Spoilers abaixo!
“Got bit. Fever hit. World gone to shit. Might as well quit.”
Um dos maiores problemas que The Walking Dead enfrenta é a contínua insistência em tentar abordar assuntos difíceis de maneiras simples – que dependendo do episódio, diminui a dimensão da situação ou cria decisões que soam pouco convincentes quando vindas de certos personagens, convenientes apenas para a trama e nada mais. “Save the Last One” é mais um episódio nessa boa sequência para a série justamente por entender isso, e logo em seguida subverter ao trazer lógica para tais decisões. Já de cara, Lori fala sobre tentar criar uma criança nesse mundo, chegando à conclusão – prontamente contestada por Rick – de que talvez não seja uma boa ideia. De que Carl ficaria melhor em paz. Morto.
Esse momento é difícil para uma série que ama seus desvios melodramáticos. Um banquete para um homem faminto, onde bobagem e choque poderiam dominar a tela e matar qualquer simpatia por uma personagem que não é das mais agradáveis. Mas o roteiro consegue algo interessante, amarrando a discussão entre o casal Grimes com toda a noção da falta de rumo, de não ter pelo que lutar. Como falei semana passada, isso é um problema para a série, e é bom ver ela o reconhecendo aqui – um belo exemplo de como é possível usar situações internas para abordar problemas em grande escala, sutileza que não esperava da série dado o seu histórico.
Assim, com um bom apoio nas suas costas, os argumentos ganham certa lógica. E o envolvimento com eles, é claro, aumenta. Também é interessante notar como soa real: se você não é Aaron Sorkin, colocar personagens falando sobre Temas com T maiúsculo é receita para soar pretensioso e irritar as pessoas que só querem ver zumbis morrendo/explodindo/sendo decapitados e cortados, de preferência na mesma cena. Por favor, obrigado, coloque o resto na marmita. Mas jogando essas ideias contra a dor de um casal, a série ganha permissão não só para discutir esses assuntos, como para exaltar todo o processo. Agora, eu me importo com essa família: eles enfrentaram problemas, discutiram esses problemas, superaram esses problemas com força suficiente para seguir adiante – mesmo que em uma direção que não parece promissora. Isso é desenvolvimento. Bom desenvolvimento.
Falando em desenvolvimento, as outras tramas de “Save the Last One” provam que essas não foram só tentativas pontuais de livrar a série de alguns dos seus hábitos mais irritantes. Ela está em uma nova direção, dessa vez pra valer.
Uma das críticas mais comuns que essa temporada está recebendo é em relação a sua “lentidão”, que seria apenas uma tentativa de enrolar a audiência. Mas o que esse argumento compreensível ignora é como um ritmo lento bem aplicado eleva todos os elementos ao seu redor. É mais fácil entender alguém através de conversas do que de fugas, e enquanto as melhores séries conseguem fazer ambos (olá, “33″ de Battlestar Galactica), The Walking Dead 1) ainda é um bebê 2) não é tão habilidosa.
Algo que não me incomoda tanto quanto deveria. Afinal, o esforço e sucesso parcial da segunda temporada são visíveis na tela. Ela não só está tentando ser boa, como tentando se entender. Aqui, a prova mais clara é a união de Daryl e Andrea por boa parte do episódio. Uma das coisas mais importantes para séries funcionarem é encontrar quais combinações de personagens funcionam*, e essa aqui é maravilhosa. Não é apenas colocar duas pessoas diferentes na mesma cena e ver o que acontece, é entender quais pontos de vista podem explorar bem um pouco de suas histórias ou moverem a trama. Aqui, Andrea assume uma posição misericordiosa gerada mais pelo jeito selvagem de Daryl do que por qualquer pena – momento que se conecta diretamente a sua trégua com Dale no final do episódio.
Você entende por completo o que está acontecendo, mas as conexões são construídas de tal maneira que só se tornam notáveis quando finalizadas. Boa escrita! Em The Walking Dead! Sim, estou tão chocado quanto vocês.
Outro ponto também beneficiado pelos longos momentos de calma é a ação. Suas grandes sequências funcionam bem melhor entre longas doses daquele clima rural, seja por uma mera questão de ritmo, pelo simples poder do contraste ou pelo fato de que o foco fica maior com apenas dois personagens correndo. No fundo, é irrelevante. Sabemos que a série não vai matar Carl (apesar do seu terror, ela ainda não parece ser tão cínica para isso), sabemos que lógica obriga Hershel a conseguir o equipamento para salvá-lo – ou seja, enquanto toda a ação ocorre, sabemos que alguém vai conseguir escapar dos zumbis na escola e voltar para a fazenda.
O que nos leva aos últimos minutos do episódio. A “reviravolta”.
Mesmo sendo uma boa maneira de transformar Shane em um personagem interessante, o destino de Otis era óbvio – tudo, do seu remorso absoluto e santo ao modo como os roteiristas o fizeram executar o plano, soltava aquele cheiro forte de personagem criado para morrer. E se a ideia em si já era garantida, pelo menos a execução ajudou: todo aquele vai e vem no final foi bem feito, uma sutil maneira de resumir a estrutura do episódio com agonia (mas todo aquele flashforward define “truque desnecessário”, principalmente quando eles poderiam usar aquela linda montagem que vem logo depois da abertura).
Resta descobrir como isso será lidado. Como Shane vai aguentar o seu primeiro momento na posição de um animal selvagem. O clima final de “Save the Last One” indica que ele vai guardar essa mudança e tentar matá-la através de fortes doses de mentira, mas… Nada é certo em The Walking Dead. E apesar do grande aumento na qualidade, isso não é um elogio. Muita coisas podem dar errado. Muitos velhos hábitos podem voltar. Ainda nem chegamos na parte da temporada sem o dedo do Darabont.
Mas não vamos nos preocupar. A série está melhor do que nunca agora.
E ainda temos o T-Dog! Meu personagem favorito, em algum universo alternativo.
Yay, T-Dog.
Outras observações:
- Aprecio o fato de que a série não está nem tentando esconder o que vai fazer com Maggie e Glenn. Só faltava começar a tocar “Gravity” entre os olhares deles.
- Entre o flashforward na abertura e Shane cortando o seu cabelo depois de um evento traumático, fiquei com a leve impressão de que algum roteirista assistiu Breaking Bad durante as férias.
*- Um exemplo já clássico disso é a dupla que Troy faz com Abed em Community. Quando originalmente criado por Dan Harmon, Troy dividiria mais tempo de tela com Pierce – para tentar fazer comédia do conflito de gerações entre os dois. Mas na tag do episódio 2, ele e a equipe de roteiristas chegaram à conclusão de que a química do Donald Glover com o Danny Pudi era bem maior que a dele com o Chevy Chase. E o resto é história.
