
Depois de dois socos no estômago, How I Met Your Mother retorna com o sabor original de leveza e romantismo.
Spoilers abaixo!
Comédias não são, por natureza, serializadas. O primeiro motivo é que elas só fazem uma quantia significativa de dinheiro quando os seus direitos de transmissão são vendidos para a TV a cabo, e para isso acontecer, para os pacotes das série ficarem mais atraentes e esses canais as comprarem por preços ainda mais caros, elas precisam de episódios que facilitem reprises e possam capturar rapidamente qualquer telespectador descompromissado que esteja simplesmente mudando de canal até achar alguma coisa divertida para assistir (daí também vem o motivo da continuidade de outra marca registrada do gênero que cria um reconhecimento rápido, a trilha de risadas).
O segundo motivo é mais simples: humor é difícil de criar quando você precisa manter o foco em uma narrativa robusta. O que nos leva a How I Met Your Mother. Mesmo tentando encaixar porcamente um segmento de recapitulação na narração do Ted do futuro, o aproveitamento desse episódio e de como ele se encaixa no emaranhado de tramas e temas dessa temporada só é possível se você acompanhou os 14 episódios anteriores, ou até mesmo os 126. Tudo na vida é uma sequência de eventos (se você não tivesse parado para amarrar os cadarços, teria sido atingido por um carro ao atravessar a rua), mas o que faz dela uma comédia especial é como consegue pegar tudo isso e dar sentido e peso sem precisar lembrar a audiência todo o segundo do quão complicado é conseguir fazer isso.
“Oh Honey” serve mais como uma prova clara disso do que como um episódio qualquer ou até mesmo importante (ainda que seja). Muitas das piadas não funcionaram e a escrita geralmente ótima da dupla Carter Bays e Craig Thomas parecia fora de tom, mas em termos de arcos esses estão sendo os mais efetivos de toda a série, com os momentos que os capturam se tornando instantaneamente memoráveis e emblemáticos de tudo que a série quer dizer com as histórias que conta. Barney em seu quarto relembrando a infância em “Cleaning House”, Marshall recebendo a notícia da morte do seu pai em “Bad News”, Ted finalmente beijando Zoey… Impossível não se emocionar quando essas coisas acontecem por motivos fortes e vêm de lugares verdadeiros. E enquanto a série traz os significados com o que já conhecemos dos personagens, ela constrói dentro dos próprios episódios a força que esses momentos terão.
Aqui, é óbvio desde o início que os telefonemas estão girando ao redor das duas peças centrais da temporada, fazendo do grande momento no qual elas se tornam cientes de que estão apaixonadas um alívio, não de impaciência, mas de ansiedade para vermos o próximo passo desse relacionamento. Tudo que envolveu ele, aliás, foi um verdadeiro feito estrutural por parte dos showrunners. Desde a idéia de apresentar os desenvolvimentos por meio de telefonemas feitos por Marshall para se distrair em Minnesota até aquela gloriosa cena final no corredor, é de uma naturalidade sensacional como Ted e Zoey acabam ficando juntos e fornecendo um pouco de alegria depois do luto do episódio anterior. Pode não ter sido perfeito, mas junto com a morte de Marvin, “Oh Honey” marca o início de uma nova fase da temporada que eu mal posso esperar para ver.
Outras observações:
- Katy Perry foi ok, não acrescentou ou comprometeu. Ninguém teria notado se tivesse sido uma atriz qualquer.
- Jennifer Morrison estava fantástica nesse episódio. Facilmente o interesse amoroso do Ted que tem melhor química com o Josh Radnor (tirando a Cobie Smulders, claro).
- Esse foi um episódio bastante direto, mas ainda assim os roteiristas tiveram tempo para avançar o arco do Barney naquela cena em que ele se abre para Honey. Sutil e bem feito, possivelmente preparando algo para o futuro sem roubar a atenção do casal. Gostei.