
A versão contemporânea de Sherlock Holmes produzida pela BBC carrega o pesado fardo de fazer jus ao genial detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle e ao mesmo tempo introduzir para novos fãs o pai da ciência da dedução. E será que isso é possível?
Elementar meu caro Watson.
Spoilers Abaixo:
Vamos começar com algumas informações importantes: Sherlock é uma minissérie de três partes. Cada parte terá 90min, ou seja, serão três telefilmes. Muitos dos elementos originais de grande importância foram mantidos na saga do Sherlock Holmes do século XXI (nomes, endereços, vícios). Steven Moffat (Doctor Who) é uma das mentes pro trás dessa produção. Particularmente gosto muito de Sherlock Holmes e já li todos os livros publicados sobre o detetive.
Logo que vi o título da primeira parte dessa minissérie, um sorriso estampou meu rosto rosado. “A Study in Pink” era uma óbvia homenagem ao “Um Estudo Em Vermelho” o livro que introduziu Sherlock Holmes ao mundo e o meu favorito de toda coleção – na verdade fico dividido entre “Um Estudo Em Vermelho” e “O Cão dos Baskerville”.
Em Londres, uma estranha sequência de suicídios inexplicáveis deixa a polícia local sem pistas para desvendar esse bizarro mistério. O último recurso do Inspetor Lestrade é consultar o ainda mais bizarro, Sherlock Holmes.
Antes de sermos apresentados ao brilhante detetive, ficamos conhecendo o Dr. Watson (Martin Freeman), um veterano da guerra do Afeganistão, que segundo sua psiquiatra, sofre de trauma pós-guerra e por isso precisa usar uma bengala e tem a mão tremula. Logo que vi essa fragilidade de Watson me desanimei um pouco com o personagem, mas o que eu não esperava, era descobrir que o nosso bom doutor era na verdade um viciado em adrenalina e estava sofrendo de tédio depois do fim da guerra. Nada como conhecer Sherlock Holmes para ter uma injeção de adrenalina na vida.
O encontro de Watson com Holmes é ao mesmo tempo uma coincidência do destino e orgânico. Eles são apresentados por um conhecido em comum para dividirem um apartamento em Londres – sim, aquele que fica no 221B da Baker Street. A princípio, o incômodo do Doutor pela arrogância do detetive é palpável. Como pode uma pessoa que você acabou de conhecer saber tanto ao seu respeito? Mas o que incomodava, em pouco tempo se transformou em admiração, afinal, somente um idiota para não concordar com o brilhantismo de Sherlock Holmes.
Benedict Cumberbatch cumpre muito bem a tarefa de transpor o arrogante detetive para os dias de hoje. O Sherlock Holmes da minha imaginação seria um pouco mais velho, mas não tão sarcástico quanto à versão de Guy Ritchie com Robert Downey Jr. para os cinemas. Diria que Cumberbatch é um ótimo meio termo. Ele consegue dominar o texto rápido e ágil de Moffat e ao mesmo tempo transmite com facilidade a maldição de possuir um cérebro impar e uma lógica inumana. O poder mental de Holmes e tão assustador que às vezes até parece um superpoder. Na cena em que ele mentaliza o possível trajeto do taxi que Watson e ele estavam prestes a perseguir a pé, isso fica evidente. Outras ótimas cenas em que o poder de observação de Holmes é evidenciado: no taxi com Watson explicando como ele deduziu tudo sobre seu novo parceiro no primeiro encontro dos dois e a analise do corpo da mulher de rosa com os letreiros representando seus pensamentos e deduções.
Uma boa sacada do roteiro foi enganar os fãs que já conhecem Sherlock Holmes. Quando o homem do guarda chuva se apresenta para Watson como o arquiinimigo do detetive, não tenho dúvida que muitos pensaram, “Olá Professor Moriarty”. Mal sabíamos que até então, Holmes nem sabia sobre a existência de Moriarty. Só no final do episódio quando ele tortura o serial killer do veneno que ele ouve pela primeira vez esse nome – pelo menos foi isso que ele deu a entender. Fiquei muito feliz em saber que o homem do guarda chuva era na verdade Mycroft, o irmão mais velho de Sherlock. Nos livros Mycroft é ainda mais brilhante que seu irmão, mas lhe falta energia e ambição. Porém, na série, o big brother esbanja energia e aparentemente vai atuar como se fosse um protetor do nosso detetive.
Observações finais:
- Será que Watson vai conseguir ser mais interessante para a assistente de Mycroft do que aquele celular?
- Sensacional o Sherlock expondo que o CSI mala estava tendo um caso com a sargento só pelo olfato e pelos joelhinhos raspados da moça.
- Espero que o CSI mala apareça em todos os episódios. As tiradas que ele tomou de Holmes foram ótimas.
- Não confunda psicopata com sociopata.
- Impressão minha ou eles questionaram a sexualidade de Sherlock? Seria um toque bem moderno mesmo.
- Legal que por enquanto, Watson é tão útil quanto uma caveira.
- Não pense muito alto que isso incomoda Holmes.
- Não encare as costas que isso incomoda Holmes.
- Nos livros Sherlock Holmes ocasionalmente gostava de injetar drogas. Será que aqueles adesivos de nicotina que ele usa nos braços estão lá para esconder as marcas de agulha?