
A mamãe gritou: quá, quá, quá, quá! Mas nenhum patinho voltou de lá.
Spoilers Abaixo:
“That’s either a gift here or a death sentence out there.” – Rick Grimes
“Pretty Much Dead Already” serve como um belo ponto final para as várias histórias que a série lançou na season premiere, mas ao mesmo tempo passa uma desagradável sensação de esforço no processo. Os vários conflitos não aparecem naturalmente, dando pra ver as mãos dos roteiristas por trás de cada ação ou desentendimento. Os diálogos são voltados para transmitir o ponto temático da semana na maneira mais carregada possível, não para refletir os personagens – enquanto o desejo de Carl em salvar Sophia tem bom fundamento, ele dizendo algo “Isso pode ser um lar” chega a ser insultante. Nada é natural, nada se costura a um universo bem planejado: coisas acontecem aqui por tudo menos merecimento.
Mas dois pontos fazem esse midseason finale funcionar apesar desses problemas, que são mais gerais da série do que dele próprio. O primeiro é como amarra alguns dos seus saltos de lógica, passando a ideia de que havia bom planejamento em certos arcos e de que tudo era um grande plano para misturar noções interessantes sobre humanidade em sangue e cérebros. Se você acha que os roteiristas têm uma grande filosofia em mente ou apenas estão improvisando no caminho, isso é meio que irrelevante para um episódio que parece tão determinado em ser importante e dramático e perigoso e “Pelamor dos Deuses de Kobol, você acredita que eles fizeram ISSO?”.
Sim, acredito. É aquela série com a melancia na cabeça.
O segundo ponto é a direção de Michelle MacLaren, que usa alguns dos seus charmes estilísticos típicos de Breaking Bad (aquelas longas imagens dos personagens na distância, a maneira rasante como as explosões de violência ocorrem, o uso fantástico dos belos cenários) para injetar vida na coisa toda, transformando pontos da trama em situações que são bem mais desenvolvidas do que possuem a lógica para ser. A ideia de Shane como um vilão justificado, por exemplo, vinha sendo elaborada faz um tempo, e mesmo acertando em cheio no medo, nunca passava uma sensação de urgência ou demonstrava muito bem como isso se relacionava ao resto do grupo e como era representado em ações. Você sabia, ouvia e até mesmo sentia como estava acontecendo – mas nunca via. Já aqui, nós vemos. E por acontecer depois de tantas conversas difíceis e no ritmo que aconteceu, o impacto acaba sendo enorme, com todos os pontos se amarrando na hora (seu relacionamento com Rick, a perda de Lori e Carl, Dale o irritando).
O conflito moral de Hershel também ganha o mesmo tratamento, virando nas coxas uma excelente história sobre o homem que teve a sua vida destruída em menos de cinco minutos. A série sempre parecia confusa em como cortar a farra do personagem pragmático que conhecemos lá no segundo episódio, em como fazer a sua declaração sobre a mudança de estilo de vida que a situação atual necessita. Mas “Pretty Much Dead Already” resolve a questão em menos de quinze minutos, pulando de cena em cena com Hershel e destruindo a ideia do personagem com eficácia. Rick acerta o lado racional dele com aquela forte cena onde defende a permanência do grupo no local, e Maggie sela o destino da maneira que só uma filha poderia fazer – mas só depois de ter inúmeras brigas sobre o assunto com Glenn e finalmente reavaliar a sua definição tão ferrenha de vida. Não tenho certeza se o que antecede justifica (depois da sua brilhante introdução, Hershel pareceu ser mais um obstáculo do que um personagem), mas ao terminar com o velho caído na sua terra ao lado dos mortos que ama, o resultado foi de quebrar o coração.
E esse resultado veio, é claro, na forma de um massacre.
Aquilo foi legal, não? Sério. Bem, bem legal. Andrea atirando na cabeça dos errantes com a mais absoluta perfeição, Shane invocando algum tipo de demônio, Glenn executando o ponto de vista “É ok matar zumbis!” da nova Maggie, Dale não conseguindo impedir o feito do seu novo inimigo mortal, e Sophia aparecendo da pior forma possível, no estado que todos temiam… Discutimos nessas reviews os méritos individuais de cada uma dessas tramas, mas a série merece crédito pela forma bonitinha como representou isso em uma só sequência de ação. Muito da temporada até agora tinha sido guiado por um conflito de liderança e um momento como esses se torna inevitável para que Rick não caia naquela síndrome de Super-Homem ou para que a própria série não vire uma Dexter da arte de nunca evoluir.
Salto de lógica, a presença da menina no celeiro? Um pouco. Exagerado? Muito. Mas as intenções são boas, a lógica acaba fazendo sentido e isso serve como um resumo de The Walking Dead: você recebe pelo que pagou, e se isso é definido por fortes e fracos confrontos emocionais, irregularidade, personagens vagos, ideias devastadoras, e alguns dos melhores momentos de ação e suspense da atualidade, que seja. Só sei que é interessante tentar entender essa série, e que se divertir com os seus pequenos prazeres é ainda melhor.
Outras observações:
- Sabiam que T-Dog tinha personagens equivalentes em vários dramas famosos como Lost, The Sopranos e Battlestar Galactica? Eles se chamavam “figurantes”.
- Bom ver que os roteiristas atenderam aos pedidos de TODA A NAÇÃO e estão trabalhando o relacionamento Daryl e Carol. Pra falar a verdade, esse é o único motivo pelo qual ainda assistimos a série (quer dizer, quem acha zumbis legais, né?).
- Dale está interpretando um papel infeliz, aquele da pessoa chata que tenta prevenir algo ruim de acontecer sem causar alarde. Mas gosto do personagem, ele tem uma humanidade básica que falta em muitas das pessoas ali.
- Aquela primeira cena foi um típico caso dos roteiristas serem honestos com a audiência por não terem outra saída. Eles sabem que o grupo precisa descobrir o que está acontecendo no celeiro, eles sabem que nós sabemos disso e assim, Glenn apenas solta o segredo depois de alguns segundos constrangedores. É, é: vocês entendem o que estamos fazendo aqui… Vamos todos seguir em frente.
- Shane fala muito sobre lutar por sobrevivência e sobre as regras do mundo terem mudado depois do apocalipse zumbi, mas os seus motivos para perseguir com tanta insistência essa ideia acabam sendo tão pessoais quanto os do Dale que tanto critica. Lori não quer mais a influência dele na sua vida, e assim como a sua reação para qualquer outra coisa, ele sai quebrando tudo sem antes conversar com os outros.
- Uma das piores coisas sobre essa temporada é como nunca entendemos muito bem a situação de Andrea e Dale. Não é ambiguidade dramática ou algo tipo, apenas um conjunto de momentos que não esclarecem nada – ela diz que não está de bem com ele, age como se estivesse. Depois diz que entende, mas parece brava no resto da cena. Dica pro showrunner da série, o Glen Mazzara: é meio que enlouquecedor.
- Eles estavam tentando resolver toda aquela discussão sobre crianças com o Rick tomando a decisão de matar Sophia, mas foi uma ideia que nunca chegou a funcionar. Como Amy bem sabe, a discussão no grupo e entre ele e Lori nunca foi sobre os zumbis (o único personagem que necessitava uma ação dessa era Hershel, ponto que a série resolveu maravilhosamente bem com a decisão de Shane).
—————————————————————————————————————————————————————————–
Como a AMC decidiu dividir essa temporada em duas partes, The Walking Dead só retorna com novos episódios em fevereiro. E enquanto isso não chega, você pode gastar o seu tempo com boas séries ou seguindo filhotes de gato no Twitter – de preferência os dois. Até lá!