
“O homem não é nada, enquanto não fizer de si alguma coisa.” Já dizia Sartre. A adolescência é uma fase conturbada. É um período de muitas novidades, descobertas, inseguranças e, principalmente, de uma vontade incontrolável de viver… De viver como se não houvesse amanhã! É o momento em que o indivíduo começa a projetar o seu futuro. Um futuro que muitas vezes é desfocado, escuro, desconhecido. Porém, cheio de possibilidades. Afinal, é neste momento em que se conquista a tal liberdade. Liberdade esta que foi grande objeto de estudo do filósofo Sartre, citado neste episódio e cujo pensamento permeou todo o plot de Franky.
Spoilers Abaixo:
Essa profundidade na abordagem é o que diferencia Skins de qualquer outro seriado dito teen, se é que podemos enquadrar Skins nesta categoria. No entanto, esta reflexão mais profunda só é possível quando feita sem falso moralismo, quando não se esta sob o julgamento implacável da censura. Afinal, a realidade está ali e ela precisa ser analisada, discutida. Não dá para tampar o sol com a peneira, nem usar meias palavras. Se for assim, a discussão será sempre superficial e insuficiente. Skins voltou botando o dedo na ferida sem dó… De novo!
Confesso, foi estranho. No princípio era Tonny, Sid e Maxxie. Depois, veio Cook, Freddie e JJ. A terceira geração, no entanto, começou com uma protagonista e um núcleo feminino. Tá, demorei pra ter certeza de que se tratava mesmo de uma mulher. No começo a dúvida ficou no ar: é um garoto gay, ou uma garota lésbica? Nenhum dos dois. Skins nunca foi uma série óbvia, não seria diferente agora. Franky é uma garota heterossexual, diferente, com um estilo bem peculiar. Acredito que ela seja hétero porque, no meu ponto de vista, pintou um clima entre ela e aquele garoto misterioso. Já Grace parece que gostou até demais de Franky. Deve ser a personagem lésbica desta geração. Ou não, em Skins tudo é muito imprevisível.
Outro diferencial desta turma é que eles não são amigos. Nas primeiras temporadas os personagens tinham vínculos muito fortes e eram bem unidos. Desta vez, acredito que teremos dois grupos: os populares/normais Vs. os losers/diferentes. Se fosse uma série americana, esse seria o palco ideal para aquele monte de clichê. Mas aqui, o contexto é totalmente outro. Sabemos que Skins não fica no discurso raso. E tivemos esta confirmação neste episódio de estreia, como eu citei na abertura desta review.
O professor pede para que os alunos respondam a seguinte pergunta: “Escolha define identidade?”. Ok, clichê muito usado por aí. Mas, ao invés de citações em off a lá One Tree Hill ou monólogos sonolentos repletos de frases prontas, tivemos uma resposta confusa da personagem em foco. Pergunto: uma citação poética em off fez falta? Não. Todo o conflito da personagem foi ilustrado com imagens, toda a sua história, a sua confusão, o seu drama estava perfeitamente claro, não precisava ser verbalizado ou transformado em poema. Embora a resposta dela tenha sido totalmente confusa, para nós que sabíamos de toda a situação, o discurso foi totalmente coerente.
O professor ainda cita Sartre para lembrar a angústia do ser livre. Segundo o filósofo o Homem não é nada, enquanto não fizer de si alguma coisa. É o próprio homem quem constrói o seu caminho. O homem é livre. E esta obrigação de ser livre é o que gera a angústia. Esse excesso de poder sobre si mesmo gera medo, pois escolher por uma coisa significa dizer não a todas as outras opções e o homem não quer esta responsabilidade sobre si mesmo. E mesmo que esta pessoa decida deixar sua vida fluir, não tomando posse do seu destino, a escolha também já foi feita, mesmo que tenha sido a escolha de se abster de escolher. Mas retomando a pergunta: ‘Escolha define identidade?’. Franky não quer ser uma Barbie anoréxica, ela mantém seu visual andrógeno e queima o vestido que ganhou de presente. Constrói, assim, a persona que assumirá perante o mundo. Começa ali a construir o seu futuro. Aliás, vale dizer, que Franky é uma tremenda artista. Fazer um Stop Motion bacanudo daquele não é fácil.
Mais uma vez, os adultos na série são retratados de uma maneira bem específica, isto é, de forma caricata. Já comentei isto em outro texto, mas vale repetir: acredito que esta representação dos adultos seja totalmente intencional, numa maneira de criar um contraste entre juventude e vida adulta. Afinal, a série é sobre a complexidade da juventude, os adultos são apenas adereços. Mas neste episódio, os pais ajudaram a aumentar a polêmica. Afinal, um casal gay adotando uma filha é algo para escandalizar qualquer avó telespectadora de uma novela da Globo.
Pra concluir, Skins voltou sendo o bom e velho Skins. Trilha sonora bacana, elenco e direção em perfeita sintonia e todo aquele charme britânico que nós adoramos ver representado na tela… Tudo isto esta de volta! E o melhor, sem censura, sem medo de falar o que precisa ser dito, de refletir e retratar tudo aquilo que podemos ver na nossa frente, no mundo real.
Ps: Na introdução do episódio, Franky se encara no espelho e logo depois cobre o mesmo com um pano. Na imagem de capa desta review, ela se encara novamente no espelho (mais pro fim do episódio) e decidida resolve seguir em frente sem cobri-lo novamente.