
Eu nunca fui fã de covers. Na maioria das vezes eles estragam sua identificação com o produto original. Alguns se salvam inexplicavelmente, ousando na estrutura ou apostando em homenagens. O manuseio da obra de outrem quase sempre resulta em estranheza, mas com apuro e respeito, é possível alcançar o sucesso com remakes e remontagens. É o caso de Glee. Em meio a tudo que a série tem de vulnerabilidade dramatúrgica, está uma competência musical invejável. Cercada de arranjos impressionantes e vocais de tremer a espinha, Glee pode não ter 30 motivos para ser a melhor série da atualidade, mas tem pelo menos 30 canções que fazem sua existência valer a pena.
Ryan Murphy poderia facilmente emplacar um novo sucesso dramático depois do prestígio que alcançou (e depois perdeu) com Nip/Tuck, uma série médica sobre cirurgia plástica que ousava mais do que qualquer outra do gênero. Com 3 temporadas de elogios e mais três de agonia, o show abriu-lhe portas para mais incursões no mundo do bizarro. E ele até que tentou, mas o piloto sobre o transexual enrustido não agradou os executivos da Fox e não foi adiante. Talvez por isso mesmo ele jamais tivesse acreditado que Glee ganhasse um sinal verde. Mas ganhou, e cinco episódios mais tarde, já era um hit no tráfego de downloads musicais, ganhando a atenção do público e da crítica.
De lá pra cá, Glee oscilou entre o absurdo injustificado e a qualidade dramatúrgica. Suas qualidades perambulam perdidas em meio aos exageros cometidos por Murphy, e que já são sua marca registrada. Embora exija que entidades da inspiração lhe encostem para escrever bem, vive traindo seus personagens, obrigando-os a tomar decisões comportamentais que muitas vezes não condizem com suas personalidades. Ao mesmo tempo, Glee é ousada, inteligente, sarcástica e sabe fazer humor quando quer. Vive errando e reiterando erros, mas mantém uma capacidade catártica inabalável.
É por isso que eu, e minha compulsão por montar coletâneas, criamos o que seria o The Best Songs From Glee, divididos em duas trilhas, uma para cada temporada. Com isso, relembramos a trajetória musical da série até aqui e nos preparamos para o que vem na terceira temporada.
Disco 1 – Primeira Temporada
1. Somebody To Love
O elenco da série nos presenteia com essa bomba que reúne toda a força criativa dos produtores musicais. O cover da canção do Queen é um marco para o programa. A canção tem tantas reviravoltas emocionantes que chega a dar um nó na garganta. É uma das preferidas do elenco até hoje.
2. Defying Gravity
Rachel e Kurt dividem esse dueto maravilhoso, que na série foi motivo de uma disputa que acabou não muito bem para o rapaz. A canção, do musical Wicked, tem uma letra sensível e combina perfeitamente nas vozes de Lea Michele e Chris Colfer.
3. To Sir, With Love
Nos anos 80, quando grupos de crianças cantantes eram muito comuns, um produtor quis abrir uma concorrência direta com O Trem da Alegria e criou Os Abelhudos. O carro chefe do trio era uma versão dessa canção, chamada Ao mestre com carinho. A canção foi um estrondo e tocou em 99% das formaturas do ensino fundamental e médio dos anos seguintes. Aqui, a série Glee dá um tratamento tão elegante, com um lindo arranjo de violinos, ao hino clichê dos mestres, que não poderia estar ausente dessa lista.
4. Don’t Rain on My Parade
Um dos melhores momentos da primeira temporada aconteceu antes do hiato, na competição seccional dos corais, quando Rachel é obrigada a pensar num número improvisado e entra pela platéia cantando Dont Rain on my Parede, do musical Funny Girl. O arranjo e a força da interpretação da atriz é tão arrebatador que o momento ficou marcado como um dos mais catárticos da série.
5. Dream On
Sei que os fãs do Aerosmith não vão gostar do que eu vou dizer, mas essa versão de Dream On dá uma balançada boa no pessoal do Steve Tyler. O arranjo é perfeito e o dueto entre Matthew Morrison e Neil Patrick Harris é redondinho.
6. Bad Romance
Aqui temos outro caso de versão original que fica devendo pro cover. O elenco da série transformou a ralentada, ruidosa e superestimada canção de Lady Gaga numa explosão de animação muito mais clean and fashion… walk, walk, fashion baby…
7. Lean On Me
O clássico de Bill Withers ganha uma versão no episódio Ballad e tira todo mundo do eixo de novo. A canção segue a métrica de Somebody To Love, com arranjo forte e vocais emocionados.
8. Rose’s Turn
O personagem gay da série não poderia deixar os musicais de lado e Kurt acaba ganhando a maioria dos números ao lado de Rachel. Aqui, ele canta essa bomba do musical Gypsy num momento incrível do personagem.
9. Over the Rainbow
Não sou muito chegado aos momentos musicais de Matthew Morrison no programa, mas essa emocionada versão do clássico de O Mágico de Oz é de comover qualquer um. É bem verdade que a ilustração da música dentro do episódio ajuda muito a categorizar a faixa, mas mesmo assim, o perfeito arranjo de violão e vocalizes dá o tom adequado de doce tristeza à canção.
10. A House is not a Home
O clássico de Dione Warwick não poderia ter sido mais respeitado. A interpretação comovida de Kurt, com uma pequena intervenção de Finn, foi um dos momentos mais coerentes dentro do plot do episódio.
11. Like a Virgin
Nunca gostei muito dessa canção de Madonna, que é também o seu primeiro grande sucesso. Mas a união das vozes de Rachel, Jesse, Will, Emma, Finn e Santana dentro de um arranjo inspirado, elevaram a canção à outra categoria. Os vocalizes de Naya Rivera merecem outro destaque aqui. Embora a base da canção fosse a mesma da original, a ousadia dos arranjos vocais a tirou totalmente do lugar comum.
12. Bohemian Rhapsody
Essa é, sem dúvida, a minha canção preferida da série. É também o melhor momento do programa nesse primeiro ano, embora ironicamente não seja protagonizado pelo elenco do show. Mas o segredo para uma coletânea coesa é não colocar suas músicas preferidas pelo começo, ou o final do álbum perde força. Esse cover do Queen é tão poderoso que não tem nem como explicar. É a soberania visual da série e um primor musical que deve ser agradecido a Freddie Mercury pra sempre!
13. Poker Face
Quando o episódio com canções de Gaga foi ao ar, ninguém imaginava que qualquer produção da Mama Monster fosse ser maculada com arranjos desconstruídos. Todos se surpreenderam com a força pop de Bad Romance e mais ainda, com a lapidação de um chiclete como Poker Face, numa canção comovente que acabou começando a ser executada até pela própria Gaga em seus shows. O dueto entre Lea Michele e Idina Menzel é tão lindo que você se pergunta como algum dia alguém chegou a dançar nas pistas ao som dessa música.
14. Faithfully
Todos devem estar se perguntando como Dont Stop Believing, do Journey, ainda não apareceu nessa lista, mas embora a canção mereça uma menção honrosa pelo que representou para os personagens e para a banda , a melhor remontagem de uma faixa do Journey, pra mim, é essa belíssima balada brega chamada Faithfully. A letra é quase uma homenagem ao estilo Wando de se escrever canções, mas a interpretação de Lea e Cory tem tanto respeito, sinceridade e ternura, que você esquece esse detalhe e se joga nas guitarras melódicas e na bateria retumbante. O final da música é tão emocionante que se você não se arrepiar é porque esqueceu o coração em casa.
15. What it feels like for a girl
Outra de Madonna. Só que essa, só pra ilustrar o quanto um arranjo pode enriquecer uma canção. A versão excessivamente dançante da diva, combinada com o clipe ridículo e machista produzido por seu então marido Guy Ritchie, me faziam ter ojeriza dessa música. Mas aqui, cantada pelos rapazes de Glee, ela ganhou um arranjo meio lounge que faz querer dançar e ao mesmo tempo impressiona pela sensibilidade. O cadeirante Artie tem um ótimo momento nessa canção. No episódio ela perdeu espaço para os clássicos da cantora e é executada muito rapidamente. No entanto, trata-se de uma pequena obra-prima que representa bem o quanto Glee pode ser sagaz e interessante.
Fique por perto para a segunda parte do post com os 15 destaques musicais da 2ª temporada de Glee.