
A medalha de prata da polêmica lista criada por nós do Série Maníacos fica com uma série que está no coração de 9 entre 10 aficionados por séries, conseguindo entrar no Top 3 mesmo se tratando de uma comédia.
Antes de qualquer coisa, volto a explicar o critério básico adotado pelo blog para eleger as 10 melhores séries da década. Qualquer produção que tenha exibido pelo menos um episódio inédito entre 2001 e 2010 é elegível. Obviamente a análise se dá pelo tempo que a série passou dentro dessa década, mas levar em conta o crédito obtido pelos episódios na década anterior também faz parte da análise, uma vez que a lista leva em consideração a série como um todo. Feito o aviso, vamos discutir.
Friends é, sem dúvida alguma, um marco na televisão mundial. Possivelmente é a série com o maior número de fãs pelo mundo afora, ganhando até de Lost. Confesso nunca ter visto uma pessoa dizer que odeia Friends ou que a série é uma porcaria. Essa adoração chega a ser estranha considerando que estamos falando de um gênero que já era quase saturado em 1994, quando Friends exibiu seu piloto. Mas a qualidade conseguiu superar a desconfiança. É preciso talento para transformar uma ideia original em algo bom, mas é preciso muito mais que isso para reinventar um gênero e elevá-lo a outro patamar, e é aí que Friends faz a diferença, tornando-se a única série dessa lista a não ter começado na década que passou. E os motivos para isso são muitos.
Muitos podem dizer que Friends viveu seus piores momentos na década de 2000, e comparando com seu desempenho nos anos 90 seria impossível considerá-la como uma série da última década. De fato, a oitava e a nona temporadas são as piores da série, mas isso nem de longe significa que são ruins. Pelo contrário, colocam no chinelo os melhores anos de muitas produções do gênero. Outros dizem que Friends teve apenas três temporadas e meia na década em questão, representando apenas 35% dos episódios da série. Isso nem pode ser considerado argumento, uma vez que Arrested Development exibiu menos episódios que Friends nos anos 2000.
Mas o que leva Friends ao segundo lugar dessa lista? A primeira resposta que vem à mente é também o maior acerto dos criadores da série: identificação. Essa é uma das características mais importantes que qualquer roteiro precisa ter para conseguir sucesso. É impossível conduzir uma história sem que o espectador se importe com o que está acontecendo, e a criação de Ross, Rachel, Chandler, Monica, Joey e Phoebe não poderia ser mais perfeita nesse quesito. Ao longo dos anos, o público entra cada vez mais na rotina dos amigos, passando a fazer parte desse mundo. É por esse motivo que Friends é uma das poucas comédias que se torna mais interessante se vista como um todo. Hoje em dia, as séries do gênero concentram-se em divertir seu público casual, tornando-se repetitivas se acompanhadas regularmente.
Enquanto os personagens de Friends fazem toda a diferença para que o espectador entre na história, o roteiro da série não pode ser classificado por menos que brilhante. Enquanto muitas sitcoms prendem-se a um determinado tipo de humor e construam todos os seus episódios baseadas nele, Friends consegue viajar com maestria por todos os gêneros de comédia possíveis. É verdade que as situações de cotidiano são os momentos base para a construção de todos os episódios, mas Friends investe muito em comédias de erros, um tipo de humor muito difícil de ser gerado com naturalidade. Aliás, essa palavra é a que melhor define o roteiro de Friends. A fluidez de todos os diálogos da série não só é extremamente feliz na tentativa de gerar humor como é mais um aspecto que leva o espectador a participar da conversa. Repare como em momento algum um personagem fala uma frase do tipo “levantar a bola”, como se a fala só estivesse presente no roteiro para criar a piada que vem a seguir. Pelo contrário, todo o texto é ágil e natural, criando cenas sempre muito agradáveis e verossímeis, característica muito importante para uma série como Friends, que se apega à realidade para construir seu humor.
Aposto com todos vocês que pelo menos uma vez em suas vidas vocês se lembraram de um episódio de Friends ao depararem-se com alguma situação. Isso acontece não só pela criação da realidade já citada acima, mas pela própria proposta da série, que é exibir o cotidiano de um grupo de amigos. Aliás, a criação desse grupo é feliz em todos os aspectos, criando uma atmosfera de uma receptividade importantíssima para o futuro da série. Além disso, os nomes dos episódios não poderiam ser mais perfeitos para a situação, criando com genialidade a noção de lembrança eterna na cabeça do espectador. Afinal, todos os episódios de Friends são os melhores momentos da vida de seus protagonistas, momentos que ficarão guardados na memória dos amigos para a eternidade. É por isso que os episódios nunca se focam em um determinado tema, preferindo se entregar à aleatoriedade da vida, criando com eficácia situações que a representem sem necessariamente focar-se em algo.
Discutidos os motivos que levam Friends a ser uma série fantástica, é hora de analisarmos como eles são aplicados nas três temporadas e meia que foram exibidas na década de 2000. O primeiro episódio que vimos foi The One with All the Cheesecakes, ainda na sétima temporada, uma das melhores da série. E não poderíamos esperar menos de uma série como Friends. O episódio é um dos mais marcantes da série, e o seguinte, The One Where They’re Up All Night, é na minha opinião um dos obrigatórios para qualquer um que tenha interesse por Friends. Nessa temporada ainda, Chandler e Monica se casam em um dos momentos mais emocionantes da série, que é causada pela identificação já citada acima.
Na oitava temporada temos talvez o momento em que Friends começou a mostrar sinais de desgaste. Apesar dos episódios continuarem em um bom nível, esse é o ano em que os roteiristas pareciam um pouco perdidos com o destino de seus personagens, principalmente Rachel. Mas é nessa temporada que a série mostrou a sua força no Emmy, quando ganhou pela única vez o prêmio de Melhor Comédia, mesmo tendo sido negligenciada nos anos de ouro da série. Depois vem a nona temporada, que apesar de mostrar sensível melhora na estrutura da série, acaba sendo ofuscada pelo brilhante último ano. Quando houve o anúncio do fim de Friends, a expectativa pela última temporada era enorme, e os roteiristas conviveram muito bem com ela, criando em seu décimo ano alguns dos episódios mais marcantes de toda a série, como The One Where Joey Speaks French e The One Where the Stripper Cries.
É claro que mesmo descrevendo todos esses momentos marcantes de Friends é impossível deixar de comentar sobre o último episódio da série, The Last One. Durante muitos anos ouvi o quanto esse capítulo foi decepcionante, sempre discordando da ideia. Os roteiristas da série tinham duas opções ao escreverem o texto do fim de Friends. Ou criar um episódio estupidamente hilário, fazendo com que o espectador chorasse de rir do começo ao fim, ou brincar com as emoções do público que aprendeu a amar cada um dos seis protagonistas da série. Fico muito feliz pelos roteiristas terem escolhido a segunda opção. E o faço por um motivo simples. Aquele não era o momento de agradar o público casual, e sim de encerrar uma história de 10 anos. É impressionante a maneira como isso é feito, criando 40 minutos de pura emoção e nostalgia. Mas os momentos mais fantásticos de todo o episódio são os últimos minutos, em que praticamente todos os fãs de Friends choraram como crianças. Existe um motivo para isso ter acontecido, que vai muito além da simples sensação de nostalgia e saudade. Primeiro, porque o roteiro tem a feliz escolha de conceder simples falas para todos os personagens, mas que trazem a essência de todos eles, provocando a saudade. Além disso, a construção da cena mostrando o apartamento vazio e encerrando com os amigos saindo dele para tomarem um café (o “Where?” do Chandler torna-se inesquecível nesse momento), mostra o quanto as coisas podem mudar e ao mesmo tempo permanecerem as mesmas. A série começou com um café no Central Perk, e termina da mesma forma, em uma rima temática que chega a ser poética. É por isso que a emoção é gerada. É por isso que é impossível não encher os olhos de lágrimas ao assistir esse episódio se você acompanhou toda a série.
Não é um só motivo que torna Friends uma série inesquecível. É uma avalanche de fatores. É verdade que a série não tem o primor técnico que muitas produções abaixo dela nessa lista têm, mas a maestria com que o roteiro cria sua comédia e envolve seu espectador é algo que é raramente visto em qualquer série. Friends é um monumento para todos os envolvidos. Motivo de orgulho para qualquer um que tenha participado da série. É por isso que ela está aqui. Porque fez parte de nossas vidas. E continuará fazendo.
Ranking:
1ª – Battlestar Galactica
2ª – Friends
3ª – Dexter
4ª – Lost
5ª – Arrested Development
6ª – Six Feet Under
7ª – 24
8ª – Veronica Mars
9ª – The Wire
10ª – Breaking Bad