
Quando uma comédia não tem em sua essência o artifício de “fazer rir”, resta a ela ganhar pontos pela eficiência dos seus elementos.
Spoilers Abaixo:
Hung, da HBO, é um exemplo perfeito: totalmente insipiente com suas tramas na primeira temporada, a série passou a investir no delineamento dos seus personagens e todas as situações possíveis que sua sinopse poderia oferecer então toda semana ver um episódio da série é como ver um time de roteiristas tirar leite de pedra (e considerando o excelente começo da terceira temporada, eles estão conseguindo realizar essa façanha com louvor). Para ser sincero, Parks and Recreation não deu motivos para muita risada nesses dois últimos episódios, porém se uma coisa continua intacta no cerne da série é o ótimo uso dos seus elementos (com algumas exceções), e por isso ambos continuaram sendo satisfatórios.
“Meet n Greet” foi um episódio de Halloween que apresentou uma falha estrutural incômoda: sua principal trama não tinha nada a ver com Halloween. Embora Tom seja um personagem interessante e sua trama recorrente (a Entertainment 720) tenha um saldo positivo, a forma que a série usou para dar adeus à empresa e ir um pouco mais fundo nos sentimentos do personagem passou por um caminho torturante. Toda a interação entre Leslie e Tom na reunião com os comerciantes da cidade poderia ter sido utilizada para novas situações (e lembrar que os dois já protagonizaram o maravilhoso “Soulmates” da temporada passada me deu ainda mais expectativa), mas enquanto não sabíamos que o empresário buscava uma última chance para evitar a falência, tivemos que aguentar as mesmas piadas de episódios atrás. E se a resolução da trama foi realmente tocante, ela é a única razão para 100% dos fãs não acharem até hoje o personagem apenas um douchebag irresponsável, um risco que os roteiristas escolheram correr. Boas piadas aqui e ali, mas elas não conseguiram carregar o segmento.
Se afastando um pouco do plot principal, a festa de Halloween de Andy e April, por outro lado, trouxe vários bons momentos e a já esperada grande quantidade de subtramas para que todos os personagens pudessem se acomodar no episódio, e sabendo que esse é um dos desafios mais difíceis para os roteiristas de Parks and Recreation, o resultado foi positivo novamente. April estava fantástica com seus instintos homicidas aflorando (e aqui com um belíssimo trabalho de Aubrey Plaza), Andy (Chuck Liddell) e seu método para fazer Ben dizer o que o incomoda – o incomodando ainda mais, Ron e Ann consertando a casa do casal e Chris mandando um SMS sem olhar para o aparelho. Apesar da festa em si ser o único elemento que une todas essas situações, o esforço para não deixá-las soar deslocadas garantiu que a qualidade do episódio não caísse mesmo com a fraca trama principal, dando o caráter de episódio “normal” para “Meet n Greet”.

Já “End of the World” trouxe de volta uma trama que divide os fãs: o romance de Leslie e Ben. Mesmo que eu nunca tenha enxergado com bons olhos esse rumo para a personagem principal, caso esse amor todo fosse apresentado de uma maneira crível eu aceitaria sem problemas, e de certa forma não foi um estrago para a série enquanto durou, mas quando essa relação amorosa teve um fim ninguém sentiu falta. Voltando com força quando Ben recebe atenção da repórter que nunca aceita as headlines de Leslie para suas manchetes, a trama novamente mostrou uma Leslie insegura, infantil e egoísta, e se levarmos em conta que desde o piloto a série se esforça ao máximo para regrá-la na melhor das condutas, chega a ser frustrante ver suas reações aqui. É uma pena Amy Poehler receber duas péssimas storylines seguidas, pois a atriz continua muito eficiente e precisa ser o centro das atenções do show.
Romances à parte, a distribuição de tramas para os personagens (se a série insiste em fazer isso eu vou continuar apertando essa tecla) foi bem pior nesse episódio. Partindo de um plot atraente (teorias sobre o fim do mundo que assolam a população “preocupada” e acabam ganhando alguma atenção momentânea), tivemos um interessante diálogo sobre religião com o sempre imbatível Ron (“Well, I’m a practicing none of your [Bleep] Business.”), e Tom e Jean-Ralphio se despedindo da Entertainment 720 com uma grande balada de fim de mundo, e Andy completando sua lista de últimos desejos com a mulher. E se algumas inserções na história foram mal-explicadas (como Chris e sua nulidade para o capítulo e Ann em momentos WTF aparecendo do nada – eles precisavam de uma médica lá ou ela foi por vontade própria? – quem vai a um evento assim por vontade própria?????), e outras coisas soaram apenas como furos do roteiro, como uma empresa a beira da falência AINDA com aquele montante de dinheiro e o casal roubando o carro do pai de April sem nenhuma conseqüência, os diálogos continuaram divertindo isoladamente. E novamente a série aposta em um fim tocante, e mesmo que essa estratégia me lembre muito episódios preguiçosos de “The Office”, em “End of the World” funcionou novamente. Outro episódio que pode não ter sido épico como “Ron and Tammys” ou extremamente feliz como “Born and Raised” mas satisfaz os telespectadores de quinta-feira e os fãs de todo o mundo.
Outras observações:
- Leslie: “I know I should be chasing your vote, but I stand behind my decision to avoid salad and other disgusting things, and I think I have a lot of support in the community for that.” Adoro a forma que Pawnee trata os alimentos saudáveis, até mesmo Leslie que é super centrada.
- Ron se satisfazendo emocionalmente com o conserto da pia foi ao mesmo tempo genial e perturbador.
- “No thinking, just stupid!”
- Chris: “So the problem with reincarnation is that you could be reborn as a pretzel.”
- Todos os desejos de Andy foram muito engraçados, mas o melhor foi o teatro com o agente Bert Macklin de volta.
- Oren aparecendo no quinto episódio e Natalie aparecendo no sexto: <3333333