
Chegou a hora.
Spoilers Abaixo:
Com nossos miolos ainda espalhados para todos os lados desde o final da 3ª temporada, começamos o 4º ano de Fringe indo com sede ao pote. O problema dessa expectativa elevada é se decepcionar depois. Foi mais ou menos isso para mim. Eu esperava um pouco mais dessa Season Premiere, não posso mentir.
Também não vou dizer que eu tenha morrido de tédio e achado péssimo. Num primeiro momento achei que o episódio havia sido mediano, mas fiquei surpresa com o encontrei nos detalhes e referências. Minha opinião melhorou bastante, embora eu ainda acredite que esse é o começo de temporada mais fraco que Fringe já nos apresentou.
Acabo de sair da minha maratona das duas primeiras temporadas e por isso mesmo, fiquei com a nítida impressão de que essa Premiere contém muitos elementos do Piloto de Fringe. É plausível. Estamos encarando um novo mundo, uma realidade que foi alterada em níveis com os quais nem podemos sonhar. Peter Bishop foi apagado da linha temporal e ganhou um “substituto”. Por isso, o episódio deu muito foco ao Agente Lee, que já conhecemos do lado B (e de aparição no lado A no episódio 3×17- Stowaway), praticamente fechando a brecha que existia entre as equipes da Fringe Division. Vale notar que, antes de Peter ser apagado, Lee conhecia Olivia, Walter e Cia.
A relação com o Piloto é mais do que impressão. Ela existe de verdade e não apenas nos comentários de Olivia sobre John Scott. A construção da narrativa é muito semelhante e os casos tratados são parecidos (Olivia e Lee perderam seus parceiros), embora John não tenha sido atacado por nenhum shapeshifter e sua pele translucida tenha sido causada pela explosão de um laboratório cheio de produtos químicos. Ao que tudo indica, estamos diante de uma nova criatura que rouba metais contidos no sangue das pessoas. Pode ser criação de Walternativo, pode ser que estejamos diante de um inimigo ainda desconhecido.
A dinâmica no laboratório também mudou. Astrid agora faz muito mais trabalho de campo, acompanhando Olivia nas cenas de crime. Antes Peter tinha essa função. Walter, ao que tudo indica, não sai de dentro do laboratório, inclusive, mora ali mesmo. Astrid precisa transmitir as coisas para ele via câmera, o que deixou aquele exame anal no defunto tão interessante. Aliás, só mesmo Walter pediria para ver o ânus de alguém enquanto come um saco de pipocas. Porém, o principal é perceber que, não importa o quanto o universo seja bagunçado, Gene sempre vai existir e nos alegrar com sua presença.
No final das contas, a grande pergunta da temporada é o que dá o tom das coisas. Onde está Peter Bishop? Ainda não sabemos, já ganhamos pistas sobre o paradeiro dele. Para começar Peter fez duas aparições (na verdade três, mas só pudemos ver duas). Acontece que o plano dos Observadores em apagá-lo (o que significa que ele nunca nasceu, em nenhum dos universos) é falho.
Por algum motivo, usaram aquela canetinha branca que promete pagar as demais, mas deixa um borrão no papel. Com Peter é assim. Ele foi apagado, mas indícios de sua existência “escapam” a todo o momento. É como se ele fosse uma assombração, um fantasma desconhecido. Reparem que Walter o vê por duas vezes e não o reconhece. Olívia, por sua vez, sente que falta alguma coisa em sua vida desde que se entende por gente, mas ela não sabe dizer o que é. Esse “buraco” existencial foi uma de suas motivações para integrar a Fringe Division, o local onde ela sabe que vai encontrar respostas, mesmo que elas gerem ainda mais perguntas.
Fiquei bastante intrigada com a decisão de September em não usar seu aparelho “apagador”. Ele sempre foi o mais humano dentre os Observadores e está arriscando bastante ao deixar as coisas acontecerem sem sua interferência dessa vez. Tudo isso pode significar que ele já sabe o que trará o futuro e que seus planos incluem deixar que Peter Bishop volte de alguma forma.
Já começo a conjecturar que a solução para salvar os dois mundos não está apenas em Peter, mas também, em Peter, o outro, que morreu (ou melhor, não morreu ou teria morrido se existisse #nónacabeça) na infância. É por isso que começo apostando na possibilidade de termos não apenas um, mas dois Peters, muito em breve. Como isso será possível, eu ainda não sei, mas em Fringe tudo pode acontecer.
Voltando ao assunto da minha frustração, acho que está no fato de que eu queria ver mais dessa força-tarefa entre os universos. A tensão entre Olivia e Bolivia dá bem o tom da situação, mas para mim, o que faltou foi ver o que eles estão fazendo para salvar os mundos, na prática. Tentarei manter minha (im) paciência mais um pouco.
É claro que não vou encerrar esse texto sem indicar aqui as referências e fatos interessantes que me fizeram ter mais apreço pela Premiere. Começando pela abertura laranja, que deve ser relacionada à união dos universos ou ainda, aos episódios sem Peter Bishop. Minha escolha de cor não foi achismo. Os produtores é que confirmaram o uso de laranja. Há novas palavras por ali. São elas: Existência, Entrelaçamento Quântico, Psicometria, Terapia Viral, Pedra Filosofal, Grávitons, Psicogênese, Paradoxo Temporal, Bilocação, Cirurgia Psíquica e Transgênicos.
Outra coisa interessante é uma referência, da referência, da referência. Fringe está abusando do quanto cita a si mesma e relaciona as coisas em seu roteiro entre as temporadas. A frase de Lee para Olivia na segunda cena de crime “One of these things is not like the other” já apareceu diversas vezes e foi retirada de Vila Sésamo.
A primeira vez em que a oração foi citada nos leva até o episódio 2×04 – Momentum Deffered, dita por Rebecca Kibner, uma das “cobaias” vivas de Walter, numa explicação de como sabia diferenciar humanos de shapeshifters. Além do mais, essa é uma das primeiras pistas de que Peter não pertencia ao lado A, já que ele desconhecia completamente a canção infantil: “One of these things is not like the other. One of these things doesn’t belong.”. Em Stowaway, o Agente Lee diz a mesmíssima frase para Peter e Olivia durante uma investigação em que estão trabalhando juntos. Somente ela entende o significado.
Com o Piloto, pode haver ainda mais uma relação. Nele, Nina Sharp utiliza um equipamento de identificação similar ao que Lee e Olivia em sua entrada para o ponto comum entre os dois universos. Tanto no primeiro episódio como aqui, a folha dos Glyph Codes aparece ao final do processo, na tela.
O Glyph Code que abre a temporada é APPEAR, que significa tornar-se visível, aparecer. Obviamente relacionado ao flash de Peter, assim como o título do episódio, que numa tradução tosca diz “nem lá, nem cá”. Só pode ser direcionado ao próprio Peter, cujo paradeiro é uma incógnita.
Há ainda imensa discussão sobre a importância da palavra “TOAST” no episódio, repetida seis vezes por Lee. Tem gente pirando nos fóruns porque Olivia falou sobre o homem que a mataria mordendo uma torrada. Para mim, é viagem demais e esse pessoal está fumando Brown Betty, mas fica registrado aqui a titulo de curiosidade. Vai que um dia ainda descobrimos que, assim como Lost era uma série sobre pessoas, Fringe sempre foi uma série sobre pão tostado.
P.S – Sei que é muita loucura e muita obsessão, mas mesmo assim vou compartilhar um easter egg de Fringe flagrado fora de Fringe. Há referências a Charlie Frances, Philip Broyles e Peter Bishop (que ainda existe em algum lugar!) em uma das cenas do Piloto de Person Of Interest, como vocês podem ver aí na foto.
Não é estranho. J.J.Abrams está na equipe de produtores da série e gosta de plantar essas brincadeiras. Se vale a pena ver o Piloto de Person Of Interest só por isso? Fiquem com a imagem (precisa forçar a visão e dar uma ampliada para enxergar), que já está de bom tamanho.



