
Porque precisamos de Terra Nova na nossa programação?
Spoilers Abaixo:
É complicado falar de relevância quando você está no terreno da ficção e da fantasia. Ao contrário do que dizem os opositores do gênero, a relevância aqui não diz respeito à proximidade com a realidade (argumento principal de todos aqueles que assistem coisas que julgam “relevantes”), mas sim ao que aquela obra nos oferece de novo dentro desse campo. Por mais que Harry Potter se passe num universo particular, sua relevância reside na competência de JK Rowling como escritora, algo que transformou a saga de Potter num exemplo de ousadia e maturidade que pouco se vê no mercado. A série A Torre Negra é uma salada de referências próprias e alheias, mas Stephen King escreveu uma história totalmente relevante do ponto de vista épico. Quem consegue unir conceitos fantásticos com pura teoria quântica? O pessoal que escreve Fringe também consegue, e dentro da televisão, são relevantes por causa disso. Até a série Crepúsculo tem sua relevância, já que uma história sobre vampiros que quase não tem sangue, nem presas, nem queimaduras pela ação do sol e nem ambiguidade psicológica, mas mesmo assim atrai tantos leitores, merece ser considerada relevante.
Em Terra Nova temos uma situação estranha. Temos o nome de Spielberg, e temos dinossauros. A associação com Jurassic Park é imediata. Temos o nome de Jon Cassar (24 horas) envolvido na produção executiva (o que sempre se reflete nos roteiros) e isso imediatamente nos sugere um investimento pesado em ação. Não que Jurassic Park não tivesse ação, mas a ação lá era menos bélica e se baseava mais em engenhosidade. No primeiro episódio de Terra Nova já temos tiros, explosões, uma representação de Jack Bauer, um vilão em potencial e estados definidos e paralelos dentro da sociedade do lugar.
Nos primeiro quinze minutos desse início, já conhecemos o temperamento forte do policial Jim Shannon. Como é bem característico desse tipo de personagem, Jim é um defensor voraz do seio familiar. No ano de 2149, nenhuma família pode ter mais de quatro membros e o núcleo de Jim tem. Preso por violar essa regra, ele passa dois anos na cadeia até que a esposa é recrutada para “viajar” para Terra Nova, uma colônia de exploração estabelecida na era pré-histórica depois que cientistas conseguiram manipular uma fenda no espaço/tempo. Mas Jim não passa nem dois minutos vivendo a agonia da cadeia e sua fuga de uma prisão de segurança máxima no ano de 2149 nem é mostrada. Com pressa, os roteiristas transportam a família fugitiva imediatamente para Terra Nova.
Não se tem muito o que dizer até o momento. Os conflitos da família Shannon são os mais óbvios possíveis. A menininha não conhece o pai direito, mas se entende com ele na hora. A filha mais velha é a inteligente/pouco atraente. O filho – o único que puxou a pele branca e os olhos azuis do pai – tem rancores contra ele por conta da prisão e consequente ausência paterna. Tudo tiradinho ali da cartilha dos conflitos familiares de uma família fugitiva. E o filho nem chega a sofrer muito pela namorada deixada pra trás. O roteiro lhe dá de presente logo de cara uma pretendente belíssima que ainda tem aquela natureza rebelde irresistível. Ah, e a filha inteligente/pouco atraente também já tem seu pretendente. Jim, que era policial, mas foi obrigado a trabalhar com agricultura, não passa nem dez minutos nessa função. Logo arrumam um jeito dele voltar a dar uns tiros e quebrar uns pescoços. Enfim, tudo arrumadinho, do jeito certinho, mas com zero surpresa.
A trama também sofre da mesma “síndrome da cartilha dramatúrgica”. Filho com problemas com o pai, filho foge para a área perigosa da colônia, pai vai salvar o filho, filho começa a admirar o pai. Tudo prontinho e arrumadinho. Os dinossauros mastigam um ou outro, mas não engolem ninguém. Depois de um pouco de sangue, estão todos salvos no solo de Terra Nova.
Fica o mistério que envolve o filho deTaylor, mas imaginar que o mistério teria a ver com a verdadeira função do lugar, não seria também tão difícil de concluir. Aí, se juntamos todas essas informações ao fato de que nenhum dos personagens oferece nada de inovador ao programa – estão todos dentro do arquétipo esperado deles – e que os efeitos apesar de bons estão longe da organicidade vista em Jurassic Park (mesmo Jurassic Park sendo prole dos anos 90), nos perguntamos sinceramente: Porque Terra Nova merece uma chance na nossa programação?
Depois do fracasso e da estupidez vista em Falling Skies, eu estou muito desconfiado de “grandes e milionárias séries apoiadas em nomes de grandes diretores”. Efeitos visuais não salvam nenhuma trama da mesmice. E o que Terra Nova parece nos oferecer é só o triste enfadonho “mais do mesmo”.
Garoto Enxaqueca Um: Já repararam que quando os diretores querem fazer um plano aberto da cidade fictícia que criaram, eles sempre colocam cachoeiras e pássaros voando no chroma key?
Garoto Enxaqueca Dois: E o Obama nas notas do dinheiro do futuro? Dinheiro de papel no futuro? Fiquei desapontado.
Garoto Enxaqueca Três: O quanto a perna de alguém pode aguentar ao ser literalmente mastigada por um dinossauro maior que um urso? Podiam ter pelo menos amputado.
Garoto Enxaqueca Quatro: A filha sabe-tudo do Jim é uma mala sem rodinhas! Tem sempre que ter um personagem sabe-tudo pra ficar dando o serviço científico pra gente? Uma legenda explicativa seria mais sutil.