“Tudo é fantástico e ninguém é feliz.” – Louis C.K.
O maior trunfo de Louie é ser uma série imprevisível.
Vários grandes dramas criaram as suas identidades ao redor de fórmulas (os dois carros-chefes criativos da HBO na última década, The Wire e The Sopranos, representam a exploração máxima desse potencial), várias grandes comédias foram retroativamente tachadas de “clichês” e “repetitivas” pelo mesmo motivo. Entretanto, poucas séries, de qualquer gênero ou origem, deixaram a sua marca na história recente da televisão pela imprevisibilidade em vários níveis que Louis C.K. conseguiu desenvolver nos treze primeiros episódios de sua série. Quando digo que os últimos dez anos foram fracos em formatos novos no estilo similar ao de Louie, não estou sendo crítico ao meio. A TV é recheada de hábitos e está na fase veterana da sua chamada e merecida “Era de Ouro” por causa disso.
O que uma série estranha como Louie mostra é uma extensão interessante da liberdade artística que atores e showrunners ganham na TV a cabo, sendo livres para fazerem, em termos de narrativa, coisas que não seriam possíveis há cinco ou dez anos. Um exemplo disso é o episódio “Dogpound”, no qual Louie fica sem as filhas durante uma semana. Até agora a série vinha apresentando duas histórias por episódio – uma espécie de formato, sim, mas que sempre foi habilmente quebrado pelas mudanças de tom, do bizarro na mulher atraída por homens mais velhos em “So Old” à conexão sincera que ele faz com a mãe solteira interpretada por Pamela Adlon em “Playdate”, de uma observação derivada do seu stand-up em “Travel Day” ao fascínio de uma mulher do interior por ele em “South” – mas por causa da passageira perda das duas pessoas mais importantes na sua vida, a série resolve parar e lidar com praticamente todos os seus temas em apenas uma.
O tédio no seu relacionamento com um vizinho, as besteiras das quais todos nós reclamamos se tornando insuportáveis para Louie naquele estado mental alterado, a morte do cachorro velho que ele adota e como essa pequena lembrança de mortalidade, de estar envelhecendo, afeta ele… Sempre momentos mais sérios que ela esconde com o humor e o ritmo lento da sua edição (um padrão que serve tanto para efeito cômico quanto para proporcionar a nossa imersão na situação do personagem), sempre uma ideia que em essência é sombria ou até mesmo rotineira, passada pelos olhos de uma pessoa que é histericamente engraçada. Isso não é Glee onde você vai ser obrigado a sentar no colo de Ryan Murphy enquanto ele sussurra no seu ouvido a visão de mundo que quer passar. É um comediante sem vergonha (em todos os sentidos) usando da liberdade que o FX lhe concedeu ao aceitar exibir a série para transmitir o que pensa, sem se preocupar com forma ou gravidade.
Ainda assim, Louie não é uma experiência. Não é algo pesado ou triste em demasia. Ela consegue atingir esses momentos, só não está interessada em tê-los como parte principal e os usa sabiamente como pano de fundo para o humor afinado que os acostumados ao stand-up de C.K. já conhecem. E mesmo quando falha, ela ainda arruma uma maneira de ser interessante. “Dentist/Tarese”, o único episódio ruim da série até agora, comete um erro clássico de comédias da TV aberta, e por Louie não ser uma comédia construída em fundamentos clássicos e pelas próprias histórias serem tão absurdas e politicamente incorretas, observar a mesma piada ser repetida, chutada e espremida é, mesmo que sem graça, um exercício prazeroso.
São várias as armadilhas que uma série única como Louie pode cair na sua segunda temporada (marcada para estrear em junho nos Estados Unidos). Ela pode ficar fascinada pela recepção calorosa que teve e perder a ligação com a realidade que faz todas as suas loucuras funcionarem. Ela pode não ter sucesso ao expandir o seu universo e abordar novos temas. Louis C.K. pode simplesmente entrar em um período de falta de inspiração e, por ser responsável pela direção, pelos roteiros e pela edição da série, destruí-la como consequência. Mas o maior erro que Louie pode cometer quando retornar, a maior decepção para todos os fãs da série, é ela se tornar algo que nunca foi durante o seu primeiro ano: tediosa. Louie pode ter feito algumas piadas fracas em raras ocasiões (normal quando uma série se dispõe a abordar um leque tão grande de estilos cômicos como ela), pode ter tido uma ou duas histórias que não se encaixaram muito bem (sim, “Double Date” e “Dentist”, eu estou olhando pra vocês), mas quando é genial, é genial como nenhuma outra série em exibição.
Se ela continuar fazendo isso, excelente. Se não, triste. De uma forma ou de outra, ainda teremos o stand-up de um homem muito, muito engraçado.
E em típico pessimismo de Louie, talvez nós devêssemos ficar satisfeitos com isso.
