
All that is necessary for the triumph of evil is for good men to do nothing. (Edmund Burke)
O texto a seguir trata de um assunto bastante delicado. Quero nele resgatar o sentido original da palavra “censura”, termo que carrega um histórico de indignação e autoritarismo. É também a oportunidade de oferecer um contraponto aos argumentos do post Em Defesa do Politicamente Incorreto.
As emissoras de TV aberta nos Estados Unidos e no Brasil não estão passando por uma onda de influência daquilo que se intitula “politicamente correto”. O tempo verbal está errado: as grades de programação sempre foram vigiadas por cidadãos preocupados – por motivos louváveis ou reprováveis – com os rumos do entretenimento nacional. Cada país, contudo, tem sua história particular de embate com a censura.
Em solo americano, não foram poucos os episódios de censura a programas de televisão. Desde meados da década de 70, quando surgiu a segmentação dos telespectadores por parte das grandes emissoras, começaram a ser exibidas atrações voltadas para grupos determinados – nessa época, o chamariz era a fatia demográfica dos baby boomers. Foi o início da série All in the Family (CBS), cujo roteiro abordava assuntos como racismo, estupro, homossexualidade e afins. Até algumas palavras mais vulgares, como “damn” e mesmo “hell” (ambas usadas em expressões idiomáticas) foram incluídas nos roteiros de um bocado de séries dos anos 70. As pequenas investidas contra o “politicamente correto” foram aumentando e, poucos anos mais tarde, organizações como a American Family Association e a National Parents and Teachers Association passaram a exigir mudanças. A briga, que se estendeu por toda a década seguinte, representou a proliferação dos canais fechados, que conseguiam boas margens de audiência com apelo à sexualidade, violência e drogas (ainda que esta última predominantemente sob um viés negativo). Em 21 de setembro de 1993, foi ao ar a série NYPD: Blue (ABC), que trouxe para uma emissora tradicional as agruras do cotidiano de policiais do 15º distrito de Manhattan. A première recebeu protestos e mais protestos por toda a nação.
No Brasil, e especialmente graças ao Regime Militar (1964-1985), a palavra “censura” assumiu contornos altamente repressivos. Enquanto nos Estados Unidos o termo era compreendido como uma questão de debate e de protesto, para os brasileiros as “pequenas investidas” contra Atos Institucionais significavam perseguição e morte. Temos alguns exemplos de novelas (porque o Brasil até hoje está fazendo supletivo de Séries 101) que sofreram com a censura: Roque Santeiro (Globo), que seria exibida em 27 de agosto de 1975, foi completamente vetada pela Censura (com letra maiúscula, representando o comitê militar). Diversas novelas que foram ao ar, foram com edições governamentais. Era um controle daquilo que o brasileiro podia ver, e nessa vedação entrava tudo: comunismo, sexo, violência e heresias (sim, heresias) em geral. Na chamada “redemocratização” do país, o cenário perdeu um pouco de obviedade: passou o Estado a agir em situações específicas, e segundo o clamor de alguns setores da sociedade civil. Você deve se lembrar das batalhas do Ministério Público contra Pantanal (Manchete-SBT), Viver a Vida (Globo) e mesmo programas humorísticos que sofreram reclassificação etária em razão do conteúdo tido por ofensivo.
Pois bem.
Imagine que eu e você (sim, você mesmo) estamos sentados em poltronas numa sala escura, iluminada por holofotes de luz branca que apontam diretamente para nós. Enquanto você me fita com ares de inquisição, reitero que a censura nunca acabou. Ela apenas mudou de nome, passou de mãos e hoje é plenamente exercida pelas grandes emissoras – tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Censurar significa “criticar, desaprovar, admoestar”, e tudo isso vem sendo feito com relação a assuntos e tabus específicos. Um desses tabus é o chamado “beijo gay”, que aos poucos vem se achegando às produções dos canais abertos no Brasil. Não pense que os americanos vêm muito atrás na discussão: liberar o beijo entre os personagens Mitchell e Cameron em Modern Family (ABC) foi uma luta homérica, e ainda assim o resultado foi um selinho em segundo plano e de forma bem contida. Mas debater censura também é debater a possibilidade de um programa de TV aberta exibir gente injetando ou cheirando cocaína, brincando com um pênis de borracha, transando com duas ou três pessoas ao mesmo tempo, cuspindo palavrões a toque de caixa, dentre outras atitudes. E se há uma onda que não para de assolar a televisão como um todo, é a onda do “politicamente incorreto”. Grupos-chave no setor de consumo demandam mais e mais liberdade de expressão, e isso inclui exibir qualquer dessas cenas que eu descrevi antes… Em pleno horário nobre. E se você discorda, a pergunta que se segue é “Por que não?”. Vou responder essa pergunta agora.
Não assisto ou assisti a programas como Sex and the City (HBO), Californication (Showtime), Hung (HBO) ou The L Word (Showtime). Mas também não acompanho True Blood (HBO), Breaking Bad (AMC), Mad Men (AMC) ou Weeds (Showtime). São programas que não me interessam e que tomam liberdades próprias dos canais fechados dos EUA. Até aí, pensa você, tudo tranquilo.
Mas eu também não assisto a Two and a Half Men (CBS), não quero nem saber de Grey’s Anatomy (ABC) e não acho a menor graça – embora tenha tentado achar – nas “sacadas” de How I Met Your Mother (CBS). Não acompanho Gossip Girl (CW), The Vampire Diaries (CW), 90210 (CW) ou congêneres, mas nesse caso é por não gostar do estilo – isso não tem nada a ver com o conteúdo.
Essas são as minhas preferências. Sim, caro leitor, parece que eu vou concordar com a opinião expressa no post Em Defesa do Politicamente Incorreto. Mas o parágrafo seguinte é justamente o ponto de inflexão.
Gostos e preferências, tudo bem. Cada pessoa tem as suas séries favoritas, e não quer ver qualquer delas cancelada: é como se tirassem das nossas mãos um bom livro, e tudo porque não gostaram da capa. Trust me, I got it. O problema começa quando séries como How I Met Your Mother estão sendo exibidas em horário nobre. É claro que, se um dia eu me casar e tiver filhos, não pretendo impedir que assistam à televisão: afinal de contas, controle remoto existe é pra isso mesmo. Mas nem sempre eu vou estar perto dos meus filhos… E a televisão não vai ter um cadeado na frente, e em pleno século XXI, nem poderia. Meus filhos iriam à escola e seriam confrontados com crianças “livres”, educadas pelos pais sem esse grau de austeridade. Em suma, meus filhos provavelmente assistiriam a cenas como essa. Ou essa aqui. Ou quem sabe essa outra. Se você tivesse um filho ou uma filha de seis anos, gostaria de que visse essas coisas?
Eu não gostaria. E dizer que o remédio é desligar a televisão é quase como pintar uma sociedade em que as pessoas não conversem, em que meu círculo de amizades não contenha pessoas diferentes de mim, e por aí vai. Se meus filhos não virem, alguém verá. E essa pessoa pode influenciar a vida deles e, direta ou indiretamente, a minha. Se eu não for Amish, isso é um fato social inevitável.
É claro que eu não citei séries britânicas, porque Skins (E4-MTV) e Misfits (E4) pertencem a uma classe própria de ofensas a esses princípios. Ainda assim, pergunto a você, com os seus valores e as suas concepções, se cenas como essa poderiam ser mostradas para crianças e adolescentes. Crianças e adolescentes que você conheça. Uma série que mostre um adolescente cheirando cocaína não incita a curiosidade de um adolescente do outro lado da tela? E uma outra que mostra sexo e bebedeira, não causa alteração no comportamento de crianças? Certamente causa. Você pode se julgar capaz de discernir entre o certo e o errado, o saudável e o viciante, o normal e o absurdo… Mas e as outras pessoas? Permitir que certas cenas se proliferem na TV aberta (ou mesmo na fechada) é dar liberdade de expressão a diversos grupos sociais. E a liberdade de influência, vem no pacote?
Eu sei que o texto ficou longo. Vou concluir dizendo que gosto de assistir a alguns seriados (como Boston Legal, Damages, Dexter, Arrested Development, Prison Break e outros) e procuro saber de antemão se um novo programa contém cenas picantes ou mesmo ofensivas de modo geral. Isso faço por querer me preservar de certas coisas. Mas eu sei, e sei bem… Que a maioria das pessoas não pensa como eu. Na verdade, o número de partidários do chamado “politicamente incorreto” vai crescer cada vez mais, pela elasticidade da moral e alargamento das fronteiras na TV. Eu e os outros vamos virar minoria, e será a nossa vez de não ter voz. Resta saber se para o benefício ou para a desgraça dos nossos vizinhos.
Lembra a sala escura com as poltronas? Terminei minha fala sobre censura, sobre, quem sabe, essa censura aceitável. Agora, sob luzes dignas de Frost vs. Nixon, eu olho para você, que aos poucos articula as seguintes palavras: