
“We’ll go driving in that pool
It’s who you know that gets you through
The gates of the Playboy Mansion”
U2
Spoilers Abaixo:
A existência de The Sopranos dentro da história da televisão americana provocou uma série de reações que transcenderam a simples contemplação. Ao mesmo tempo em que provocou e instigou os espectadores, a série também estabeleceu uma espécie de “controle de qualidade”, onde o roteiro e a direção compartilhavam uma unanimidade crítica, que até então nenhuma outra tinha conseguido alcançar. Com as produções de Aaron Sorkin costuma ser assim também, porém ele não sofre tantas replicações como com a obra de David Chase. O maior sucesso dramático da televisão atual, Mad Men, criada por Matthew Weiner, é o maior exemplo do que acabo de dizer. É o maior exemplo dessa carpintaria textual tão específica. E não por coincidência, já que Weiner também foi roteirista de Sopranos. Essas métricas que definem um estilo também alcançam a direção e talvez por isso a escolha dos produtores de The Playboy Club para a direção do primeiro episódio – Alan Taylor, que também incorporava a equipe de diretores de Sopranos – possa ser explicada como nada mais que uma busca pela aprovação, muito mais da crítica que do público.
Uma boa abertura apresenta o tal clube do título. Um daqueles lugares esfumaçados onde os homens bebem e fumam à própria superioridade. E que tem circulando por todos os lados, as tais “coelhinhas” recrutadas para trabalhar no clube e viver na mansão da Playboy.
Como era de se esperar uma das coelhinhas é o centro de tudo. A sonhadora Maureen é apresentada na história recheada de clichês. O texto, hora esperto e hora deslocado de sua pretensiosa direção, não se esforça tanto para parecer natural, e com conflitos tão próximos da obviedade, peca por não fugir do lugar comum. Maureen logo conhece o garanhão Nick, vivido por um sempre canastrão Eddie Cibrian (que era o irresponsável adorável de Third Watch) e desse encontro não poderia se esperar outra coisa senão uma conexão imediata que desestrutura o mundo dos dois do jeito menos surpreendente do mundo. Afinal de contas, esperar que Nick fosse o grande objeto de desejo de uma potencial vilã e que ela virasse a grande inimiga de Maureen não era nada difícil.
A produção de época se escraviza pelo orçamento e também como em Mad Men, nada de externas. A inserção contínua de personagens históricos também é um recurso clássico, o que nos traz à aparição de Tina Turner. O recurso também serve para maximizar os desejos de fama e sucesso de Maureen, que mesmo com um crime nas costas, se recusa a deixar a mansão e abdicar de suas orelhinhas pontudas. E temos Marilyn na capa da edição que a personagem lê, uma intertextualidade que força a barra para que lancemos à ela nossa simpatia pelo ideal romântico da loira ingênua abusada e ferida, na busca pelo sucesso.
Com pressa, o roteiro já nos entrega as tramas coadjuvantes que soam promissoras. Entretanto, perdidas no meio de disso tudo, as confusões provocadas pela busca de um estilo que dê identidade à série, mas que também a torne interessante imediatamente. É como se quisessem ter a coragem que David Chase e Matthew Weiner tinham ao escrever episódios sem ações factuais intensas que terminavam sem grandes cliffhangers, por vezes em silêncio e por vezes sem avisos dramáticos; mas também quisessem ser mais acessíveis ao público generalizado que não busca a intelectualidade ostensiva do espectador. O resultado é uma estreia confusa. Com as sobrancelhas exageradas de Cibrian e a previsibilidade absurda da história que se desenrola na nossa frente.
É cedo para concluir aonde o programa quer chegar. No quesito originalidade, todos ali pecaram sem dó. Algo pode se aprofundar daqui por diante, embora a sensação seja de que a história que será contada dentro do contexto da trajetória da Playboy, poderia ser contada dentro de qualquer outro. Aquele tipo de traição, de romance e de intriga se vê fácil em qualquer drama por aí. A base temporal da série precisa honrar essa condição. The Playboy Club por enquanto é só uma boba história de amor e suspense.