
Ou seria Future vs. Past?
Spoilers Abaixo:
Uma das coisas que fazem uma comédia ter sucesso é a identificação do espectador com os personagens da série. Essa característica é fundamental para que as situações criadas pelos roteiristas consigam algum efeito sobre o público, uma vez que é necessário que este pelo menos se importe com as pessoas que estão na tela. A rigor, isso é vital para qualquer tipo de série, mas em sitcoms é mais que uma obrigação. How I Met Your Mother é uma das séries que atingem esse nível de maneira mais eficaz. Por se tratar de uma história sobre um grupo de amigos, com suas personalidades peculiares e relações dinâmicas, a identificação acaba se tornando uma tarefa fácil, tornando o espectador um sexto elemento desse grupo. É nesse conceito que se baseia Mistery vs. History, que ainda explora seu protagonista de uma forma que há muito não se via.
O episódio conta a história de um encontro de Ted com Janet McIntyre, uma garota que ele conheceu no bar. O problema é que Barney e Robin tem o estranho vício de pesquisar todas as mulheres que Ted conhece na internet, sempre estragando-as para o amigo, seja por ser uma psicopata ou por não gostar de Annie Hall. Mas, Ted combina com Janet que nenhum dos dois pesquisará nada sobre o outro, revivendo o antigo mistério de conhecer uma pessoa sem saber absolutamente nada sobre ela. Enquanto isso, Lily e Marshall precisam pintar o quarto de seu bebê, mas não querem saber o sexo dele, deixando Barney enlouquecido por não saber uma informação. Assim, o casal pede a ajuda de todo o grupo (com a exceção de Ted), incluindo Kevin, que quer ganhar pontos com Robin.
Novamente, HIMYM explora características de Ted que eram destacadas nas primeiras temporadas da série, mas que lentamente desapareceram com o passar dos anos. Uma das mais interessantes delas sempre foi o fato de ele conduzir seus encontros de maneira única, sempre cometendo gafes ou exagerando sobre algum assunto. Dessa forma, o desespero do personagem por não saber informações sobre Janet é muito eficiente em trazer de volta as melhores características dele, além de explorar novamente um conceito já introduzido pela mitologia da série, sobre a bagagem trazida por uma pessoa para um relacionamento (lembra-se de The Wedding Bride, na quinta temporada?). Assim, Carter Bays e Craig Thomas encontram uma solução brilhante para solucionar a grande reclamação do público em relação à série, que é justamente sobre as várias mudanças que seus personagens sofreram. Baseando-se em uma decisão coerente de Ted, desesperado pelos rumos que sua vida vinha tomando, os criadores conseguem fazer o protagonista voltar a ser um personagem interessante, além de torná-lo novamente o elemento principal de HIMYM.
Por esse motivo, Mistery vs. History é extremamente feliz em gerar momentos de humor. Aliás, se a sexta temporada ganhou intensamente um fator emocional gerado pelas dificuldades de Marshall e Lily em engravidar e a morte do pai do primeiro, é inegável que esse ano esteja trazendo de volta o humor típico da série, sem tornar os episódios excessivamente pesados, divertindo do começo ao fim. Além disso, Bays e Thomas voltam a investir em uma série de tiradas com o Canadá, outro elemento muitíssimo explorado nas primeiras temporadas. Assim, é impossível não afirmar que os criadores da série não estejam procurando retornar às origens, seja pelas atitudes de seu protagonista, seja pelo estilo de humor conduzido pelo roteiro. E o fazem sem parecer que a série esteja dando passos para trás, tornando essa evolução a conclusão de um ciclo de desenvolvimento iniciado seis anos atrás. Dessa forma, não é por acaso que Ted demonstra um momento de nostalgia ao desejar que as informações sobre as pessoas não estejam tão acessíveis, novamente buscando em seu passado motivos para reencontrar o caminho de sua vida, estabelecendo uma deliciosa ironia procurando o motivo da alegria de seu futuro nas coisas que construiu no passado.
Mas não é só de Ted que Mistery vs. History vive. Todos os outros personagens tem grande importância no episódio. Entretanto, enquanto o protagonista ganha um grande destaque individual, o restante dos personagens aparece simbolizando o grupo de amigos que formam, que tem força suficiente para ser tratado como um indivíduo só. Por isso, a presença de Kevin no episódio tem caráter fundamental. Contando com um verdadeiro terapeuta, o roteiro consegue analisar as características do grupo, denunciando o caráter de quase loucura que os amigos tem quando estão juntos. E o faz sem nenhuma incoerência, apenas evidenciando características presentes há tempos nos personagens.
No entanto, se o episódio funciona como um todo, alguns elementos chegam a incomodar. Kevin, por exemplo, apesar de ter função importante na trama, não funciona como personagem. Isso se deve ao fato de Kal Penn possuir um timing cômico muito limitado, jamais soando natural em suas falas. Por isso, até mesmo quando o personagem executa o mesmo procedimento que funciona muito bem com os outros ele não consegue convencer. Além disso, Robin aparece de maneira irregular, sendo precisa em seu humor em alguns momentos (principalmente com Barney) enquanto se mostra terrivelmente artificial em outros, como em um certo ponto do episódio, em que ela procura a câmera para fazer um comentário.
Mas essas pequenas falhas não tornam o episódio menos excelente. Principalmente porque elas poderiam ser perfeitamente ignoradas, considerando o fato que existem vários outros momentos em que o texto de HIMYM consegue ser preciso ao gerar seu humor típico. Como quando Ted imagina os problemas Barney e Robin poderiam ter descoberto sobre Janet. Nesse momento, as duas primeiras fantasias são evidentemente ilusões, mas contribui para que a terceira, sobre Annie Hall, pareça verdadeira, o que gera uma das melhores cenas do episódio.
E se as grandes cenas do episódio ficam a cargo de Ted, Barney dessa vez ganha menos destaque que vinha ganhando nas últimas semanas. Isso não significa que ele seja um mero figurante, pelo contrário, mas recebe um foco menor por parte do roteiro, principalmente porque era necessário que Ted voltasse a receber um episódio praticamente voltado para ele. Assim, os dois personagens parecem se distanciar cada vez mais dos outros, no que diz respeito à atenção de Bays e Thomas com as histórias. Depois de seis episódios, é possível afirmar com certeza que essa temporada de fato terá mais Ted e Barney do que qualquer outro personagem, devido aos acontecimentos do final da temporada, e à proximidade do desfecho da série como um todo.
Assim como é possível dizer que Bays e Thomas tem uma clara noção do que pretendem fazer daqui pra frente, iniciando esta sétima temporada de maneira extremamente competente. Confesso que tinha saudades de poder elogiar HIMYM por tantas semanas consecutivas.