
O ano não poderia ter começado melhor.
Spoilers Abaixo:
Parece que foi em outra vida que assisti aos três brilhantes episódios da 1ª temporada de Sherlock. Meses se passaram desde que Holmes, Watson e Moriarty se encontravam em um impasse a beira da piscina onde o pequeno Carl Powers foi assassino. Para quem esperava um episódio centrado em Moriarty, “A Scandal in Belgravia” pode ter sido um banho de água fria, mas para quem esperava um episódio brilhante e divertido, a decepção foi zero.
Assistir a um episódio escrito por Steven Moffat é como ouvir uma música dos Beatles: é impossível de não reconhecer. Com um texto bem humorado, profundo e cheio de reviravoltas, a 2ª temporada de Sherlock começa apresentado um dos poucos personagens da saga original que pode ser considerado um páreo intelectual para Holmes: Irene Adler. Irene não é apenas uma mulher, ela é A mulher. Assim como em “Um Escândalo na Boêmia” de Arthur Conan Doyle, Irene “conquista” Holmes por sua genialidade fria e calculista, que obviamente sempre é bem acompanhada de uma bela dose de sex appeal. A expressão de Holmes ao ver Irene nua foi impagável e melhor ainda foi o raro momento de vulnerabilidade do detetive, que não conseguia fazer nenhuma leitura sobre a personalidade daquela mulher. Aliás, a escolha de elenco para Sherlock está de tirar o chapéu.
Esse foi um episódio que focou nos sentimentos e na humanização de Holmes. A lógica crua de Mycroft o impede de entender como as pessoas conseguem se importar com outras pessoas, e ele até acredita que Sherlock compartilha da mesma opinião, afinal ficou provado que o amor é uma desvantagem no jogo de mentiras, mas mesmo assim, esse episódio deixou claro que existem pessoas no círculo de Sherlock que ele realmente se importa. Pergunte, por exemplo ao agente americano que voou pela janela depois de agredir a Sra. Hudson ou a Molly que recebeu um raro pedido de desculpas de Sherlock depois de tê-la humilhado sem querer na festa de natal. Sem falar obviamente em Watson, Irene e o próprio Mycroft.
A forma como o caso principal do episódio teve o Palácio de Buckingham como estopim, foi algo coerente com notoriedade que Holmes estava recebendo devido ao sucesso do blog de Watson. Usar esse tipo de linguagem contemporânea na narrativa é muito bom para ajudar o público mais jovem a contextualizar com a série que utiliza uma obra literária com mais de 100 anos como base. Sem falar que ver Sherlock em uma toga feita de lençol em pleno coração da monarquia britânica foi impagável.
Toda a teia de mentiras e manipulações que envolveram a busca pelo celular de Irene pode ser considerado o prato principal desse episódio. Cheia de complexidade e envolvendo os governos americanos e britânicos, um acidente de avião falso e até mesmo o próprio Moriarty, essa história foi tão completa e bem desenvolvida, que me fez considerar esse o melhor episódio nessa curta jornada até agora.
Foi muito interessante como o roteiro continuou explorando a sexualidade de Sherlock. Se na temporada passada ficaram dúvidas sobre a preferencia sexual do detetive, esse episódio deixou claro que Holmes é um virgem de 30 anos e isso faz muito sentido se levarmos em conta sua inaptidão social e seu jeito frio e preciso. Quem sabe essa lacuna deixada pela autonegação de prazer carnal seja uma forma de explorar o vício por drogas que foi muito citado nos livros.
A qualidade técnica da série continua fantástica e todos os elementos usados pela narrativa só acrescentam na experiência que é assistir Sherlock. Seja pelos textos na tela ou pela perspectiva da mente de Holmes na hora de desvendar algum mistério (eu estava ficando angustiado que ele não contava nunca como aquele cara tinha morrido no meio do nada depois que o escapamento do carro explodiu).
Assim como a temporada passada, esse 2ª ano será preenchido por apenas 3 episódios. Resta torcer por um hiato menor, já que a série está fazendo bastante audiência no Reino Unido.
PS – Muito legal a referencia ao clássico chapéu de Sherlock Holmes que foi usado para ele se esconder dos fotógrafos.