
De tempos em tempos, surge aquele episódio. Aquela uma hora de televisão que te deixa tenso, sem piscar por um segundo e com cada parte do seu corpo e alma conectados aos desenvolvimentos que a história brilhantemente toma a cada segundo, se tornando cada vez mais épica…
Ab Aeterno deixou esse tipo de episódio comendo poeira.
Spoilers abaixo!
Finalmente, após várias temporadas e muita especulação, a história completa daquele que para mim é o homem mais misterioso da ilha foi revelada. Richard Alpert sempre se manteve quieto, realizando um misterioso trabalho que, literalmente, durou gerações. Tudo isso para no final ser abandonado, deixado sozinho em meio a punhado de sobreviventes que mal sabem onde estão e o que fazer em seguida. Jacob, o homem ao qual ele defendeu por décadas e jurou seguir, morreu e não explicou nada que de início prometeu, partiu e fez a vida dele não ter sentido algum. Nesse estado, não é de se estranhar o quase suicídio nessa temporada e as expressões de incredulidade diante dos acontecimentos que se desenrolaram no pé da estátua. Mas antes de tudo isso, há uma história a ser contada. Uma história sobre pessoas, uma história humana que definitivamente prova que os mistérios são só 1% da fórmula que fez e ainda faz Lost uma série memorável.
Quebrando o padrão dos flashsideways, grande parte do episódio se apresenta no bom e velho estilo de Meet Kevin Johnson, Flashes Before Your Eyes e etc, uma organização narrativa mais que necessária para tamanha grandeza do personagem e de sua história, ansiosamente aguardada pelos fãs. É Interessante observar que logo de início, os roteiristas brincam com imagens que nossas mentes estão acostumadas a associar com outras coisas. Floresta, cavalo, posicionamento da câmera de modo a manter o suspense até o último segundo… Todos esses são fatores diretamente ligados a ilha e então ocorre o pequeno choque ao vermos um Richard Alpert estranho. Barbudo, falando espanhol, com uma expressão que exala medo, e então, após a surpresa natural do momento, vem o sorriso de realização: o mistério está prestes a acabar. Uma das coisas que mais ficou impressa em minha mente após o episódio terminar é como o drama foi aplicado, o que novamente leva a minha defesa de que o que faz Lost são os seus personagens, suas histórias, não os – também ótimos – enigmas implantados no decorrer delas. Ab Aeterno é um exemplo mais que genial disso, é perfeito. Tudo amarrado, tudo conectado, tudo tão emocionante que toda a saga do homem em busca de sua esposa morta ofuscou a batalha milenar entre a fumaça negra e o diabo.
Falando neles, as entrelinhas em suas histórias continuam mais fortes do que nunca. Anos se passaram e o conflito ainda se resume a candidatos, a manipulação e ao MIB querendo sair da ilha e continuamente sendo impedido por Jacob. Todos ali são peões e o jogo confuso e surpreendente está acontecendo a muito mais tempo do que nos esperávamos, desde o início dos tempos – daí, aliás, vem o apropriadíssimo título em latim. Cada peça que se move, por mais importante ou pequena que seja, muda completamente a situação e deixa a narrativa mais rica, cria aos poucos um complexo cenário que poucos conseguem acompanhar sem a ajuda de uma certa consulta. Amo Lost e como eles conseguiram fazer tudo isso é difícil de acreditar, mas está aí pra ver e crer.
Em resumo, é o auge emocional e mitológico da série. É a prova final de que Lost é mais do que uma série de mistério, é uma série dramática e muitas vezes, romântica, tirando desse tema outro episódio de nível igualmente soberbo, The Constant. É o tipo de episódio que nós desejamos ver sempre, em vão, mas com certa razão. E, por fim, é o que leva a televisão a um novo nível e faz a semana de todos os fãs mais feliz.
“There is only one way to escape from Hell. You’re going to have to kill the Devil.”
Outras observações:
- Mesmo com todo o meu argumento a favor dos personagens, tenho que admitir: as respostas foram ótimas, principalmente a que traz a relação entre o Black Rock e a estátua e a explicação de Jacob para o que é a ilha: uma rolha que guarda todo o mal do mundo. Metáfora maravilhosa.
- Não ia ser ótima uma indicação ao Nestor Carbonell por esse episódio? Michael Emerson é e sempre será um grande ator, mas ele já ganhou ano passado e tal troca seria bastante merecida, isso sem falar no fator surpresa.
- Bônus divertido: ler alguns americanos reclamando do fato de metade do episódio ser legendado.
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