
Como transformar 5 minutos em 20.
Spoilers Abaixo:
Esta sétima temporada de How I Met Your Mother tem procurado seguir uma direção diferente das demais. É nítida a tentativa da série de flertar com novos recursos, procurando tornar seus episódios diferentes do comum. É claro que essa característica sempre esteve presente, mas não com essa intensidade, quando capítulos procurando abordar diferentes ângulos narrativos se tornam cada vez mais frequentes. Isso é, sem dúvidas, uma atitude louvável por parte dos responsáveis pela série, que, percebendo o desgaste de sua fórmula, tentam reinventar sua criação para que HIMYM não perca muita força. É assim que surge The Burning Beekeeper, que, embora não faça absolutamente nada por seus personagens, acerta ao explorar, mais uma vez, as qualidades dos mesmos.
O episódio foca-se na festa de inauguração da nova casa de Lily e Marshall. O problema é que Mickey toma a infeliz decisão de passar a criar abelhas no porão, o que já deixa o casal receoso sobre os problemas. Além disso, os dois veem sua comemoração fracassar em apenas cinco minutos, quando crises ocorrem em todos os cômodos da casa. Marshall descobre que terá de trabalhar nesta mesma noite, enquanto Ted briga com Robin, que não aceita o fato de estar se tornando uma pessoa cada vez mais irritada. Já Barney se preocupa imensamente com seu pênis, que pode ser cortado se dormir com Geraldine, vizinha de Lily e Marshall, e não ligar no dia seguinte.
Novamente, é a estrutura narrativa o grande destaque de The Burning Beekeeper. Dividindo a história em três segmentos entrelaçados, o roteiro é feliz ao construí-los de maneira inteligente, utilizando-se de pontos comuns para não confundir o espectador, além de centralizá-lo em um único acontecimento: o apicultor flamejante do título. É verdade que a repetição de alguns diálogos tornem o episódio cansativo em alguns momentos, o que chega a lembrar Remedial Chaos Theory, de Community, embora neste esse recurso tenha uma função narrativa mais sólida (aliás, as semelhanças com esse episódio se limitam a isso e ao fato de serem dois bottle episodes,já que são abordagens completamente diferentes). Mesmo assim, é interessante a forma como o roteiro cria vários mistérios dentro dele mesmo, aproveitando bem o paralelismo da situação como fonte de questionamentos, como em um inspirado diálogo em que Barney revela seu amor por seu pênis, o que não faz sentido algum até um determinado momento.
Enquanto a estrutura traz grandes benefícios para o episódio, ela prejudica o aproveitamento dos personagens. Isso não é necessariamente um problema, principalmente para uma sitcom, que não tem a obrigação de desenvolver tramas a todo momento. No entanto, aqui esse fato torna praticamente todos os acontecimentos excessivamente superficiais, como se os personagens fossem aproveitados pela metade. Isso decorre do fato de HIMYM ser uma série que depende demais das relações entre estes, bem como suas crises de personalidade, decorrentes de suas evoluções como pessoas. Aqui, isso tudo jamais se tridimensionaliza, como se a série tivesse apenas aproveitado imagens do que são seus personagens, ao invés de suas versões mais orgânicas.
Embora tenha esse problema, é inegável que humoristicamente o episódio tenha muitos momentos interessantes. A começar pelas explicações dos mistérios semeados durante a narrativa, quase sempre feitas de modo ridiculamente absurdo, o que quebra a expectativa do público. Veja, por exemplo, o que leva Cootes a pegar fogo. Primeiramente, é natural que o espectador imagine que seja Mickey quem corre pela sala em chamas. Após descobrir que não, e brevemente imaginar se tratar de Barney, o diálogo em que este informa, quase aleatoriamente, a importância do querosene para cuidar de abelhas, conclui a estruturação de uma piada que dura quase o episódio inteiro. A partir daí, o desfecho desta, já conhecido, torna-se até lógico, mesmo com o caráter non-sense da situação.
Aliás, Barney é, mais uma vez, o personagem mais efetivo na criação de cenas de humor. É interessante como isso sempre acontece quando HIMYM foca seu roteiro apenas nisso, deixando brevemente de lado seus arcos. Aqui, o timing cômico de Neil Patrick Harris é importantíssimo para que certas cenas funcionem, como a que encerra o episódio, em que Barney prefere encarar 10 mil abelhas a ouvir a conversa de Geraldine sobre namoro. Note que isso acontece mesmo em um episódio que ele sequer possui a maioria das cenas, já que a natureza da história não permitiria um maior destaque de determinado personagem.
Por outro lado, Ted raramente funciona apropriadamente quando sua função é unicamente cômica. O personagem consegue ser hilário inúmeras vezes, mas sempre quando a série explora seus nuances de personalidade, tornando seu humor menos situacional. Por esse motivo, a briga entre ele e Robin não funciona em momento algum, além de ser atirada na tela sem maiores explicações. Não por acaso, essa é a única situação em The Burning Beekeeper que é externa à casa de Lily e Marshall, o que a faz destoar das demais. Mesmo assim, é interessante acompanhar a evolução de Cobie Smulders como atriz de comédia, e é sempre divertido ver a desafinação de sua voz sempre que Robin tenta desmentir algo que sabe ser verdade.
Curiosamente, mesmo que o episódio seja focado na festa de inauguração de sua casa, Lily e Marshall aparecem surpreendentemente apagados aqui, mesmo em relação a Ted e Robin, pois se as investidas com os dois não funcionam, ao menos elas se destacam, enquanto o casal anfitrião se mantém morno durante os 20 minutos de exibição. Além disso, a tentativa de criar um paralelo entre uma festa desastrosa e a criação de um bebê soa terrivelmente artificial, além de mostrar a constatação do óbvio, quando Lily afirma que será difícil criar uma criança. Da mesma forma, é evidente que Mickey já ficou tempo demais na série, perdendo a interessante função que tinha em momentos anteriores.
Com uma estratégia inteligente de criação da estrutura do episódio, The Burning Beekeeper pode não ser um exemplar brilhante desta boa sétima temporada de HIMYM, mas fornece momentos interessantíssimos, ainda que acompanhados de alguns problemas.