Hell on Wheels – 1×01: Pilot [Series Premiere]

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A locomotiva saiu, resta saber qual será o destino.

Wanted: Mr. Spoiler:

“All of history is driven by the lion”- Thomas Durrant

A AMC é um canal que durante boa parte de sua existência teve como prioridade a exibição de filmes clássicos, entrando apenas recentemente no mundo da produção de séries. Dentre estes filmes, a maior parte deles eram os filmes de maior sucesso no imaginário americano: os Westerns. Não é de ficar surpreso, portanto, que o canal tente se consolidar comercialmente com uma série com essa temática, justamente quando o faroeste está voltando a se popularizar após um interlúdio de quase vinte anos.

A trama conta a história de Cullen Bohanoon (Anson Mount), um ex-soldado da Confederação na guerra civil, que surge em Hell on Wheels, cidade que abriga a construção da ferrovia transcontinental, em busca de vingança pelo assassinato de sua esposa.

A princípio, não é difícil notar que Bohanoom é um típico protagonista que faz jus à tradição de Clint Eastwood: o homem cuja força superior é o próprio revólver, que chega em uma cidade fingindo reconstruir a vida, mas com um motivo de se vingar de algo relacionado ao seu passado obscuro, o que surge mais como uma homenagem do que uma cópia, percebam a semelhança na caracterização entre Bohanoom e o Pistoleiro Sem Nome.

Homenagem que não seria possível se não tivéssemos um ator com capacidade para representar o papel, nesse sentido Mount surge como uma surpresa interessante. Se apresentando sempre com uma expressão facial forte, com os olhos sempre encarando os seus interlocutores, e uma voz adequadamente grave, o que é esperado de um protagonista ambientado em um universo aparentemente tão violento e com uma caracterização visual tão profana. Muletas de interpretação que a princípio se mostram adequadas, mas dependerá do ator saber os momentos necessários para abandoná-las.

Os outros personagens, embora com menos tempo de tela, agem exatamente do modo como é esperado das figuras clássicas de um western: Fergusson (Common), o ex-escravo que, mesmo ainda carregando o estigma, tenta encontrar seu lugar no mundo livre; Thomas “Doc” Durrant (Colm Meaney), o homem de negócios que representa o poder econômico na região desprovida de leis; Sean e Mickey McGinnes  (respectivamente, Ben Esler e Philip Burke) , os imigrantes em busca de oportunidades; Lily Bell (Dominique McElligott), a recém viúva que terá que adotar uma postura forte por viver em um mundo anárquico e não possuir mais proteção do marido. Escolhas que, apesar de nada originais, dependerão muito da forma como serão trabalhadas.

O principal problema do piloto, portanto, é exatamente esse excesso de tramas em seus pouco mais de quarenta minutos, o que dificulta que nos estabeleçamos em uma delas. Por serem showrunners estreantes no mundo da televisão, os irmãos Gayton parecem não entender que existe uma diferença básica, além do tamanho, entre um primeiro episódio e o primeiro ato de um filme, tornando todo o processo bastante bagunçado. Em vez de se focar em, no máximo, três personagens, e introduzir os outros de forma indireta, o roteiro prefere alternar entre três linhas diferentes, algo que dificilmente funciona bem em um episódio inicial (exceção à regra que me vem em mente: Game of Thrones, que já tinha um material para tomar como referencial).

O foco do capítulo é perdido por completo, portanto, quando cerca de dez minutos são gastados introduzindo a personagem Lily Bell, o que não deixa de ser aleatório. A cena do ataque indígena, toda banhada em cinza e contrastando com o verde da natureza, é visualmente linda, talvez a aleatoriedade mais bonita da televisão, o que não torna a coisa menos aleatória. A personagem podia muito bem ser introduzida em outro episódio, até ter mais tempo para ela do que terá agora, para que pudéssemos nos primeiros momentos ter um foco maior nas tramas principais.

Falando em estética, por outro lado, a cena que vemos um céu aberto e um sol forte batendo em Bell e o marido, para, junto com a pele extremamente branca e os cabelos loiros de McEligott, dar um tom angelical à personagem pode até ser um pouco cafona, mas faz um contraste admirável com a cena final, onde a vemos coberta de sangue e em um ambiente cinza impessoal. Em momentos como esse, pode ser percebido que a série ao menos consegue entender a melhor forma de como fazer, mas falha na escolha do que será abordado.

Os momentos de tela de Thomas Durant são mais orgânicos, por explicarem melhor sobre o pano de fundo da construção da ferrovia, que é a trama que liga tudo o que ocorre na série. Meaney tem pouco o que fazer, pois, na maioria do tempo, é pedido dele apenas o básico do personagem, mas consegue dar um ar de homem de negócios astuto ao seu personagem e, quando é exigido nos momentos finais, faz jus a tudo que é esperado de sua atuação e mostra que “Doc” tem muito o que ser explorado.

É quando o roteiro foca em Bonahoom e Fergusson que a série sobe de nível e mostra seu motivo de existir, representando ambos pontos de vista completamente distintos da sociedade, percebemos que Fergusson é alguém que tem um motivo real para desconfiar as intenções de Bonahoon, um ex-senhor de escravo. Ou melhor, o próprio Anson Mount percebe e consegue largar a muleta interpretativa usada até o momento, fazendo com que possamos contemplar o protagonista estranhamente confuso sobre como deve agir. Se tivesse um foco maior na dupla, o desempenho do episódio poderia ser muito superior ao apresentado.

Dinâmica que peca por ser sempre jogada na cara do espectador, fazendo com que algumas sequências interessantes, como a que Bonahoon dá ordens para negros trabalhando, parecendo mais um senhor de escravos, sejam mal realizadas pelo diálogo excessivamente expositivo e indelicado, como se duvidasse da capacidade do espectador de compreender seus sub-textos. Entre os momentos que o diálogo utiliza isso de forma eficiente, está o que o protagonista conversa sobre ter liberado os escravos e o motivo de ter ido à guerra civil, o qual, apesar de clichê, não deixa de representar o que muitos sulistas pensavam: mais do que uma guerra que girasse em torno do escravismo, o principal foco na época era até que ponto o Sul possuía autonomia para se separar do resto do país e a honra da região em querer fazer valer a Constituição.

Esteticamente, Hell on Wheels toma algumas decisões bem interessantes ao utilizar uma fotografia escurecida na maior parte do tempo e, fugindo das convenções de westerns, colocando um céu cinza e nublado, o que confere um caráter mais sombrio ao universo e faz com que possa ser percebido desde o piloto que esse não é um western de dicotomia mocinho e vilão como de costume.

O design, como é de se esperar de algo realizado pela AMC, é impecável e transporta o espectador para a época, desde os ambientes situados na cidade de Hell on Wheels, os acampamentos, até mesmo nos momentos que ressalta a cidade grande onde os investidores da ferrovia viviam. Tecnicamente, não temos do que reclamar da série..

Embora o roteiro falhe ao não conseguir fazer com que tenhamos intimidade com os personagens é notável que ele consiga desenvolver um personagem periférico em toda a trama: Mr. Johnson. Em apenas um diálogo de alguns minutos, conseguimos ver um homem com virtudes, defeitos, que não tem orgulho do seu passado, mas sabe que faz parte dele, um homem com todo um histórico e personalidade. O resultado é o esperado: É criada o mínimo de intimidade possível com o personagem para lamentarmos sua partida, mais do que de qualquer outro protagonista caso morresse subitamente. Servindo como uma mostra que o desenvolvimento foi falho no primeiro episódio, mas é algo que pode vir a ser consertado com o tempo.

O “Pilot” de Hell on Wheels é um exercício confuso, apesar dos seus notórios pontos positivos, mas mostra que existe muito território a ser explorado e onde a série pode evoluir. A melhor característica dele, contudo, é conseguir deixar sua melhor cena para o final: o discurso sobre como a história é escrita e mostrando os tons de preto e branco de Thomas “Doc” Durrant, fazendo com que o espectador encerre a experiência satisfeito.

Outras considerações:

  • Comparar com Deadwood é algo que não é justo com qualquer série estreante. Certo, twitter?
  • Aquele letreiro inicial, situando o espectador historicamente, foi algo muito dispensável e que poderia muito bem ser retirado sem que a história sofresse alteração. Essa situamento poderia ser feito apenas pelos diálogos.
  • Apesar de eu ter falado mal do modo como foi usada, Lily Bell me pareceu uma personagem interessante em seu pouco tempo de tela. O grande problema é que de personagens interessantes sendo mal utilizados a AMC está cheia.
  • Tive pela primeira vez em muito tempo vontade de rever Era Uma Vez no Oeste e a Trilogia dos Dólares, espero sanar essa vontade nas férias.
  • Segunda melhor estreia da AMC, com uma temática tipicamente americana, será que a AMC encontrou finalmente o seu produto de sucesso? Não percam nos próximos capítulos!
  • E vocês, o que acharam? Alguém continuará comigo aqui ou todos pegarão o trem mais próximo para a civilização?

@guilhermeifc

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  • http://twitter.com/_andreflores André Flores

    Bah, põe review detalhada nisso hein?!

    Discordo das críticas quanto ao excesso de histórias paralelas. É um modo de introduzir os personagens já no Pilot. Claro que devido ao pouco tempo se perde em profundidade, mas por outro lado se ganha em apresentar as possibilidades da trama logo de cara. Há quem goste. Eu por exemplo…

    Tenho um pé atrás com a AMC desde o cancelamento de Rubicon. Eu realmente gostava daquela série. Achava genial a trama cheia de mistérios e conspirações malucas.

    Mas vou dar um voto de confiança e assistir mais um pouco dessa bagaça pra ver o que acontece.

  • Marco A

    Bah, põe review detalhada nisso hein?!(2)

    Deve ter bastante qualidade realmente, apesar de ser um início onde não sabemos bem onde tudo vai dar, mas o tema não me agrada muito e já tenho tanta série para ver, que desta vez passo…

    Mas de novo, bela review, deu pra ter uma ótima idéia sem nem ver!!!

  • http://seriesotp.tumblr.com/ Sofia

    Cara, vc e o Henrique estão arrasando nas reviews! A Camis sempre será minha diva mór, ela faz a melhor de Fringe e olha que leio varias, mas vc e o Henrique estão se destacando pela riqueza de detalhes, interpretações inteligentes e claro, eloquência, pq sem o dom da palavra um texto belíssimo desse nao sairia. Queria poder escrever assim…

    Voltando ao episodio, concordo 100% com vc. Achei que faltou intimidade com a audiência devido a variedade de personagens sendo introduzidos logo de cara, um pouco confuso mas teve sólidas interpretações, fotografia interessante e se eles focarem os plots com mais objetivo e um pouco mais de sutileza no roteiro em vez de mastigar demais, vai virar hit com certeza.

    Eu tenho que dizer que a idéia é maravilhosa e eu estava aguardando esta série feito louca pq adoro westerns. Vou continuar acompanhando, sei que é uma série temática mas o cuidado para nao virar uma caricatura tem q ser redobrado…

    Mais uma vez parabéns pela review!

  • http://seriesotp.tumblr.com/ Sofia

    @André

    Tbm gostava mto de Rubicon e desde esta época a AMC perdeu mtos pontos comigo. Eles ainda tem que comer mto feijão com arroz para chegarem aos pés da HBO e acho que inclusive eles vem sendo vítimas do próprio hype que se criou a volta do canal de forma tão prematura.
    Sei q Rubicon era lenta, mas um canal prime como a AMC nao deveria se preocupar com isso e sim dar segurança aos seus produtores de que eles terao tempo para contar suas historias, é o que se espera de um canal a cabo.

    Guilherme, interrompi minha maratona de Deadwood justamente para nao influenciar (mais) e ficar comparando…

  • Leonardo

    certeza irei acompanhar seus rewius toda sema.

    Eu amo western.

  • http://twitter.com/Akr_GabrielF Gabriel Fontes

    Parabéns pela review Guilherme, apesar de não concordar com tudo, você escreve muito bem.

    O piloto cumpriu com as minhas espectativas, que eram um tanto altas… Nesses últimos tempos eu tenho gostado tanto da AMC no quesito produção, que hoje ela abriga algumas das minhas séries preferidas. Vou continuar acompanhando a série juntamente com suas reviews.

    Grande abraço.

    =)

  • http://www.twitter.com/whoiska Carol

    Achei o pior piloto da AMC.

    Talvez eu continue só por ser tiete do canal, mas para a série ficar boa vai ter que melhorar e muito.

    (A review está boa, como sempre, só odiei o epi mesmo).

  • http://twitter.com/_andreflores André Flores

    @Sofia

    Concordo em tudo contigo sobre Rubicon! Foi uma pena mesmo…

  • Laís

    Eu gostei do pilot eu irei continuar assistindo para ver o rumo da historia, estou virando fãs da AMC! :D

  • João Paulo – Brasil

    Eu gostei da review talvez mais prá frente eu de uma chance a série pq eu adoro um western.
    Guilherme já assistiu Os Indomáveis (3:10 to Yuma) sensacional esse filme um dos meus filmes preferido, Russel Crowe e Christian Bale estão excelentes além do Ben Foster.

  • LUIS HEBER

    Adoro filme de farowest e com certeza vou conferir essa série.

    Me lembrou Deadwood com Timothy Olyphant…uma de minhas séries preferidas.

  • bad_xerif

    Já baixei o 1º espero que seja uma boa série

  • Fernando dos Santos

    Essa é uma série que com certeza irei conferir.Desde o cancelamento precoce de Deadwood na HBO a televisão americana não havia produzido mais nenhum seriado western.Finalmente a lacuna foi preenchida.Espero que Hell on Wheels consiga se firmar como um sucesso de publico e critica e tenha uma longa vida.

    Os indices de audiência alcançados pelo episódio de estréia foram muito bons então a renovação já está quase garantida.

  • Fernando dos Santos

    Eu só espero que a decisão do AMC em parar de produzir séries roteirizadas não vá dificultar as possibilidades de renovação para Hell on Wheels.Tirando esse detalhe creio que a série tem boas chances de ser renovada.

  • Leonardo Werneck

    A AMC anda com moral comigo depois das últimas temporadas de Breaking Bad. Vou ver esse piloto.

  • @lipefriedrich

    Concordo com tudo q tu disse na review Guilherme, só é importante lembrar q o piloto de Game Of Thrones teve quase 10 minutos a mais do q esse de Hell on Wheels, e a fotografia mais escura me parece uma tendencia na AMC não e?

    Mas o q eu gostei mesmo foi q o protagonista não é aquele fodão q é melhor q todo mundo, ele simplesmente é um cara com uma arma q quer matar os responsáveis pelo assassinato da sua esposa

    O que eu não entendi mesmo foi aquele reverendo q batizo o cara, dai quando apareceu de novo foi pra falar q ia construir uma igreja naquele lugar fudido e de repente nao apareceu mais

    Valeu ai, acompanharemos as reviews fielmente

  • Henrique

    Boa série, acabei de ver o piloto, gostei bastante do resultado, normalmente quando vejo pilotos de séries novas fico a todo momento olhando a hora pra ver se falta muito para terminar, nessa nem olhei, resultado:
    esperando pelo segundo episodio!

    Otimos comentarios sobre a serie.

  • Renan

    Rubicon era realmente boa, mas o caso da serie ter sido cancelada foi por não ter audiencia no EUA, pelo jeito os americanos não gostaram da serie, que é uma pena, pois era otima. Mas eu confio na AMC por causa das excelentes The Walking Dead e Breaking Bad. Também não vou comparar com Deadwood.

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