
Zou bisou bisou e ulálá… Mad Men está de volta.
Spoilers Abaixo:
“You’re wondering what they’re laughing about. It’s not you.” – Roger Sterling
Quando deixamos os personagens de Mad Men em 1965, todos estavam se acostumando às ideias de mudanças, aproveitando os últimos momentos em o que já pareciam dias apocalípticos para a Sterling Cooper Draper Pryce, criando novos caminhos e coisas nas quais pudessem se segurar. E como Don Draper não é muito de afundar com o navio, ele terminou a temporada viajando para Califórnia, alheio a New York e aos remexes de seus funcionários, tudo enquanto criava um recomeço para si próprio com a sua secretária, tudo enquanto reconhecia o seu retorno a um mundo que, nas palavras de Henry Francis, não permitia recomeços, tudo enquanto misturava Megan, ou melhor, a ideia de Megan com a ideia dos seus filhos, a ideia do seu passado e a ideia do que ele representa, agora, na sua vida profissional.
Era um recomeço familiar para Don, mas um menos emocionalmente isolado do que um divórcio, menos vergonhoso do que uma vida dupla, menos reconfortante do que viagens para Flórida ou altas bebidas.
Era dos atos o mais inesperado e ingênuo.
Agora, estamos em 1966 e esses recomeços estão desabando em uma maravilhosa premiere que retorna Mad Men ao ar em total classe e comando e apreensão. Não existe nada como essa série no ar, tanto em termos de estilo quanto de qualidade, e “A Little Kiss” até força o seu estilo um pouco demais para se enquadrar entre os melhores episódios dela: tem alguns momentos aqui que parecem meio que perdidos, como se houvesse uma falta na conexão vibrante entre os personagens e cenas que define a série. Nada em particular, apenas uma atmosfera geral que parece meio fora do ar. Algo com contos espalhados, conectados em uma duração que não permite o “calor” que meio que faz Mad Men para mim. Mas também há tudo pelo qual essa série é reconhecida e incrível, os motivos pelos quais ela fez tanta falta e fama. Temos uma sequência de festa diferente de tudo nas 52 horas passadas. Temos um episódio com duração extra. Temos personagens que amamos distantes pela duração do episódio, temos personagens odiosos fora por completo. Temos muitas coisas que mudaram e que não parecem Mad Men, mas que refletem o seu senso de mudança como nada, e que são como mais nada na televisão Mad Men pura e em uma dose cavalar para matar a nossa saudade.
Se for uma sobrecarga de informações e sensações, é porque é pra ser. “A Little Kiss” se forma e toma título a partir de todas as coisas que aceitamos como desculpas, mas seguindo o padrão da série, não deixa os seus personagens se perderem somente no que se passa entre quatro paredes, remoerem em conflitos que eles acham muito pessoais, mas que são as coisas mais universais que existem. Ele chega batendo de todos os lados com todas as ideias que pode, dando real noção das mudanças que ocorrem em um espaço de tempo que é único, com fatos sociais que tanto começam quanto terminam o episódio – meio que sacudindo, na cena final, os cinco homens centrais da série para realidades ao redor.
E eles, claro, acham tudo uma grande pegadinha, cada um do seu jeito, cada um com a própria arrogância.
Bert, por exemplo, sabe que ele está por fora de tudo e ama essa sua posição de ficar pelas beiradas, de cutucar o caos, de irritar as pessoas, rir das boas piadas e zoar as ruins, comer qualquer tipo de comida. Para ele, apesar da demissão no ano passado, essas mudanças são inevitáveis – e há um ar resignado, quase sábio no seu personagem, que é simplesmente maravilhoso de assistir através de um ator que parece tão confortável (e volátil o suficiente para não parecer complacente) como o Robert Morse.
Já Pete toma isso como a maior das ofensas, bem na zona do tema das gerações que se encontram e partem nos anos 60. Em um dos seus surtos mais infantis, bate o pé por um escritório maior – e se a série zoaria a sua ambição antes, agora ela parece quase que comiserar com ela. Ter pena de Pete como tem de tão poucos personagens em tão poucos momentos. Ele provavelmente merece o respeito, mas merecimento não tem nada a ver com isso. Ele merece o escritório, mas que alternativa tem a não ser aceitar os restos do de alguém? O seu recomeço como sócio não era uma fuga, tanto quanto era um sonho, e aqui ele se contenta a realidade mais baixa desse sonho. Naquela imagem dele no escritório, temos praticamente o oposto da icônica posição Draper na abertura, e em seu último momento, no trem, uma negação que vem se desenvolvendo há léguas desde que se casou com Trudy e se contentou.
Além disso está Roger – o seu “inimigo” na premiere e metade do que eu espero que seja o início de um delicioso relacionamento antagonista para a temporada. Roger quase que preenche a função de Bert em anos anteriores, mas parece estar com sapatos mais apertados. Brigas com Jane, pessoas que antes eram motivos para risada o irritando, ausência de qualquer poder real nas atividades do dia-a-dia no escritório, e um jeito jocoso que parece mais desesperado e velho, como se estivesse cansado da própria brincadeira. Ele tenta se recompensar por tudo com esse estilo, mas quando até Harry vê que não é real, quando Don o reprime por ele, de nada as piadas valem.
E no momento mais doce do episódio, nós vemos que não precisa ser assim para Roger. Apenas existem muitas situações no caminho entre ele e o resto, muito para que a vida dele ali ou fora do escritório seja… Qualquer coisa. O mesmo com Joan, que passa o episódio todo preocupada em perder o emprego em uma firma que mal funciona sem ela. Ambos se sentem ultrapassados e é esse próprio passado tão “perfeito” que os separa. Eles podem fingir que tudo está bem quando conversam – como ele fingiu ao ter se casado com Jane, como Joan fingiu ao dizer que o filho era do seu marido, como ambos fingiram estar de volta a 1960 quando fizeram esse bebê -, mas eles são as próprias piadas. Roger diz algo nas linhas de “Elas são todas ótimas até quererem alguma coisa” durante o episódio – e é claro que ao falar isso ele se refere a si a próprio na mais triste das maneiras.

O interessante mesmo é como a série permite toda uma dualidade ao abordar coisas assim. Se para Roger e Joan esse desejo é o que os separa, Lane tira um estranho momento de felicidade dele. A única diferença é que a gratificação de Lane para aguentar todas as dores de cabeça da Sterling Cooper Draper Pryce e da sua vida familiar toma uma forma real e prática, um objeto encantado. Dolores não é muito, é só uma voz e uma imagem. Mas se Bert pode ter a sua ideia de importância, se Pete pode ter a sua ideia de escritório, se Roger pode ser a sua ideia de uma era de ouro e Joan a sua de esposa do ano, por que o inglês que segura a empresa não pode ter um pequeno pedacinho de papel, uma pequena lembrança guardada (entre todos os lugares) bem na sua carteira? Não é pedir muito de um cavalheiro.
Mas como o episódio deixa claro, a diferença entre pedir e ter muito é tudo que separa essas pessoas dos seus conceitos de felicidade. Na história mais importante da premiere, nós começamos o que parece ser um triste declínio para o novo casamento Draper – e para Don, qualquer reconciliação em um de seus recomeços, qualquer sacrifício que quebre a sua ilusão de certeza é o começo do seu terror de vago. Dá pra ver a alma sair, porque Megan conhece Don Draper. E ela conhece Dick Whitman.
O que eu começo a achar cada vez mais aqui é que a situação com a série é outra, e que a situação com a paciência e calma de Don no começo da temporada é bem diferente. Ele pode viver em paz com alguém que conheça um lado dele e com alguém que conheça o outro. Ele pode viver em paz com Megan, que conhece ambos. O problema é ele admitir os dois e admitir que, no fundo mesmo, não é nada deles. Afinal de contas, ele é o homem que não comemora aniversários. E ver alguém reconhecendo essa ausência em grande estilo, bem na frente de todas as pessoas das quais ele precisa construir barreiras para operar em vida ou até mesmo impressionar pra manter boas relações de negócios… Esse é o tipo de exposição que o nosso Don não precisa, e o olhar dele ao saber da festa é tudo que a série precisa dizer para deixar claro como isso machuca.
Megan não faz por mal. Ela ama Don com uma leveza que é quase o oposto do temperamento abusivo de Betty, ela se move com uma sensualidade e poder quando sozinha com ele, e com um quê de ingênua pelo escritório, que faz todos caírem aos seus pés, que torna mais fácil Don acreditar que possa viver nessa mentira.
Mas Megan talvez não precise dessa mentira como precisa da ideia que fez de Don. Megan talvez não queira essa mentira tão real, e assim como todos os outros personagens, talvez precise da sua própria Dolores ou do seu próprio escritório ou do seu bebê, os achando em uma vida de casada que parece fora da sua própria era. E a intimidade entre os dois meio que parece destruir qualquer chance dessa mentira funcionar a longo termo, pois sempre existe algo forte separando Don das pessoas que realmente o entendem, das pessoas que ele ama. Se com Peggy é o respeito mútuo e profissional, e se com Anna era a distância natural entre quem ele virou e a distância física, com Megan se torna quase impossível mentir e sustentar alguma coisa, principalmente quando ela parece tão infeliz ao sentir o lado ingrato do marido, percebendo que ele não pode se permitir algo como uma festa de aniversário por não poder se permitir tantas, tantas outras coisas – ou por pelo menos não poder entender o que faz de Don Draper Don Draper.
Assim, eles fazem as pazes com o lado sexual tão forte em ambos, com algo que aí acaba ficando tão superfície e só marca o espaço entre os dois ainda mais. Enquanto de resto, eles apenas mantêm as aparências. Eles entram com toda aquela pose na Sterling Cooper Draper Pryce e Megan logo é afastada para que Don e os seus sócios possam lidar com o problema da vez. Pelas suas roupas, pelo seu jeito, dá para ver que ela resiste bem menos à mudança do que Don. Dá para ver por qual motivo ela não pertence aos grupos e parece nutrir certo desprezo pelas pessoas da firma. E essa, para mim, é a grande questão que a temporada parece colocar em cima da mesa. Até onde ela vai aguentar toda essa ausência do e no marido? Será que ela vai conseguir preenchê-la? Ou será que a maior aposta de Don Draper vai terminar sendo apenas outra folha em branco no lixo?
Ainda temos 11 episódios faltando (a premiere é só um episódio, mas em termos de produção, conta como dois), então fica difícil fazer uma previsão… Mas não estou otimista. Já vi Don tentar e falhar demais para estar. Já vi outros personagens tentarem tanto, com poucos sobrando para contar a história além do seu começo, só para que então eles não sigam em frente, sorrindo seus sorrisos tortos, os homens da Sterling Cooper Draper Pryce – ao lado de um Don que acredita que pode ser como eles, que quer ser como eles mais do que gostaria de admitir. Alguém que aceita pequenas desculpas de beijos como gestos suficientes para encher mundos, que poderia manter isso vivo como algo que o permite fugir do passado e com passado, sem nada vazio dentro, sem nada com o que se envergonhar.
Como eu, Don não faz a mínima ideia do que o resto da temporada guarda. Mas diferente dele, estou morrendo de vontade para descobrir.
Outras observações:
- Como o Bruno Tapajós disse lá pelo Twitter, Mad Men sempre foi tão engraçada assim ou é só impressão?
- Curiosidade: a cena inicial da temporada foi retirada diretamente de uma notícia real do NYT em 1966.
- Com uma subtrama envolvendo troca de escritórios, não poderíamos deixar de ver mais uma vez a arma do Pete. Deveríamos começar um bolão para adivinhar como ela será usada.
- Adoro como a série fez uma gradual transformação com Harry e hoje ele é um babaca de marca maior. As suas reações na festa e ao achar que seria demitido foram impagáveis.
- Peggy não ganha uma história em si nesse episódio, mas é interessante notar como os seus conhecimentos maiores de Don batem com os mais divididos que Megan tem. O fato de que ela estranha a paciência dele enquanto Megan a recebe como um bom sinal diz tudo que se precisa saber sobre o relacionamento das duas e sobre como elas realmente entendem aquele homem. Também não é coincidência que a personagem mais desenvolta nas mudanças do próprio tempo ganha menor tempo de tela em um episódio sobre pessoas que as resistem.