
Dessa vez, não deu.
Spoilers Abaixo:
Toda série de comédia possui alguns pontos em comum umas com as outras, que são impossíveis de serem evitados. Um deles é a existência de episódios especiais para determinadas datas comemorativas, como o Dia de Ação de Graças, o Natal, o Ano-Novo, e o Halloween. São inevitáveis porque o espectador espera que a temporada da série acompanhe o ano de sua vida, e a melhor oportunidade para que isso se mostre verdadeiro é nesses momentos. Além disso, muitas vezes esses tipos de especiais acabam se tornando episódios inesquecíveis. Contudo, eles representam um risco para o roteiro, que normalmente se vê obrigado a abandonar o desenvolvimento de seus personagens para focar-se em outra coisa. The Slutty Pumpkin Returns cai exatamente nesse problema, além de raramente funcionar mesmo como um episódio de humor.
O episódio conta a história do esperado encontro de Ted com a Slutty Pumpkin, após uma enorme coincidência, quando Ted passa em frente à loja que alugara a famigerada fantasia, 11 anos atrás. A garota (interpretada por uma insossa Katie Holmes) chama-se Naomi, e não é absolutamente nada como ele esperava. Os dois se mostram sem química alguma como casal, e só se sustentam porque os dois queriam que aquilo desse certo. Enquanto isso, Robin descobre que o avô de Barney era canadense, torturando-o com sua ascendência, uma vez que ele nunca perdia uma oportunidade de tirar sarro com a amiga por ela ser do Canadá. Por fim, Lily e Marshall visitam o avô da primeira, e ganham a casa deles de presente pela gravidez, levantando a dúvida sobre a futura moradia do casal.
Esta sétima temporada de HIMYM trazia o que a série não via há muito tempo: um início de ano sólido e com uma ótima sequência de episódios, mesmo que eles não estejam entre os mais marcantes da série. Mas, Noretta já mostrou um nível mais baixo de qualidade, e The Slutty Pumpkin Returns torna-se para esta temporada o que Baby Talk representa para a sexta. Curiosamente, os dois episódios acontecem mais ou menos na mesma altura da temporada, e os dois não conseguem repetir o que episódios anteriores haviam feito. Além disso, o episódio procura adicionar mais um elemento à mitologia da série. Já elogiei a capacidade de HIMYM em criar novas teorias absurdas de maneira brilhante, contribuindo para a riqueza do roteiro da série. No entanto, não é sempre que Carter Bays e Craig Thomas acertam na criação destas, e o “Cérebro de Grávida” introduzido aqui jamais consegue trazer humor para o episódio, muitas vezes contribuindo para momentos de puro embaraço.
Aliás, não é por acaso que The Slutty Pumpkin Returns erre nesse tipo de abordagem. Grande parte do problema é o fato de o episódio utilizar Lily como fator preponderante para a inserção desse tipo de história. A personagem já não acrescenta à série como antes, e se perde quando precisa receber algum destaque. A maior prova disso também está na sexta temporada, com o inexplicável “Where’s the poop?”, do fraco Unfinished. Assim, sempre que Bays e Thomas procuram investir em algo relacionado a ela, o resultado é no mínimo irregular. Não é a primeira vez que a série comete erros ao tentar inserir uma nova teoria, mas é possível perceber que Lily é um elemento comum a praticamente todas as vezes em que isso acontece. Além disso, não se pode dizer que a personagem sempre representou um problema para a série, o que deveria motivar os roteiristas a torná-la relevante novamente. Caso contrário, ela sempre trará para baixo qualquer personagem com que contracenar (nesse caso, Marshall), a não ser que tenha papel secundário na trama em questão.
Mas não é apenas com Lily e Marshall que The Slutty Pumpkin Returns comete uma série de equívocos. A trama principal do episódio, que trata do reencontro de Ted e Naomi, também se mostra irregular, embora apresente alguns momentos interessantes. A química entre os personagens, como citado pelos próprios, é inexistente, mas nesse caso não falo sobre o romance em si. Todas as cenas que envolvem os dois parecem incrivelmente artificiais, como se os dois atores jamais conseguissem transmitir um sentimento de verossimilhança. Apesar disso, fica claro que o episódio possui a intenção de expor novamente a solidão de Ted, deixando claro que o personagem é, atualmente, incapaz de sustentar um relacionamento, mesmo com a garota com quem sonhava há muitos anos.
Mas se existe algo que realmente funciona nessa trama é a distância entre as aparências e a realidade. Por esse motivo, é interessante acompanhar a percepção de Naomi sobre o relacionamento dela com Ted, ignorada pelo episódio inteiro. É verdade que essa cena não demonstra um primor de realização por parte de Bays e Thomas, mas sem dúvidas caracteriza um momento de quebra de expectativas, evidenciando a falta de química do casal, incapaz de perceber a diferença entre algo real e a mais pura mentira. Aliás, HIMYM é quase sempre feliz quando procura explorar essas características inerentes a qualquer relacionamento, exagerando-as e tornando-as explícitas com o fim de gerar humor, mostrando uma considerável habilidade de percepção por parte da dupla de showrunners.
Por fim, temos a trama vivida por Barney e Robin. Nela, Neil Patrick Harris mostra ser um ator de nítido talento para viver o personagem, tornando alguns momentos banais em situações divertidas. A última cena, por exemplo, não tem propósito algum, e aparece completamente deslocada do restante do episódio. Entretanto, Harris é feliz em conferir um caráter non-sense àquele momento, transformando algo que se aproximaria perigosamente da vergonha alheia em algo interessante.
Além disso, o destaque dado ao Canadá no episódio não deixa de ser mais um traço de volta às origens de HIMYM. Esse tipo de piada, dentro do universo da série, sempre trouxe excelentes momentos, e trazê-lo de volta, com um Barney desesperado pela possibilidade de pertencer a esse tipo de pessoas. No entanto, o episódio não consegue realizar essa trama de maneira competente, principalmente pelo fato de receber um menor destaque em relação às demais, que, mais fracas, empurram esta para baixo.
Por isso, The Slutty Pumpkin Returns jamais consegue deixar de ser um episódio com um nome sugestivo e atraente, abordando superficialmente o fato de se tratar da retomada de um arco introduzido há muito tempo. Assim, torna-se facilmente o episódio mais fraco da temporada, e introduz uma certa urgência por textos melhores nas próximas semanas.