outra série. Uns dizem que Dexter é muito sortudo, que o roteiro cria situações tensas e depois tudo é resolvido no último momento ou por algum milagre do destino como a explosão de Doakes na 2ª temporada. Em minha opinião, a única fraqueza na fase atual da série é storyline do relacionamento entre Angel e LaGuerta. Acho essa história uma enrolação e os atores não possuem química.
O parágrafo acima foi só para mostrar que Dexter não é uma série perfeita, mas que está quase lá. Essa é a história de um monstro que está se tornando humano, de um pai viúvo que luta constantemente contra seus demônios internos. Essa é uma das melhores sagas da televisão e eu mal posso esperar pelo próximo capítulo.
Ranking:
1ª – Battlestar Galactica
2ª – Friends
3ª – Dexter
4ª – Lost
5ª – Arrested Development
6ª – Six Feet Under
7ª – 24
8ª – Veronica Mars
9ª – The Wire
10ª – Breaking Bad