
Fim de jogo.
E pela última vez, spoilers abaixo:
“Never turn away a memory.” – Tim Riggins
O que é um series finale?
A definição todos nós conhecemos, é simples: o último episódio exibido de um programa televisivo. Mas o que ele realmente significa para uma série e o que deve fazer por ela é uma pergunta vaga e que nunca ganhará uma resposta direta, é algo que showrunners irão inutilmente tentar desvendar em busca daquela hora ou meia hora perfeita de televisão durante as próximas décadas, séculos, milênios, até quando o meio existir.
Para mim, um series finale significa algo diferente para cada série e descobrir isso é uma tarefa bem mais fácil e que várias séries, até as ruins, podem cumprir caso se esforcem o bastante. Portanto não deve ser uma surpresa para ninguém que “Always” seja tão incrível, pois tudo que bastava para isso, para o capítulo final de uma das melhores séries da década ser (quase) perfeito, era ela seguir o seu espírito e se manter fiel aos vários personagens que nos apresentou no decorrer dos últimos anos. Por se conhecer tão bem, o series finale de Friday Night Lights cumpre metade do que considero essencial para um episódio de TV ser excepcional: satisfazer. Não ligo se causa felicidade, tristeza, raiva ou bom humor, desde que não cause uma fração de frustração ou deixe um vazio negativo, estarei mais do que positivo em relação ao que ele acabou de fazer e ao senso de realização que me trouxe.
Mas será que “Always” vai além disso? De um episódio absolutamente satisfatório e brilhante?
Isso não é uma pergunta para ser feita agora. Estamos no calor do momento. Mesmo daqui a três semanas ou sete meses, a lembrança da série ainda estará recente nas nossas memórias e qualquer avaliação feita do seu legado será prematura e influenciada pelas experiências diferentes que nós tivemos com ela. O que, sinceramente, não é tão importante para mim agora. Estou absolutamente satisfeito com a maneira que Katims decidiu encerrar a sua (me desculpe Peter Berg, mas aparecer aqui e ali não te dá muito direito) série e principalmente, como já mencionei antes, com a abordagem fiel que ele seguiu.
Metade de “Always”, aliás, é como uma memória. Um sonho feliz. Como todos os bons e grandes momentos da vida, é mais uma coleção de sentimentos e pequenos toques do que um documento completo e apurado como os tristes ou até mesmo os que fazem parte da rotina. Em cada declaração de amor ou de despedida que os personagens fazem, a música sobe e a nossa presença naquele mundo se torna manchada e completa simultaneamente. Nos mais difíceis, nas decisões que eles precisam tomar, o senso de realismo da série bate mais forte e o silêncio diz tudo, a economia de palavras acaba transmitindo bem mais do que longos e eloquentes discursos, as grandes sequências musicais interligadas e as montagens são todas as coisas necessárias para a série conduzir aqueles momentos com um ritmo que arrepia de tão belo.
Na cena fora do restaurante, por exemplo, nós ganhamos uma das definições mais cruas e simples daquele casal. A câmera nunca se aproxima e evita os closes. Nós não queremos ver aquilo. Nós não queremos ver os Taylors, personagens nos quais nos inspiramos, tão divididos. Então ficamos atrás dos arbustos, observando algo que não queremos ver, mas que é necessário. Com o que vem depois em consequência disso, a série mais uma vez não segue o caminho esperado e reafirma o amor que eles têm um pelo outro. Nem por um momento eu duvidei do fato de que eles terminariam juntos, e se um divórcio tivesse acontecido, teria sido algo não só fora de tom dentro daquele universo e da história de Tami e Eric, como fatal para o episódio em geral.
Felizmente, isso foi evitado e a última imagem da série é aquela que tinha de ser. Os dois caminhando pelo campo, com as luzes se apagando e em outra cidade.
É difícil, é muito difícil. Principalmente quando em paralelo estamos observando os garotos e garotas que eles ajudaram darem grandes passos com as suas vidas. Se lembram de quando Julie era apenas a nerd filha do treinador e Matt Saracen o quarterback substituto que ninguém sabia o nome? De quando ele ainda precisava do apoio do Landry para falar com ela? Incrível como o tempo passou e FNL não o ignorou. Muitas séries dizem que os seus personagens estão “evoluindo” quando na verdade estão apenas os moldando para servir histórias, e esse foi um dos únicos casos nos quais nós presenciamos isso em primeira mão, vendo ela construir esse crescimento de uma maneira que se não é real, chega perto.
Por causa disso, aquele lindo e inocente pedido de casamento não é um choque. O clichê de que namoros de colegial não duram, originalmente uma subversão, agora é tão comum quanto o original e a sua quebra é uma idéia que parece ter sido feita especialmente para essa série. Então, depois de Matt convencer os sogros de que nada pode mudar a decisão que fizeram, eles se casam e terminam felizes para sempre em Chicago. É simples, é bonito e surpreendentemente novo. Em uma era na qual tudo relativo à TV deve ser complexo, Friday Night Lights oferece um final básico e sem mistério em homenagem ao seu casal adolescente mais importante, e mesmo esperançosa quanto ao amor, não fecha os olhos para a verdade. Com Luke indo pro exército, o relacionamento entre ele e Becky vai acabar. Com Jess indo para Dallas, o relacionamento entre ela e Vince também. Não é algo que ela diz diretamente porque os personagens tentam se enganar de que aquilo é eterno e ela quer que nós sintamos isso, mas fica sugerido o suficiente para não deixar dúvidas.
E mesmo fazendo um grande argumento a favor de todas as coisas que são passageiras na vida, “Always” é assim chamado por lembrar de que apesar delas, certos momentos duram para sempre. A idéia é colocada em prática com uma execução belíssima durante a montagem do último jogo dos Lions, na qual os personagens são colocados em um patamar mais alto do que o próprio futebol. O resultado também não importa muito, mas é impossível fazer o coração parar de bater mais forte quando dois anos de trabalho são colocados em apenas uma jogada, quando toda a adrenalina do jogo se acumula em uma bola voando com toda força do braço matador de Vince Howard pelo campo. Ela sobe. E sobe mais ainda. E gira, gira mais rápido do que qualquer outra bola jogada na série. Vai caindo, caindo, caindo, e… A imagem corta abruptamente para Philadelphia e a jogada de alguém que nem sabemos o nome finaliza.
Por quê? Porque nós já vimos onde ela pára. Já vimos Smash botando a bola na end zone e o estádio delirando, já vimos a emoção de todos os envolvidos e Eric beijando a sua esposa e os jogadores voltando pra casa com as mãos pro alto, esbanjado os anéis de campeões estaduais.
Não há a necessidade de repetir e assim, Friday Night Lights pode partir para o seu grande adeus.
Eric rejeita o seu sonho para Tami poder realizar o dela e agora está treinando um time qualquer em um estado que não liga para futebol. Buddy atazana os jogadores e parece estar no comando administrativo desse super time. Vince continua jogando e tentando conseguir uma bolsa, dessa vez legalmente. Tinker consegue uma vaga apesar de tudo. Becky fica com a mãe. Jess vai para Dallas e vira uma treinadora. Luke entra em um ônibus e vai defender o país. Billy ainda está empregado e fez as pazes com o irmão. Texas para sempre, tanto para nós quanto para eles. O fim.
Observações finais:
- Ver a Vovó Saracen lúcida me dá uma alegria tão grande que é impossível colocar em palavras.
- Amei como usaram o noivado de Julie para fazer Eric perceber que desistir do emprego no super time era uma necessidade.
- Ornette se coloca em um buraco e termina a série justamente da maneira que começou: tentando fugir dele. Sendo ou não a intenção de Jason Katims, é fácil deduzir o que acontece depois. A triste realidade que nunca muda.
- Tim acabou recebendo algumas resoluções bem realistas quanto aos seus relacionamentos com Tyra e Becky, cumprindo a promessa que fez para Jason Street e perdoando o irmão. Ele ainda não está curado (e acho nunca estará), mas isso já é meio caminho andado para ele aceitar quem realmente é. Perfeito.
- Todo o elenco estava maravilhoso nesse episódio, mas o grande destaque vai para quem eu nunca esperava que pudesse ter um desempenho tão extraordinário, a Stacey Oristano. Junta do igualmente bom Derek Phillips, ela conseguiu passar tanto a graça quanto o peso daquele momento específico da vida de sua personagem, e ali, enquanto se despede de Becky, transformou uma das partes da temporada com menos significado em uma das mais impactantes do series finale. Estou ansioso para ver ela (e Connie Britton, Kyle Chandler, Zach Gilford, Michael B. Jordan, etc) em outros projetos no futuro.
- Ao ambientar os acontecimentos durante o Natal, a série consegue a desculpa perfeita para trazer de volta Landry e encerrar a sua participação. A primeira metade do episódio teve várias sequências fantásticas (Tim passando o dia com Stevie e visitando Tyra, Eric conversando com Tami sobre o pedido de casamento e Vince pedindo para o pai ir vê-lo jogar no Estadual, só pra citar algumas), mas para mim, nenhuma delas chega perto da sua última cena, provocando Matt e a sua insegurança como todo bom amigo faria. Se existia um personagem que não precisava de uma grande declaração de amor nesse episódio era Landry e me deixa feliz ver que não tentaram encaixar uma cena dele com Tyra só para extrapolar ainda mais a cota de nostalgia.
- Falando em grandes declarações, parece que durante uma porção do episódio houve uma espécie de surto de honestidade em Dillon. De Matt para Julie, de Becky para Tim, de Luke para Becky, de Jess para os Lions, de Eric para Tami… Todos dizendo o que sentem. Nos tira um pouco do clima do episódio por ser um caminho completamente deliberado, mas acaba caindo no lado positivo por ser tão bem executado – como todos os fatores mais técnicos de “Always”, aliás. Sem mencionar o fato de que seria quase impossível certos momentos funcionarem sem uma abordagem direta. Eric pedindo para Tami levá-lo para Philadelphia? De todas as declarações, certamente a mais linda. O homem mais orgulhoso do Texas está ali, desistindo da oportunidade de sua vida pela da mulher, de maneira aberta, altruísta, dizendo sem rodeios que quer a sua felicidade… Tentar dificultar esse momento de pura alegria teria sido um tiro no pé.
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Antes de encerrar, gostaria de agradecer a todos que me acompanharam durante essas treze semanas. Sem os seus comentários, críticas e sugestões, esses episódios e o meu desejo de falar sobre eles não teriam sido os mesmos.
O nosso tempo visitando esse mundo pode ter acabado, mas a vida continua dentro e fora de Dillon. Azul, vermelha, apaixonada e irracional como sempre é, para os jogadores, treinadores e pessoas que amamos durante cinco anos, ela segue em frente.
As luzes ainda estão acessas. Não se deixe enganar.