The Walking Dead – 2×01: What Lies Ahead [Season Premiere]

Post escrito por: , em Reviews


Alguém sabe a onomatopéia do barulho que veados fazem?

Spoilers Abaixo:

“It’s the only chance we’ve got.” – Rick Grimes

Como você já deve ter ouvido falar a essa altura da fall season, The Walking Dead sofreu uma grande baixa bem no meio da produção da sua nova temporada. Frank Darabont foi o motivo que interessou várias pessoas na série, dando credibilidade para o projeto e se colocando no centro de praticamente tudo: deu várias entrevistas, ajudou a escrever mais da metade da primeira temporada (incomum para um showrunner, mesmo com o número reduzido de episódios) e até onde qualquer um sabia, parecia bastante satisfeito com a sua equipe e a liberdade oferecida pela emissora em termos de conteúdo.

Assim sendo, a demissão pegou a todos de surpresa.

Até hoje não se sabe ao certo o que fez a AMC degolar a cabeça do maior hit na sua curta história, com rumores sobre os supostos motivos variando do fato de que ele não teria se adaptado a carga horária da televisão, disputas sobre o orçamento reduzido e uma insatisfação com o rumo que o episódio dessa semana estava tomando durante a produção – boa parte da história foi picotada/retrabalhada às pressas quando Glen Mazzara assumiu. E mesmo que essa bagunça nos bastidores acabe significando um futuro dividido para The Walking Dead, a premiere do seu segundo ano é o exato oposto de uma série confusa – com um foco renovado em vários aspectos, pulando de ponto A para ponto B sem cair em antigas complicações. Se grande parte da primeira temporada girou ao redor de cenas emocionais que nem sempre funcionavam nos níveis esperados, “What Lies Ahead” joga a sua energia em uma única história linear que deixa esses momentos virem com naturalidade. Mesmo que os aborde com erros, ele deixa a ação guiar o sentimento, não o contrário. Assim, momentos que nem Andrea confrontando Dale sobre os acontecimentos no CCD ganham mais lógica e poder: você consegue senti-los como uma parte da história, não tentativas fracas de emocionar a qualquer custo.

Claro, isso ocorre em um modo de ultra-sinceridade que pouco a pouco serve de padrão para a série, e que pouco a pouco se torna cansativo como qualquer diálogo ruim em excesso. Grandes discursos! Eloquência perfeita! Gritos! Os personagens parecem ter combinado os temas das conversas antes delas acontecerem, com respostas que são introduções para frases de efeito ao invés de afirmações que um ser humano faria. Mas é de se admirar como tantas mãos em um mesmo roteiro conseguiram fazer um episódio tão bem costurado, dono de um ritmo que ela só havia alcançado no seu piloto.

E o principal motivo disso?

Silêncio.

Quando não está dizendo uma palavra, a série é confiante. A sequência principal da hora, por exemplo, ocorre de maneira impecável sem dizer uma palavra – se The Walking Dead muitas vezes soletra como nós deveríamos nos sentir, aqui ela mostra. À medida que a confusão se transforma em calma, o pânico já se estabeleceu com a natureza interminável daquelas cenas, que pulam do trailer para as ruas e das ruas para debaixo dos carros quase que com sadismo, nunca entregando as suas cartas ao armar várias possibilidades. Quem vai colocar o grupo em risco? T-Dog com o seu ferimento? Uma das crianças inquietas? Andrea presa no banheiro? São tantas opções de desastre que você nem sabe o que vai te atingir, e o conflito é armado de tal maneira que prever as ações dos personagens se torna impossível em uma situação tão rápida, tão repleta de confusão e barreiras.

Quando ela atinge o seu clímax, o faz com alguns bons desenvolvimentos para os personagens. Daryl salvando a vida de T-Dog, Andrea matando um zumbi, Carol sofrendo com o desaparecimento da filha… Não é a manipulação emocional que ocorreu no último season finale. É uma mera extensão do que estava acontecendo, algo que as circunstâncias forçaram e que resulta em momentos de ação com real importância: todo tiro, facada e flechada é mais efetivo com motivações por trás deles, e ao contrário de alguns ataques na primeira temporada, “What Lies Ahead” oferece muitas delas – soco atrás de soco, diversão vindo de algo que realmente importa para os personagens ou que impulsiona a trama para frente em novos e interessantes caminhos. Um prazer de assistir.

Já o resto do episódio desce um pouco a ladeira. Todo mundo passa 40 minutos evitando achar Sophia, pois Darabont (Mazzara? Kirkman? A Tia do Café?) precisava segurar esse mistério até o próximo episódio, conflitos pessoais ocorrem na base de intrigas e suposições ao invés de atos, Shane/Lori ficam a um irmão gêmeo malvado de distância do contrato com a Televisa e Rick pede por um sinal divino. O grande problema não é a intenção dessas ideias em si, mas o fato de que elas necessitam convencer o telespectador de algo através da fala. E esse não é o ponto forte de The Walking Dead.

Há uma diferença de qualidade absurda entre os momentos de ação e os debates do grupo. Entre as caminhadas silenciosas na floresta e os grandes discursos. Neles, a confiança desaba e revela uma escrita frágil. Sem criatividade, sem ritmo, sem até mesmo substância – Carol fala sobre pecar ao pedir a morte do marido, nada disso atravessa a tela. Nada disso ressoa emocionalmente. Para uma série que se propõe a oferecer uma nova abordagem do apocalipse, sem fim e sem esperança, o genérico decepciona. Já ouvimos o seu discurso milhares de vezes, assim como as perguntas de Rick sobre fazer a coisa certa.

Existem ótimas ideias sobre fé e religião em cenários apocalípticos. Elas resultaram em algumas das melhores cenas emocionais de Lost e Battlestar Galactica, serviram para estruturar vários personagens de The Sopranos. Não podemos pedir nada similar de algo com intenções tão menores, mas pelo menos qualquer tipo de novidade. Um pouquinho de sal.

Pois quando The Walking Dead sucede, é nas coisas em que ninguém mais pode suceder. Nenhuma outra série em exibição pode fazer uma sequência como aquela da estrada, por exemplo. Ou o terror do piloto, culminando em inesperada piedade muito antes de atingir o seu final.  Como um pequeno episódio de ação, “What Lies Ahead” é maravilhoso. E boa parte da caçada em si funciona, graças aos diretores (Ernest R. Dickerson/Gwyneth Horder-Payton) que deram compasso inexistente no roteiro, contrastando a tensão explosiva de suas conversas com um movimento quase estático. Mas nos próximos episódios, a série precisa de mais. Crianças sumindo e levando tiros, mortes extravagantes, excelentes sequências de ação… À medida que a trama engrossar, todos esses truques vão ter que sair.

Só então, quando ela for obrigada a colocar algo real no lugar de tanta fantasia, nós veremos a verdadeira The Walking Dead. Em tripas e osso.

Outras observações:

- A coisa foi tão feia entre Darabont e a AMC que ele usou um pseudônimo (Ardeth Bey) nos créditos do roteiro do episódio.

- Ajudem a minha memória: existe algum motivo para o Rick continuar usando aquela roupa de policial além do fato de que é legal? Deve fazer calor.

- Falando em coisas legais apenas por serem legais, adorei aquela cena na qual Daryl abre o zumbi. Nada exemplifica TV a cabo melhor do que intestino fresco, e a desculpa da trama pros personagens serem nojentos foi convincente.

- Não é sutil, mas acho que Carl levar um tiro como um aviso divino (ou babaquice de um caçador) acaba funcionando em contexto. Novamente: a série sempre funciona melhor em silêncio, e ele carrega a cena “Ei, vamos admirar esse veado por nenhum motivo lógico enquanto uma menina está sumida!” nos ombros.

- Interessante notar que apesar de persistir em alguns erros, The Walking Dead está crescendo. Já nesse episódio, ela cria arcos para Shane e Andrea – que pela importância recebida aqui, devem se estender por boa parte da temporada ou pelo menos ter algumas repercussões significativas dentro da dinâmica do grupo (que não é das melhores, dada a desconfiança de Rick, a culpa que Carol joga nele e as infinitas desavenças da primeira temporada). Se ela vai conseguir fazer isso funcionar, não faço ideia. Mas admiro a ambição em quebrar um pouco da monotonia.

Tags

Comente no Facebook

  • Jú.P

    Mas Germano, todo mundo já trocou de roupa, eu acho, menos ele, e ele podia procurar uma roupa nova nos carros que nem os outros fizeram… Mas ai ele ia perder a cara de ‘lider’ do grupo ne, pq é mto mais legal ser um líder com uniforme pra diferenciar hahahahha

  • Paulo

    Cara estão conseguindo transformar um dos melhores seriados em novela.
    uma pena ;/
    (comentário feito após o 4º episódio da segunda temporada, mas eu tive essa impressão desde o começo dessa temporada)

  • lucasmatthaus

    putz, esse episodio foi um pé no saco! leeeeeento e toda aquela babaquice de falação dentro da igreja foi um tormento, adiantei na mesma hora que vi que ia começar aquele discurso. Dizer que a série melhorou é demais, ao meu ver chegou até a piorar, falo desse primeiro episódio. Os personagens continuam extremamente sem nenhum sal, não despertam minha curiosidade e por favor (esse é um pedido aos escritores da série) matem logo o Carl.

Desenvolvido pelo Cientista da Web