
Mais uma “nova Lost”. Mais um piloto impecável. Mais uma grande interrogação. Será que The Event consegue emplacar? Se conseguir manter o nível desse episódio o sucesso estará garantido.
Spoilers Abaixo:
Quando o fim de Lost foi anunciado, a procura por uma série que a substituísse era inevitável. Logo de cara, a ABC anunciou FlashForward e a vendeu prometendo exatamente ocupar o lugar da ficção de maior sucesso dos últimos tempos. Após um excepcional piloto, a série caiu praticamente em queda livre, e mesmo tendo se recuperado um pouco depois, não resistiu ao cancelamento. Enquanto isso, V também chegou com um grande alarde, mas também não conseguiu o sucesso desejado, muito embora tenha sido renovada. Até a minissérie Persons Unknown chegou a ser comparada com Lost. Agora, a NBC vem com The Event, que, apesar das qualidades apresentadas no piloto, tem que ser vista com um pé bem atrás.
Basicamente a história se foca em um grupo que parece ser responsável pelo “Evento” e em alguns personagens que por algum motivo são afetados pelo mesmo. Sem explicar praticamente nada nesse piloto e levantando muito mais perguntas do que trazendo respostas, o roteiro mostra o desaparecimento da namorada de Sean, Leila, e como isso o afeta envolvendo-o num atentado terrorista dentro de um avião pilotado pelo pai da garota, Mike, que também foi manipulado por pessoas ainda desconhecidas. O avião vai em direção à casa de Elias Martinez, presidente dos Estados Unidos, que recentemente descobriu a existência de uma prisão diretamente relacionada com o “Evento”.
Investindo em uma narrativa segmentada e não-linear, o episódio não perde a agilidade ao se utilizar de inúmeros flashbacks. Pelo contrário, o espectador intriga-se com a maneira como os fatos são apresentado, como um quebra-cabeças. O uso de recursos narrativos não-lineares é muito perigoso, uma vez que se mal executado pode prejudicar imensamente o andamento da história, o que não acontece aqui, mostrando o cuidado no desenvolvimento do roteiro. Não sei se a tônica de todos os episódios será essa. Sinceramente espero que não, pois a insistência em determinado recurso pode atrapalhar o desenvolvimento da trama, mas seria interessante que isso fosse mantido de maneira inteligente e não exagerada.
Como o próprio episódio se divide em cinco segmentos, o de Sean, o de Mike e o de Martinez, além de um segmento inicial e um final, vou separar minha análise em cinco partes. Começando evidentemente pela sequência inicial, em que mergulhamos já na parte final da história, onde conhecemos Sean, que parece perdido e saca uma arma dentro do avião. É aí a primeira pegadinha do roteiro, que nos faz acreditar que ele é o terrorista mencionado por Simon, um agente que tenta desesperadamente alcançar o avião antes que esse decole. Nesse momento do episódio tudo acontece extremamente rápido, e vários buracos são abertos, o que poderia nos deixar perdidos, mas a escolha das informações a serem passadas naquele momento proporciona que entendamos o que se passa mesmo com as várias lacunas. Além disso, há o interesse em saber como as histórias se inteligarão, afinal é bem óbvio que isso ocorrerá. Somos apresentados a todos os personagens nesse momento, ainda que sem o devido desenvolvimento.
Em seguida a essa introdução, vemos a história de Sean Walker, que viaja num cruzeiro com a namorada e pretende pedi-la em casamento, mas é impedido por um outro casal, já que a garota, Vicky, está se afogando e Sean mergulha para salvá-la. Os dois casais festejam bastante juntos e quando voltam para o navio estão consideravelmente bêbados. No dia seguinte, graças à ressaca, Leila não sai com eles e somente Sean e Vicky vão ao passeio de bote. Na volta, a garota não só havia sumido como não há registro de Sean ou Leila no navio. Não é muito difícil imaginar que Vicky e seu namorado estão envolvidos no sumiço da loira, muito embora esse tipo de série adore pregar peças no espectador. Nesse segmento também temos um ritmo bem mais lento que no anterior, buscando desenvolver seu protagonista (acho que será ele o protagonista, já que foi o único que deve algum desenvolvimento apropriado) e sua relação com a namorada. Evidentemente várias lacunas foram deixadas, e espero que sejam preenchidas com o tempo. Mesmo assim, o mistério em torno do sumiço de Leila e do pedido feito a Sean por alguém desconhecido, além de a própria “missão” de Sean ter ficado no ar torna a expectativa pelos próximos acontecimentos grande. Imagino que ele deva ter negado o que lhe foi oferecido, o que fica mais claro quando falamos de Mike.
Em um ritmo também lento, temos a apresentação do presidente David Palmer Elias Martinez, o primeiro mandatário a ficar sabendo da existência da prisão no Alasca, aparentemente o coração do “Evento”. Nada de muito interessante acontece nessa história, apenas um clichê do presidente que quer fazer o correto contra os interesses da CIA e de membros importantes do governo. Mesmo assim, é importante saber quais são as intenções de Sophia nessa história. No começo do episódio ela parecia contra a ideia de Simon de contar ao presidente sobre a existência desse esquema (não sei se posso chamá-lo assim). Mas depois parece extremamente confortável na presença de Martinez. Entendo que algo tenha acontecido nesse meio tempo, algo decisivo para a tentativa de ataque terrorista.
Mais interessante que o anterior, o segmento de Michael Buchanan esclarece algumas coisas do segmento de Sean e introduz bem o núcleo familiar da série. Aliás, o roteiro deixa no ar quem morreu na casa dele. Tudo leva a crer que foi sua esposa, mas o fato de a câmera mostrar apenas a mão de uma mulher ensanguentada deixa tudo em aberto. Além disso, é extremamente inteligente o fato de nem nos importarmos com quem é o piloto do avião por mais da metade do episódio, para depois descobrirmos se tratar de um personagem chave, e interligar todas as histórias, além de deixar claro que Sean está tentando impedir alguma coisa. Mas o quê? Duas pessoas foram sequestradas, Mike aceitou o que quer que tenham pedido, mas Sean ainda representa uma incógnita. Um piloto interessante sabe levantar grandes questões de maneira competente, e é isso que é feito aqui. Esse segmento serviu para levantar algumas questões, sendo uma ponte para o segmento final.
Nos minutos finais o que temos é praticamente a interligação de todos os acontecimentos, o que acontece de maneira sutil, colocando as peças em seu devido lugar sem que soe invasivo para o espectador. Até mesmo a repetição de algumas situações não incomoda. Pelo contrário, mostra o cuidado na montagem do episódio. E quando parecia que tudo fazia sentido, eis que o avião, vindo em direção à casa do presidente, some em pleno ar. E novamente surge uma interrogação. Sophia profere a frase “They saved us”. Quem salvou? Não eram “eles” que estavam atacando? Por que isso aconteceu? Eis que ela mesma diz a última frase do episódio, que dá nome ao mesmo: “I haven’t told you everything”. Fiquei com a sensação de que ela não disse essas palavras para o presidente, e sim para o próprio espectador, quase que dizendo que ainda tem muita coisa pra rolar.
Mostrando um episódio praticamente sem defeitos, The Event se exibe ao público como uma grande promessa. Nova Lost? Acho que esse tipo de comparação não deveria existir, muito embora eu saiba que é isso que vai acontecer. A série tem tudo pra ter brilho próprio. É só não cair nos mesmos erros que outras séries. Não é incomum vermos ótimos pilotos serem estragados com péssimos episódios seguintes. Por isso é bom ainda não se empolgar.