
O canal mais aclamado e elogiado dos últimos anos tem produzido sempre grandes expectativas tanto no público quanto entre os críticos em torno dos seus novos projetos. Especialmente no período de 2010/2011, suas mais recentes séries têm dividido bastante as críticas, sejam elas de profissionais ou não. Em face disso, é extremamente válido questionar se o canal AMC tem sido superestimado em seu suposto “padrão-ouro de qualidade”, que até a poucos anos atrás era praticamente um adjetivo exclusivo da HBO.
Antes de irmos para a análise de fato da questão em foco, é necessário fazer um rápido apanhado da história recente da AMC: até o ano de 2007, o canal era conhecido por exibir exclusivamente filmes clássicos (Curiosidade: AMC é um acrônimo para American Movie Classics). A “revolução” começou quando o roteirista Matthew Weiner teve seu projeto para a série Mad Men rejeitado pela HBO, fazendo com que ele recorresse ao pequeno canal, que terminou aceitando produzir a sua primeira série original. Depois do sucesso instantâneo da série, o canal deu “ok” no ano seguinte (2008) para a sua mais nova aposta, a igualmente aclamada Breaking Bad. Foi a partir desde seu segundo acerto que a AMC comprou a sua passagem para o top dos principais canais a cabo da televisão americana.
Os “problemas” começaram a aparecer mesmo em suas novas apostas. O primeiro “tropeço” foi Rubicon, a terceira série original produzida pelo canal, que apesar de ter recebidos boas avaliações da crítica especializada, não correspondeu bem na audiência. Quando cancelou a produção ano passado, a AMC afirmou em nota que mesmo não tendo sido uma decisão fácil, optou pelo cancelamento porque, somado ao fator audiência, não teria espaço em sua grade no ano seguinte (o canal exibe suas séries apenas nos domingos).
Entretanto, o cancelamento de Rubicon terminou sendo visto como algo de menor relevância graças a outra estréia do canal ano passado, The Walking Dead, a primeira série de zumbis da TV. O grande sucesso frente ao público, tanto nos EUA quanto no resto do mundo, fez com que a mesma se tornasse uma das produções mais comentadas de 2010, inclusive neste blog. Mesmo assim as críticas ficaram divididas: o desenvolvimento das histórias e dos personagens na série decepcionou a muitos, em especial os fãs da HQ na qual a série é baseada. De qualquer forma, a série foi renovada e voltará para a sua segunda temporada de 13 episódios em Outubro desse ano.
Recentemente, a AMC começou a exibir com o título de The Killing a sua adaptação da série dinamarquesa Forbrydelsen. O que se viu foi mais uma produção que provocou a mais variadas reações na crítica e no público. Enquanto alguns viram uma versão estilizada e até mesmo uma suposta cópia de outras séries policiais, outros apreciaram (e continuam a apreciar) bastante a mais nova produção do canal.
Esse ano, o canal ainda irá estrear a série Hell On Wheels, um faroeste situado no período após a Guerra Civil americana. A história é centrada na figura de Cullen Bohannan (Anson Mount), um ex-soldado confederado que arranja trabalho na construção da primeira ferrovia transcontinental. Os temas abordados na produção irão desde a industrialização do Velho Oeste, passando pela corrupção envolvida na construção da ferrovia, até à imigração chinesa, que serviu como mão de obra barata.
É inegável que Mad Men e Breaking Bad estão entre as melhores séries em exibição da atualidade. Seja pelos seus roteiros praticamente impecáveis como pelo elenco afiado e uma produção que beira ao perfeccionismo, em especial a série de publicidade, a AMC fez dois belos acertos ao apostar nessas séries. E é justamente esse o seu grande “problema”: as expectativas sobre tudo que tem o nome do canal na atualidade se tornaram demasiadamente grandes. Se satisfizer expectativas já é difícil, imagine como é satisfazer altas expectativas.
Na minha avaliação, a AMC mostrou que é sim capaz de produzir séries excelentes, inclusive no mesmo nível da qualidade da HBO, a líder dos canais fechados. O erro que está sendo cometido por muitos consiste em esperar sempre coisas grandiosas do pequeno canal. Importante dizer que não se trata de tentar criar uma desculpa para as recentes produções da AMC. O canal continua sendo pequeno, tanto que as novas produções têm sido feitas em parceria com outras produtoras, em especial canadenses e britânicas. Lembrando que ele continua a colocar em 90% da sua grade os seus filmes clássicos, que são a marca histórica do canal.
Posto isto, a meu ver, não há dúvidas que a AMC ainda tem muito que crescer como canal. Ela está sim no caminho correto, criando um estilo próprio e estabelecendo um padrão de qualidade mínimo constante em suas produções. Contudo, isso não significa que o canal irá sempre acertar em suas escolhas. Se pensarmos bem, até mesmo a HBO, que é a HBO, também tropeça de vez em quando em suas apostas. Por isso mesmo, não há razão para exigirmos tanto da AMC. Resta apenas torcer pelas suas novas séries, mas sempre com um mínimo de racionalidade.
Twitter: Adriel_SS