
Fellowes está aprendendo com Moffat.
Spoilers Abaixo:
Por incrível que pareça, o comentário que abre essa review não é um elogio. Moffat e Fellowes são dois dos meus roteiristas favoritos na televisão e os dois carregaram uma sina esse ano: A de em determinado momento esquecerem-se de tudo o que sabem sobre como construir o roteiro e criarem situações arriscadas para gerar novas motivações sobre determinadas tramas, sem conseguirem saber como lidarem com elas no futuro.
No caso de Downton Abbey, estou me referindo obviamente à imbecilidade que foi a conclusão da trama de lesão de guerra do Matthew, que pode ganhar o posto de o pior deus ex-machinas do ano. Sim, podemos entender a medicina da época ainda não ter completo conhecimento de lesões na coluna, o que não é compreensível é um médico saber disso e continuar negando a possibilidade mesmo quando o lesionado afirma estar voltando a sentir as pernas. Tudo isto com a péssima desculpa de que “não queria gerar falsas esperanças”, sério? Não podia nem ter a possibilidade de ele contar à mãe do sujeito ou ao Conde de Grantham que existia uma possibilidade mínima de isso ocorrer?
Já que o papo é sobre falhas de roteiro, deixa eu ver se entendi uma coisa: Mr. Bates comprou veneno de rato para a esposa? Tudo bem que o sujeito é mais ingênuo do que meu primo de doze anos, mas isso não explica o porquê de ele fazer feira de algo que podia ser usado contra ele no futuro. Algo que eu sempre admirei em Downton Abbey era que todas as reviravoltas eram feitas com elementos que conhecemos dos personagens, como a Mrs O’Brienn gerar um aborto em Cora na temporada passada, era algo que não estranhamos por ser factível à personalidade da personagem. Agora Mr. Bates, que passou a temporada inteira sendo enganando pela mulher ir a Londres para resolver tudo e comprar veneno, para que isso? Ah sim, porque se não o Fellowes não tinha uma trama.
Eu posso estar pegando um pouco pesado, mas fica difícil as consequências das tramas serem bem absorvidas quando sabemos que tudo foi gerado de uma forma tão artificial. A sequência que Matthew descobre que volta a andar e em seguida revela a todos que vai se casar com Lavinia é sim linda, conseguimos ver pelas feições de cada personagem o que estão sentindo e é um dos melhores usos de trilha sonora, mas esses méritos técnicos não conseguem sanar sua artificialidade.
Evidentemente, existem qualidades que devem ser ressaltadas: O dilema entre Lavinia e Mary é algo interessante. Por mais sem vida que Lavinia seja, foi ela quem cuidou de Matthew quando ele mais precisava, mesmo a contragosto dele, algo oposto a Mary que há exatos sete capítulos o recusou em um momento de fragilidade por pura futilidade e medo, algo que é balanceado por ele de fato amar Mary e se ver completado por ela. Esse dilema de gratidão contra amor é muito bem ressaltado na ótima conversa entre ele e Violet, um grande momento de Dan Stevens que consegue ter carisma suficiente como intérprete para não ser ofuscado por um dos melhores momentos de Maggie Smith na série.
Se Matthew, embora possa não vir a ser feliz no longo prazo, ao menos tem a consciência de estar se casando com uma boa pessoa, o mesmo não podemos dizer de Mary, que agora recebeu inclusive tentativas de espionagem por parte de Sir. Richard Carlisle, algo revelado na ótima cena em que vemos Iain Glenn com parte do rosto coberto na escuridão. O que não deixa de ser uma alegoria boa, apesar de óbvia, como um magnata da mídia era esperado que isso pudesse ocorrer cedo ou tarde. Se foi a informação que fez Carlisle se tornar o homem poderoso que é, por que não tentar utilizá-la para salvar o seu casamento? Principalmente quando ele percebe cada vez mais que sua noiva irá casar por uma mera obrigação.
Jim Carter, portanto, se mostra a figura mais interessante do elenco nesse episódio, conseguindo encarnar perfeitamente o sentimento fraternal que Mr. Carson sente por Mary, percebam o olhar dele na cena que ele conversa com Mrs. Hughes sobre como era ver Mary pequena, justificando a atitude de não mais trocar de emprego e o ódio que passou a sentir por Sir. Richard. Considero que essa foi sua melhor atuação desde o início da série.
Embora os pontos positivos sejam tão bons quanto os que marcaram os melhores capítulos da série, as falhas de roteiro acabaram por atrapalhar boa parte do processo não apenas do episódio, como retirando boa parte da força de uma temporada que, até o momento, tinha tudo para ser uma concorrente forte à melhor do ano. Espero mais cautela por parte do roteiro para o encerramento da temporada.
Outras considerações:
-Eu continuo adorando a série, mas teve esses defeitos que eu percebi e não podia simplesmente ignorar. Agora acredito que foi só um pedregulho no percurso, até porque a série já me provou que tem mais do que capacidade para construir uma boa narrativa, e esses erros não fazem com que Fellowes deixe de ser um monstro, portanto bola para frente.
-A tentativa de Thomas de se tornar um negociante foi algo interessante de ser trabalhado, principalmente por vermos o personagem em mais uma tentativa frustrada de independência. A cena em que Rob James-Collier coloca todo o instinto animal de Thomas para fora, foi um reflexo de um ator que sabe muito bem o que seu personagem é.
-A cena que Sybil resolve fugir e finalmente beija Branson foi outro dos momentos mais bonitos do capítulo. Jessica Brown-Findlay é, depois de Michelle Dockery, a atriz que eu considero com maior evolução desde o início da série. Estou muito curioso para ver como será a sua carreira pós-Downton Abbey.
-E antes que venham milhões de pessoas querendo a minha Lady Sybil, quero deixar bem claro que eu vi primeiro, certo?
-O que foi aquilo entre Mr. Crawley e Jane Moorsum? Juntando isso e aquela imagem do próximo capítulo que tivemos sobre a Cora, tenho um mau pressentimento.
-Falando na Jane, acho interessante que Clare Calbraith esteve nas temporadas de duas das melhores séries inglesas do ano: A perfeita (perfeita!) The Shadow Line e a ótima Downton Abbey.
-Estamos há um capítulo do final da temporada! Já está batendo uma saudade, não acha?
-Momento auto-promoção: Quem gostar de dramas de época ambientados no Velho Oeste, nos vemos em Hell on Wheels!