
Homeland sabe criar expectativas como ninguém, mas será que cumpri-las satisfatoriamente é parte de suas atribuições?
Spoilers Abaixo:
Estrear como reviewer de uma série logo no seu season finale pode parecer estranho pra vocês, mas eu aceitei o desafio de começar pelo final. E nada mais adequado, já que falamos de uma série que usa e abusa da narrativa fragmentada, que já é capítulo de ouro na apostila dos roteiristas ultimamente.
Duas coisas tem que ser levadas em consideração na hora de falar sobre esse finale de Homeland. A primeira é que as promos deviam ser proibidas de aparecer no final dos episódios, já que assim você só precisa ver se for atrás delas. E uma vez que você vê uma cena, acaba não resistindo a ver as outras. E se teve uma coisa que essa promo fez pelo episódio final, foi acabar com algumas tensões. Já que mesmo que soubéssemos que havia uma grande chance de Brody não ir pelos ares, queríamos acreditar pelo menos numa variação mais sangrenta da quase-morte. E o que vimos foram vários minutos de entrega a uma tensão que permaneceu borrada pela certeza de que nada aconteceria, uma vez que a cena de Brody pedindo que Carrie o deixasse em paz, e que apareceu no promo, não havia ido ao ar até aquele momento do episódio.
A segunda coisa é exatamente essa: a tensão.
Todo mundo aí já deve saber que Howard Gordon & Alex Gansa, já foram roteiristas de Arquivo X, e se leram meus textos sobre a série, já sabem também que não sou muito fã de seus momentos no programa. Melhor sucedidos eles foram em 24 horas, em que o formato de tensões envolvendo política, FBI, terrorismo e família era muito semelhante ao que vemos em Homeland. Por causa disso, exatamente, é que a série tinha nas mãos uma tremenda de uma responsabilidade, e que era a mesma responsabilidade construída com 24 horas: criar e superar expectativas. Deixando claro, óbvio, que precisamos aceitar essa categorização de formato; Homeland é uma série de reviravoltas. Não é como Mad Men, em que as mudanças são lentas e veladas. É uma série de surpresas. E no caso dessa nova empreitada de Gordon & Gansa, a responsabilidade ainda tem um terceiro degrau, que é exatamente se distanciar de sua prima-irmã, 24 horas. E no que diz respeito a isso, ao menos na primeira temporada, eles foram bem sucedidos. Têm umas coisas ainda muito presentes, mas irrelevantes diante de outros esforços.
A gente sabe que quando senta pra ver Homeland, está esperando manipulação. Eu quero ser jogado de um lado pro outro, quero acreditar e desacreditar de tudo, quero ser enganado. Mas mantendo sempre alguma coerência. E enquanto Carrie seguia perfeita do início ao fim, a sensação com Brody já era outra.
A explicação é simples. Brody era a ferramenta de manipulação. O mistério dizia respeito a ele e por isso, as variações especulativas precisavam partir dele também. Carrie já estava toda construída e as motivações dela já ficaram claras, assim como seu caráter. Brody foi diferente, começou a série com cara de vilão. Era péssimo com a esposa, transava como um coelho, matou o pobre do alce e espancou o amigo. Tudo isso ajudava a reforçar a ideia de que Carrie estava certa. Mas numa série como essa, a gente já sabe que tudo vai mudar de figura. O problema é que quando muda a gente já se vê diante de outro personagem. Brody passa a fazer sexo como uma pessoa normal, adquire certa fragilidade, fica ótimo com a mulher, perdoa o amigo e se aproxima da filha. Toda a aura em torno do personagem muda depois que os acontecimentos vão nos mostrando que ele tem motivos ambíguos para fazer o que precisa fazer. O jogo do “pensou que era o vilão” não é nenhuma novidade, mas acho que teria sido mais digno se Brody não tivesse perdido características pelo caminho… Nem mesmo matar Walker o redime desse conflito de criação, já que esse assassinato era uma clara legítima defesa. Para manipular a história, manipularam o personagem, e se esqueceram que não vale tudo para convencer o público de meias verdades.
Já com Carrie a história é outra. A personagem é um desbunde de criatividade e coerência. As palmas por esse finale vão todas para ela, que não se assemelha a nada que vimos na televisão nos últimos anos. E me refiro a interpretação mesmo. Heróis transgressores que roubam, mentem e até transam com seus algozes para conseguir o que querem, não são novidade. Mas uma personagem como a que Claire Danes defendeu, é coisa para poucos.
Eu não gosto muito daquela coisa das cores. Entendo que a cabeça de uma pessoa com distúrbio bipolar funciona de modo diferente, mas a necessidade de provocar ruído no roteiro ao complicar as teorias de Carrie para provocar sua imagem de incredibilidade, me cansou um pouco. Tudo foi salvo pelos olhos esbugalhados de Claire, que transformou o estúpido plot da paixão por Brody em algo até bem crível. Simplesmente adoro a cena da personagem invadindo a casa de Brody para tentar convencer a família dele de suas teorias. E acho louvável, principalmente, o fato de não terem amenizado o inferno vivido por ela. Enquanto Brody ganha uma redenção de presente (numa necessidade politicamente correta dos produtores de justificar humanitariamente as questões islâmicas), Carrie ganha a destruição absoluta de sua reputação e uma bela sessão de eletrochoques no derradeiro fim.
Acho bacana a ideia de que um homem esteja disposto a explodir um monte de gente por uma questão de gratidão, mas não gosto de perceber, ao final de 90 minutos, que fizeram tanto barulho pra nada. E esse é um problema que os roteiristas trazem como vício da época do 24 horas. Criar expectativas que não correspondem aos planos finais e perder tempo com plots paralelos que servem apenas ao propósito de completar o tempo de episódio (Saul e sua esposa, por exemplo). A decisão de fazer com que Brody não colocasse seus planos em prática para que sua inserção no meio político alcançasse maiores efeitos, foi acertada, mas custou muito tempo desse finale fazendo o suspense correr atrás do próprio rabo. Brody desistir por causa da filha é nobre, mas pra mim não faz parte da natureza do personagem. Ao mesmo tempo, pensamos: ele ia desistir por causa do quê? É pra responder com inteligência a essa pergunta, que Howard Gordon & Alex Gansa estão sendo pagos.
Saul salvou-se de sua apatia colocando o Vice-Presidente e David contra a parede. Já fazia muito tempo que eu queria ver o David levando uma rasteira. O personagem já entrou com tudo na galeria dos chefes babacas com problemas de audição. E nem vou falar da esposa de Brody, que não me desce desde o primeiro episódio.
Não sei como será daqui pra frente, já que Carrie parece ainda disposta a continuar sua cruzada contra Brody e ele mesmo passa a fazer parte do jogo político. Essa decisão de não encerrar definitivamente os eventos da primeira temporada, pode ser arriscada, visto que isso pode maximizar as fragilidades criativas até aqui. Não dá pra continuar mantendo Brody na linha do indecifrável por mais tempo e se continuarem a tentar fazer a gente acreditar no que não vai mesmo acontecer, vamos nos aborrecer com muita facilidade. Bombear emoções não funciona o tempo todo. Há de se ter uma justa medida para os momentos em que nada é o que parece. Tem horas que o que parece, precisa mesmo o ser. Acho que eu teria ficado mais feliz se no fim das contas, Brody tivesse explodido tudo (o que transformaria Carrie numa deusa) ou se os motivos dele fossem a simples e absoluta inflamação religiosa.
Que venha a segunda temporada. Homeland foi um acerto incrível do Showtime e merece todos os elogios por seu elenco e sua elegância.