
É triste ver um ciclo chegar ao fim. Seja no final de uma relação, de uma estadia, até mesmo de uma fase. A palavra “final” é sinônimo de que esse ciclo não poderá mais ser vivido e apenas existirá em recordações, seja isto para o bem ou para o mal.
Com séries ocorre de uma forma parecida, o final de uma série quer dizer que para você visitar aquele universo que você gostou a ponto de não abandonar, será apenas para ver aquilo que já ocorreu. É uma estagnação, a série não poderá mais melhorar ou piorar e a única coisa que pode ser feita é revisitá-la.
O objetivo deste Top Maníacos é analisar os dez finais de séries que os autores desse texto acharam mais interessantes e relevantes para a mídia audiovisual.
Esse ranking foi feito em parceria com André Fellipe da Silva e a mascote oficial do Série Maníacos, Paula Martins.
10) The Last One – Friends
As últimas temporadas de Friends estavam longe de representar a melhor fase da série, parecia que o apelo comercial estava se tornando uma armadilha e os roteiristas estavam adiando tramas que os espectadores já sabiam a obviedade do final. Em meio a todos esses problemas, esse series finale épico de Friends se tornou uma surpresa positiva e presença obrigatória em qualquer lista.
Não foi um capítulo engraçado, evidentemente, mas aquele não era o momento para conquistar as pessoas que viam a série de forma descompromissada e às vezes, era o momento de encerrar uma trama que se alongou por dez anos. Como, após nos aproximarmos durante anos dos personagens, não ficarmos com lágrimas nos olhos ao vê-los deixando o apartamento pela última vez para irem tomar um café no Central Perk, o mesmo local em que a série começou? Rima poética linda, para mostrar que as coisas continuam as mesmas, apenas mais fortalecidas, após a jornada de maturidade de dez anos dos nossos amigos.
9) Not Fade Away – Angel
No início, Angel era uma série boba. Alguns casos da semana criativos e a sensação gratificante de ver os personagens de Buffy em um spin-off fazia com que assistíssemos a série e ficássemos satisfeitos mesmo tendo aquela sensação de que faltava algo. Era tudo muito bonito, muito simples e víamos durante quase duas temporadas completas que Angel se contentava com pouco.
Entretanto, Joss Whedon e companhia aos poucos foram colocando tramas cada vez mais apocalípticas e profundas, com conflitos morais que não afetavam apenas o protagonista e a série foi crescendo ao longo das quatro últimas temporadas atingindo o auge no seu último episódio. Não foram apenas as tramas que ficaram mais sombrias, os personagens acompanharam a mudança e o final da série foi o momento aonde Joss apontou o dedo do meio na cara dos executivos da WB falando “Olha a série que vocês cancelaram!”.
Wesley, Gunn, Angel, Lorne, Illirya, Lindsay e Spike não eram amigos. Na realidade, depois de tantas apunhaladas, traições, romances, sequestros de bebês e das mortes de Cordelia e Fred, eles estavam mais próximos de serem inimigos. Entretanto, eles tinham consciência de que possuíam uma coisa em comum: a missão de destruir Wolfram & Hart de dentro para fora. Depois de fingir ter passado para o lado negro, Angel revelou seu plano de atacar os membros do Círculo da Espinha Negra um por um e pediu ajuda aos seus “amigos”, que relutantemente aceitaram e ganharam um dia de folga antes do grand finale.
E esse é o grande trunfo desse episódio, os personagens afastam-se de toda a tensão e vão viver o último dia perfeito. Um dia que reflete perfeitamente o que eram aquelas pessoas quando as conhecemos e paramos para pensar o quanto elas mudaram. Lorne faz aquilo que ele mais ama no mundo, cantar no karaokê. Wesley, mostrando suas raízes como sentinela, cuida da machucada Illyria. Angel resolve visitar seu filho, pois ele é a coisa mais importante para ele. Spike não é Spike, e sim, William, que recita seus poemas lembrando como o personagem evoluiu desde sua primeira aparição em Buffy. E Gunn relembra que as pequenas coisas da vida, como ajudar sua gangue, são as que fazem a diferença.
Quando o dia perfeito chega ao fim, todos se reúnem para a guerra, nada de discursos emocionais sobre amizade e honra, apenas estratégias. A partir daí, o público é bombardeado com inúmeros plotwists que nos deixam aos prantos como crianças. A morte emocional de Wesley aos braços de Illyria, Lindsay sendo assassinado por Lorne e pai e filho lutando juntos mesmo depois de tudo que eles viveram. Uma montagem com uma carga emocional tão forte que só é superada quando olhamos os sobreviventes no beco diante de um exército de demônios (e dragões) e os créditos sobem. A saga do vampiro com alma “acabava” provando que Angel foi muito maior do que um simples spin-off (e com um cliffhanger que faz qualquer um odiar o Joss Whedon).
8 ) Day Break – Battlestar Galactica
Um final do tipo “amem ou odeiem”. Com certeza todos os fãs de BSG gostaram da resolução em termos de ação, onde vimos cenas de tirar o fôlego e a resolução satisfatório para o fim de determinados personagens. Entretanto, muitos podem não ter gostado quando a série focou no fim da jornada, por acharem a resolução preguiçosa ou óbvia, mas que acredito ter sido feita de forma primorosa.
Toda a série martelou na mensagem de que algo que aconteceu uma vez está destinado a acontecer novamente no futuro, essa força de ciclos que regem o universo é um tema recorrente em toda a trama. Desta forma, existiria uma resolução melhor do que a tripulação encerrar na nossa, a qual cada vez mais parece estar em um processo parecido com o de dominação dos Cylons? O que por muito tempo era tido apenas como uma metáfora do roteiro tomou condições reais.
Não consigo imaginar como uma série de procurar por um novo lar poderia acabar melhor. Conseguindo combinar tanto os momentos de ação esperados em uma série do gênero quanto com o final da jornada, evitando justamente cair na armadilha de desenvolver qualquer um desses dois lados da balança em excesso.
7) Summer/Independence Day - The Wonder Years
Algo que faz The Wonder Years ser uma série especial é que ela conseguiu exibir o crescimento de um garoto do subúrbio de uma forma tão natural que chega ser assustador. Com o passar do tempo, as mudanças que Kevin e os outros personagens da série sofrem são tão drásticas e ao mesmo tempo tão normais que acabamos nos conectando com ele de uma forma especial. Nos episódios finais da série, ele grita com o pai, chama Winnie de vagabunda e comete muitas bobagens, mas nós simplesmente não conseguimos desenvolver vontade de dar um soco na cara dele porque quando éramos adolescentes, todos nós fizemos ou pensamos em fazer algo do tipo.
A meticulosidade que a série utilizou para tratar os dramas mais simples da vida de um adolescente sempre foi um destaque dela, mas nesse episódio, Wonder Years superou-se, representando perfeitamente a montanha russa da vida e a nossa dificuldade em aceitar que as coisas nunca saem como nós planejamos. Tudo que ocorre aqui é um retrato disso.
O mundo de Kevin está desabando. Winnie tem que deixa-lo por causa de um trabalho em um hotel, seus amigos decidem partir em uma viagem ao redor dos EUA, o seu emprego o deixa descontente, a interferência de seus pais em sua vida o leva ao limite. Então, Kevin decide sair de casa e ir trabalhar com Winnie no hotel, mas os problemas continuam quando ele descobre que ela está namorando outra pessoa e perde seu carro em um jogo de pôquer.
E como a própria Winnie fala, essas coisas tinham que acontecer, a vida é assim, as pessoas crescem e elas devem enfrentar as consequências de suas decisões, assim como não devem choramingar se algo não vai de acordo com os planos. As coisas mudam e é difícil se habituar.
Wonder Years ousou em seu episódio final. Enquanto tudo apontava para um final feliz para Winnie e Kevin, descobrimos que os dois eventualmente não ficariam juntos, assim como o fato de que o pai de Kevin morreria no futuro. O Series Finale (e a série como um todo) é uma representação pura do que é a vida e por isso merece um lugar na lista.
“Growing up happens in a heartbeat. One day you’re in diapers, the next day you’re gone. But the memories of childhood stay with you for the long haul. I remember a place, a town, a house, like a lot of houses. A yard like a lot of other yards. On a street like a lot of other streets. And the thing is, after all these years, I still look back…with wonder.” – Kevin Arnold
Sim, parem com essas histórias de que o Kevin e a Winnie se pegaram no celeiro. Todos sabem que eles são santos e nada aconteceu.
6) The End - Lost
O conceito de flash sideway foi algo que demorou a vingar. Em boa parte da última temporada, os momentos que tratavam das realidades alternativas comprometiam justamente por apresentar outros personagens, que embora possuíssem o mesmo nome e aparência eram pessoas completamente diferentes daqueles que estávamos acostumados a gostar. Entretanto, é justamente esse recurso que consegue potencializar o series finale.
O que é mais emocionante do que ver no final esse icônicos personagens possuindo uma segunda chance justamente pelo quanto suas vidas estavam intrinsecamente ligadas? Foi uma estratégia para empregar conceitos religiosos, sobretudo espíritas, de uma forma orgânica a todo o caráter científico da série.
Juntando isto a um final com inúmeras rimas visuais e estruturalmente, sobretudo a mais marcante da última cena da série que remete justamente à primeira, temos um finale estruturalmente impecável, estrutura essa que é a principal qualidade de Lost a frente das outras séries de sua época.
Sobre as perguntas não respondidas, isto está longe de ter se configurado um problema. Eu sempre me interessei mais em imaginar respostas do que vê-las em tela e para mim boa parte das falhas da série foi justamente ao tentar dar respostas e não na formulação das perguntas. Se pontos não foram respondidos, não é nada que com a criatividade e inteligência que os fãs de Lost tem não possa ser conjecturado. Afinal, na vida possuímos todas as respostas facilmente?
E vocês, o que acharam? Sua série favorita está aqui ou estão tristes e nos consideram farsantes por termos colocados séries que vocês odeiam? E para a semana que vem, quais os seus palpites para o top 5?