
“Russos. Eles são os piores, certo?”
Spoilers Abaixo:
Dramas históricos sempre me chamaram atenção, especialmente aqueles que narram fatos ocorridos nos entornos do breve século XX. Exatamente aí se encaixa The Americans, novo drama do FX ambientado em plena Guerra Fria. Neste sentido, não poderia estar mais ansioso. Entretanto, me preocupava com a possiblidade de a série ser apenas mais um mastro em que se ergue a bandeira americana, desbancando para o ufanismo e exaltação desmedida aos valores estadunidenses – como ocorreu com Pan Am, por exemplo. Felizmente, meu receio mostrou-se infundado e, baseando-se no piloto, estamos diante de uma abordagem nova na televisão americana.
The Americans conta a história de Phillip Jennings (Matthew Rhys, Brothers and Sisters) e Elizabeth Jennings (Keri Russel, Felicity), um casal de espiões russos treinados pela KGB para serem verdadeiros americanos: falam, andam, trabalham, se vestem, consomem e se comportam como legítimos ianques – até sabem de cor o hino dos Estados Unidos. São os chamados sleeper agents: espiões colocados no país alvo não para agirem de imediato, mas para “dormir” em solo inimigo, coletando informações e orquestrando ações na surdina. E o casal não poderia ser mais vanilla: casa no subúrbio, dois filhos de propaganda de margarina e um Oldsmobile ‘77 dourado na garagem.
Isso mesmo: os protagonistas são russos. Geralmente retratados como vilões caricatas e rasos nas produções de hollywoodianas, em The Americans “o lado de lá” é mais aprofundado. Mais do que mostrar a tensão da Guerra Fria, a série se preocupa mostrar os conflitos vividos por esses agentes – questionamentos que não vemos todo dia em um seriado americano. Elizabeth é leal à União Soviética, e tem o paradoxal objetivo de criar seus dois filhos com os valores de sua terra natal, mas sem revelá-los sua verdadeira identidade. Phillip, por sua vez, já se mostra abalado – principalmente quando aflora uma situação de perigo iminente em ser descoberto pelos Estados Unidos – pensando até em se entregar, para tentar proteger a família (mas, se isso fizer, terá que viver eternamente fugindo da KGB). E é justamente por essa perspectiva mais aprofundada (incluindo flashbacks e cenas do cotidiano familiar) que o espectador de The Americans se vê criando uma simpatia com o casal protagonista.
Mas nem só de dilemas pessoais vive The Americans. A espionagem em si é muito bem abordada. Vimos os bastidores da política externa do governo Reagan, que autorizara a CIA a usar “todos os métodos possíveis” para neutralizar os soviéticos. Mais uma vez, vale notar a ousadia da série, ao criticar um ex-presidente (coisa difícil de se ver nos EUA), mesmo que pela voz de um oficial da KGB – que fala de Reagan como um “homem louco”. Ainda, aborda o interessantíssimo mundo da contra-inteligência – potencial não falta.
No aspecto técnico, a série fez o seu dever de casa, em geral. A ambientação dos início dos anos 80 foi muito bem feita, com cenários realistas e props adequadas (observe o retroprojetor ao fundo da cena da CIA e as máquinas de escrever – sem contar as calças jeans subindo pela cintura). A fotografia pastel e a exaltação do som ambiente ajudam a criar a sensação de tensão reinante do episódio, assim como a direção cheia de close-ups e planos-detalhe. A trilha sonora foi muito bem escolhida a dedo: todas as músicas tocadas estavam nos tops das rádios em 1981, como Tusk (de Fleetwood Mac), Roller (de April Wine), In The Air Tonight (de Phill Collins) e Queen of Hearts (de Juice Newton).
Entretanto, nem tudo são flores: a direção de arte parece ter relaxado nos flashbacks, não logrando êxito em rejuvenescer os personagens em 15, 20 anos. Mas o que mais me incomodou foram as cenas de luta, que pareciam inverossímeis, com golpes plásticos e efeitos de som excessivos. Keri Russel também parece ter faltado às aulas de artes marciais e seus golpes não convenceram muito.
Mas nada disso ameaça a qualidade do episódio, que, em mais de 60 minutos de duração, mantém o espectador atento em todos os momentos. Mesmo sem pressa de contar as histórias, o ritmo é acertado, com diálogos rápidos quando devem ser e tensão saindo pelas beiradas. Com certeza um dos melhores pilotos da temporada, The Americans é um prato cheio para quem gosta de História, espionagem e busca uma abordagem diferente do arroz com feijão de sempre.
Observações:
- Apesar de toda a ousadia, a série ainda é americana. E lá estão as botas de cowboy, a maravilha do ar-condicionado e as chacotas com os carrinhos japoneses.
- Ao fundo, a televisão ligada no quarto de Phillip e Elizabeth fala sobre a liberação de 52 reféns do Irã – era o fim da Crise dos Reféns do Irã, episódio histórico contado no filme Argo, um dos favoritos ao Oscar de melhor filme. Para quem não assistiu: recomendo.
- The Americans estreou com uma ótima audiência para o FX, contabilizando 4,7 milhões de espectadores (lembre-se que o canal é fechado) e 2.5 na demo, perdendo, em relação ao canal, apenas para a première de Sons of Anarchy. Ou seja, só falta o anúncio oficial da renovação.
Ficha técnica: a série foi criada por Joseph Weisberg (ex-funcionário da CIA e roteirista de Damages), também responsável pelo roteiro, ao lado de Joel Fields (Dirt). O piloto foi (muito bem) dirigido por Adam Ark (Sons of Anarchy) e a série é produzida por Justin Falvey (Smash).